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É DIA DAS MÃES!

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • 10 de mai.
  • 5 min de leitura
Ilustração feita pelo ChatGPT
Ilustração feita pelo ChatGPT

 

*Eduardo Papa

 

Pode parecer fácil discorrer sobre o Dia das Mães. Afinal, trata-se de uma unanimidade, mãe é mãe. O que não é nada fácil é escapar da pieguice, imersa em platitudes desprovidas de qualquer conteúdo que possa estimular uma reflexão inteligente. Qual é? Vai levar papo cabeça no dia das mães? Para quem pensa assim: pega a visão, bobo és tu e não tua mãe! E se você a trata naquela vibe do “avental todo sujo de ovo” e foi hoje comer a comidinha gostosa que a velha faz, sem nem sequer lavar a louça no final, estás em infração grave! Ano que vem vá para a cozinha fazer alguma coisa que preste, se não ficar bom na primeira vez, tente no outro ano. E eu desejo que tenhas a oportunidade de tentar muitas e muitas vezes.

 

A primeira coisa para a qual chamo a atenção é para a violência e crueldade de como as principais mitologias fundadoras da cultura ocidental, a que nos agregamos, trataram a maternidade. No mito de fundação do antigo testamento a maternidade é uma punição, caso Eva não tivesse induzido Adão a consumirem o fruto proibido (o conhecimento), estariam até hoje, e ad eternum, vivendo no paraíso. Na mitologia grega, no mito da criação, a mãe Gaia (a terra) é estuprada seguidas vezes por Urano (o firmamento), que mata e devora os filhos que  nascem. Será por acaso que os primeiros homens que escreveram esses mitos fundadores lançaram todo esse estigma contra a maternidade?

 

O “acaso” não existe. Essas culturas, onde surgiu a escrita, foram as que viveram a transição da estrutura social e familiar tribal, em que a definição da linhagem é materna, para as sociedades dos “pater famílias”. Nas sociedades primitivas o papel das mulheres era crucial. Em um grupo humano do paleolítico a perda de um grande número de homens jovens em um evento era algo muito grave, mas o grupo poderia se recuperar. Porém, perder um número significativo de fêmeas, capazes de conceber, comprometia a continuidade de sua existência. No neolítico tínhamos mais deusas que deuses e a fertilidade, tanto da terra quanto das mulheres, era o elemento central como imagem de sucesso e prosperidade de qualquer sociedade, e foi comumente divinizada. As primeiras imagens de divindades criadas por nossos ancestrais, que a nós chegaram, foram estátuas de matriarcas, de ancas largas e seios voluptuosos.

 

No cristianismo, Maria é a mãe do deus vivo, foi na única a acompanhar até o fim seu martírio na cruz, e não teve o devido reconhecimento pela Igreja, assim como Maria Madalena. Era uma santa de segunda grandeza, até a Alta Idade Média, quando o papado inflou seu culto para se contrapor as canções de gesta, em que nobres cantadores e menestréis valorizavam as mulheres, com um enfoque um tanto mais mundano. Na sociedade medieval, profundamente mística e religiosa, as mães são importantes elementos constitutivos. A preservação da linhagem paterna, que se consolidava como fio condutor para a transmissão da herdade entre as gerações, depende da fidelidade das esposas, e, para evitar dúvidas criaram a engenhosa solução do cinto da castidade.

 

Na sociedade brasileira, segundo Gilberto Freire, cunhã é a mãe índia da nação, e foi fundamental para o sucesso da colonização portuguesa no Pindorama. Portugal, com um ralinho de gente, jamais poderia colonizar um mundão como o Brasil sem a miscigenação. Como assinalou Darcy Ribeiro, as novas ferramentas de metal tão logo surgiram se tornaram indispensáveis, e os gentios nada tinham de maior valor para trocar com os europeus além de suas filhas, e assim povoou-se a colônia. A França Antártica fracassou pelo sectarismo de seus líderes, que vedavam a seus crentes a injunção carnal com os nativos, enquanto o apreço dos lusos pela carne mais escura garantiu a prosperidade da colonização portuguesa.

 

Quando a carne preta escravizada começou a chegar em grande número no Brasil, e a economia escravista estruturou-se como dominante na lavoura e na mineração, a maternidade passou por uma bifurcação. Enquanto na casta brancarana de proprietários regras severas e restritivas controlavam a maternidade, em função da preservação da propriedade. Pelo mesmo motivo, entre a massa trabalhadora escravizada a procriação era estimulada, incrementando os cabedais dos proprietários (hoje nossos assessores de investimento chamariam de ativos). Ora vejam que idiossincrasia: herdamos uma licenciosidade com objetivo natalista entre os miseráveis, e uma repressão sexual rigorosa para as mães nas classes de proprietários, enquanto seus filhos pais e maridos se esbaldam em uma orgia quase institucional.

 

Com a imigração européia do final do séc. XIX até meados do séc. XX, chegaram as nonas e as babuskas. Um novo ingrediente nesse caldeirão foi acrescentado, a experiência familiar dos pobres europeus. Italianos, polacos, alemães poderiam gerar uma importação de valores para influenciar a população em geral a se aproximar à civilização européia, essa era a idéia. Qual nada! Os carcamanos e os polacos viraram uma bugrada só. Ainda que alguns tentem cultuar os valores de uma terra que escorraçou seus antepassados, o Brasil é um sorvedouro gigantesco, que absorve as mais variadas culturas, imprimindo o seu jeito e interpretação própria, mostrando, generosamente aos pobres coitados que não são daqui, como a banda toca em nosso canto do mundo.

 

 No Brasil mãe é coisa séria, que se for ofendida dá briga de facada. Mesmo o mais empedernido e celerado malfeitor, em frente a mãe pede benção e demonstra contrito respeito. E não é sem razão, desde a cunhã do séc. XVI, até a trabalhadora migrante do séc. XX, como D. Lindu a mãe do nosso presidente, que as mães do Brasil são o alicerce da nossa sociedade, pelo menos do que presta nela. Não é por outro motivo que os cadastros para inscrição em benefícios sociais, destinam a contas controladas pelas mães os subsídios estatais, expondo na prática a hipocrisia da estrutura patriarcal. Para que os recursos cheguem até as crianças, o caminho são as mães, se deixar com os pais é capaz de parte ir parar nos cofres das bets, ou coisa pior.

 

Por tudo isso, você que ainda tem mãe viva aproveite a data para honrá-la e usufruir do mais limpo e desinteressado afeto que conhecemos, o amor materno. A mim o destino concedeu o privilégio de poder cuidar da minha mãezinha em sua velhice. Dona Victória Theresa que, aos 95 anos, lúcida e orientada, acompanha o que acontece no mundo como minha leitora número um. Está agora aqui ao meu lado, como todas as semanas, curtindo meu artigo antes mesmo que o envie a redação, e mandando um abraço a todas as colegas leitoras do Pimenta Rosa.

 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 

 
 
 

1 comentário


jordhanlessa
10 de mai.

Muito bom o artigo, parabéns!


Quero deixar uma singela homenagem para as mães que perderam suas filhas e filhos para a violência, assim, como também para filhas e filhos que sepultaram suas mães vítimas da mesma violência.

Cada dia que o noticiário nos informa que mais uma vida foi ceifada, que era uma mãe, que deixou suas crias ou ao contrário, era uma filha que deixa mãe idosa que cuidava, meu coração perde um pedacinho. Basta de tanta violência!

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