Direitos LGBTQIAPN+ nas empresas: avanços, retrocessos e os desafios para manter a diversidade na agenda corporativa
- Pimenta Rosa
- 29 de jun.
- 4 min de leitura
No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, analisa o impacto do recuo de políticas de diversidade no mundo, os reflexos no Brasil e defende que inclusão é estratégia de negócios, inovação e direitos humanos.

Enquanto milhões de pessoas celebram o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, neste 28 de junho, um movimento observado em parte do mercado corporativo internacional acende um sinal de alerta: empresas têm reduzido investimentos ou revisto políticas de diversidade, equidade e inclusão, especialmente após mudanças no cenário político dos Estados Unidos. Embora esse recuo tenha ganhado força no exterior, especialistas afirmam que o contexto brasileiro segue um caminho diferente, sustentado por uma legislação mais protetiva e por organizações que entendem a valorização da diversidade como parte da estratégia de gestão, inovação e respeito aos direitos humanos. Para analisar esse cenário, o Pimenta Rosa entrevista com exclusividade Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, uma das principais iniciativas empresariais voltadas à promoção dos direitos da população LGBTQIAPN+ no ambiente corporativo. Conselheiro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República, sócio-diretor da Txai Consultoria e autor de referência na área de diversidade organizacional, Bulgarelli acompanha há décadas a evolução das políticas de inclusão no Brasil. Na conversa, ele explica por que o enfraquecimento dessas iniciativas representa riscos não apenas para trabalhadores LGBTQIAPN+, mas também para as próprias empresas, comenta os impactos das decisões tomadas por multinacionais, destaca a atuação do Fórum na mobilização de lideranças empresariais e reforça que promover ambientes inclusivos deixou de ser apenas uma pauta social para se tornar um diferencial competitivo e uma exigência cada vez maior da sociedade, dos consumidores e do mercado.
Nos últimos meses, diversas empresas globais têm reduzido investimentos ou revisto políticas voltadas à diversidade e inclusão. Esse movimento já apresenta reflexos no ambiente corporativo brasileiro?
Faz algum tempo que está afetando. Desde 2023 estamos enfrentando, nos EUA, uma resistência dentro do próprio meio empresarial à chamada agenda ESG, na qual a diversidade está inserida. Tudo se agravou com a posse do presidente Donald Trump, e o número de empresas que recuaram aumentou. É muito estranho isso porque no Brasil a direção tomada pelo ambiente empresarial é outra, assim como nossas leis, normas e as práticas governamentais.
Quais riscos uma eventual diminuição do compromisso empresarial com pautas LGBTQIA+ pode trazer para trabalhadores, consumidores e para a construção de ambientes mais seguros e inclusivos?
É um tema, a diversidade sexual e de gênero, ainda muito frágil na própria agenda de valorização da diversidade no meio empresarial. Ainda temos uma espécie de autorização para praticar discriminação contra pessoas LGBTI+, apesar das mudanças patrocinadas, sobretudo pelo STF, como a criminalização da LGBTI+fobia. O recuo gera atrasos, reforça barreiras, coloca em risco trabalhadores, mas também coloca em risco as empresas brasileiras ou multinacionais que estão aceitando essa orientação vinda dos EUA. A legislação aqui é outra e as multas estão chegando.
Na sua avaliação, o apoio às iniciativas LGBTQIA+ nas empresas está consolidado como uma estratégia de gestão e direitos humanos ou ainda depende de fatores conjunturais e pressões externas?
O mundo das empresas não é um bloco monolítico, então, temos as empresas que sumiram e temos as empresas que estão firmes e fortes no tema dos direitos humanos de pessoas LGBTI+. O Fórum, por exemplo, reúne essas empresas engajadas e que avançam cotidianamente no entendimento de que respeitar e promover direitos LGBTI+ faz bem para as pessoas, para os negócios e para a sociedade.
Como o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+ tem orientado as organizações diante desse cenário de questionamentos e recuos em políticas de diversidade observados em alguns mercados internacionais?
Muitas empresas deixaram o Fórum porque deixaram também de agir no tema, mas as empresas que ficaram atuam diariamente para colocar os 10 Compromissos que a presidência assinou. Esse engajamento em torno dos Compromissos ajuda muito. Nossa orientação tem sido essa e é bonito ver que há CEOs que expressam também o porquê do engajamento, a crença de que isso é um movimento irreversível e que tem alto impacto positivo para as marcas e os resultados da empresa.
O que os indicadores e experiências acumuladas nos últimos anos mostram sobre os benefícios concretos da inclusão LGBTQIA+ para as empresas e para a sociedade brasileira, e por que esse debate continua estratégico para o futuro dos negócios?
No Brasil, infelizmente estudamos poucos os dados, fazemos poucas pesquisas sobre impactos com a valorização da diversidade, então, temos que nos basear nos relatos e nos poucos estudos existentes. Eles mostram, como o do Banco Mundial, o custo da discriminação de pessoas LGBTI+ em quase 1% do nosso PIB. Há impactos positivos na atração de talentos, diminuição da rotatividade de profissionais, expectativas de consumidores e parceiros de negócios, incluindo investidores, que cobram compromisso das empresas com a valorização da diversidade. As demandas específicas das pessoas LGBTI+ apresentam-se para as empresas como fonte de inovação, na medida em que considerá-las gera aprimoramentos importantes na gestão empresarial. Levantar nossa bandeira melhora o todo e as empresas engajadas no tema já sabem disso.





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