Doce de Leite, Segredos e Afetos: Três Gerações de Mulheres Rurais Chegam ao Teatro Ipanema
Escrito e dirigido por Tairone Vale, espetáculo “Doce Árido” aborda a solidão, trabalho de cuidado e conflitos silenciosos no interior de Minas Gerais

O que você seria capaz de fazer diante da oportunidade de transformar radicalmente a própria vida? É sob essa inquietação que se constrói “Doce Árido”, espetáculo que está no palco do Teatro Ipanema Rubens Corrêa. Com texto e direção do dramaturgo Tairone Vale, a montagem reúne as atrizes mineiras Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini, que interpretam três gerações de mulheres unidas pelo trabalho artesanal do doce de leite e atravessadas por profundos dilemas silenciosos.
A trama se passa em uma pequena roça no interior mineiro. A rotina pacata da família é alterada quando surge uma encomenda inesperada vinda do exterior, prometendo a chance de uma virada financeira. Para cumprir o prazo, a casa mergulha em um ritmo exaustivo de produção. Contudo, o verdadeiro desafio não está no relógio, mas nas feridas e segredos guardados entre as paredes do lar.
Tensão entre a tradição, o afeto e a aridez
Em cena, a matriarca Maria Quitéria (Layla Paganini) assiste ao desandar das relações familiares com olhar atento. Pressionada pela urgência do pedido, sua filha Maria Antônia (Pri Helena) exige dedicação absoluta à tarefa, enquanto a jovem Maria Lúcia (Rebeca Figueiredo) se vê dividida entre o manuseio do tacho de doce e os cuidados com a filha recém-nascida, Maria Clara, cuja frágil saúde impõe um estado de constante alerta.
“Um dos motivadores para esse trabalho foi pensar no que aconteceria se uma mulher tivesse depressão pós-parto em um cenário isolado, rural, sem estrutura e recursos”, explica o diretor Tairone Vale, que resgatou afetos e memórias de sua infância no interior de Minas Gerais para construir a narrativa.
Escrita em 2013, a dramaturgia estreou no ano passado em Juiz de Fora e passou pelo Festival de Curitiba antes de aportar na capital fluminense.
Espelho da realidade e recursos cênicos
Apesar da atmosfera ficcional, a peça dialoga diretamente com dados do Censo 2022 do IBGE, que apontam que 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres — grupo que dedica quase dez horas semanais a mais do que os homens às tarefas domésticas e de cuidado. Em contextos rurais, esse cenário é agravado pelo isolamento, escassez de recursos de saúde e vulnerabilidade à violência.
A aridez temática se reflete na cenografia e na linguagem sonora:
Plataforma Móvel: O cenário repousa sobre uma estrutura instável que tomba conforme as atrizes se movimentam pelo palco, traduzindo o equilíbrio delicado daquela convivência.
Trilha Sonora Autoral: Composta por Laura Jannuzzi, a trilha contrapõe a flauta — que marca a solidão inevitável de mães e filhas — e a viola caipira, que surge com contornos opressores, distanciando-se de retratos meramente românticos do campo.
Ficha Técnica:
Texto: Tairone Vale
Colaboração Dramatúrgica: Layla Paganini, Léo Cunha, Pri Helena, Rebeca Figueiredo
Direção: Tairone Vale
Codireção: Léo Cunha
Elenco: Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini
Stand in: Livia Gomes
Direção de Arte: Cris Bourgeaiseau
Cenário: Cris Bourgeaiseau
Núcleo de Cenografia: Cris Bourgeaiseau, Rebeca Figueiredo, Tairone Vale, Marcella Calixto, Amanda Corrêa e Vitória Vargas
Iluminação: Nitay Krishna
Figurino: Cris Bourgeaiseau
Trilha Sonora Original: Laura Jannuzzi
Preparação Corporal: Letícia Nabuco
Programação Visual: Marcella Calixto e Vitória Vargas
Fotografia: Marcella Calixto
Assessoria de imprensa: Paula Catunda e Catharina Rocha
Mídias Sociais: Rebeca Figueiredo
Costureira: Aline Azevedo
Direção de Produção: Cris Bourgeaiseau
Produção Executiva: Jhully
SERVIÇO
Espetáculo: “Doce árido”
Temporada: até o dia 09 de agosto
Local: Teatro Ipanema Rubens Corrêa - Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema
Dias e horários: de quinta a sábado, às 20h. Domingo, às 19h.
Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia)
Vendas online: Sympla neste link
Instagram: @docearido





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