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  • Foto do escritorPimenta Rosa

Evento celebra memória de Marielle Franco

Fotobiografia, exposição de fotos, sarau e poesia marcaram a atividade que aconteceu nesta quinta-feira, no Centro de Artes da Maré, território onde a vereadora nasceu e foi criada.



O Instituto Marielle Franco, em parceria com a vereadora Mônica Benício e a editora Azougue Editorial, organizou um grande evento para celebrar a memória de Marielle Franco, bem a seu estilo: com alegria, arte e cultura. Nesta quinta-feira (27), foi lançada sua fotobiografia, uma exposição de fotos que contou ainda com sarau de música e poesia, no Centro de Artes da Maré, território onde nasceu e foi criada.


Em 27 de julho, a vereadora Marielle Franco (Psol-RJ) completaria 44 anos de vida, que foi brutalmente interrompida na noite de 14 de março de 2008, quando a parlamentar e seu motorista Anderson Gomes foram executados, numa esquina do bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, logo após saírem da Casa das Pretas, na Rua dos Inválidos, na Lapa, onde participara de debate. A vereadora foi atingida por quatro tiros na cabeça. Anderson levou ao menos três tiros nas costas. Apenas uma assessora, que se sentava ao lado de Marielle, sobreviveu ao atentado.


Em entrevista exclusiva para o Jornal Pimenta Rosa, Lígia Batista, diretora executiva do Instituto Marielle Franco, fala sobre a importância e o significado do evento para a família e amigos. Comenta sobre a prisão do ex-bombeiro Maxwell Corrêa, fruto de delação premiada do ex-policial militar Élcio Queiroz, que revelou toda a dinâmica do crime. Afirma que a mudança na presidência da República do Brasil é um marco no avanço da apuração do atentado. Ressalta também a importância do legado de Marielle na política.


O que representou o evento em memória da vereadora Marielle Franco para família e amigos?

O dia 27 de julho simboliza essa data em que Marielle completaria 44 anos de vida. Esse é um momento superdelicado para qualquer pessoa que se inspira por essa trajetória, mas particularmente para família que nos últimos 5 anos tem recobrado essa dor, não só no dia 14 de março, mas, claro, também no dia 27 de julho que era uma data de celebração e acabou se tornando uma data de dor profunda. Então, o que a família, o Instituto Marielle Franco têm tentado é ressignificar no 27 de julho essa possibilidade de recobrar a chance de celebrar a memória de Marielle, inclusive do jeito que ela fazia: com muita alegria, com muita arte, cultura, mobilizando muita gente, fazendo muito barulho.

Nos últimos anos, o Instituto Marielle Franco e a família têm escolhido passar esse dia ao lado de pessoas que vêm nos acompanhando há tanto tempo. Nos últimos anos a gente inaugurou uma estátua no centro do Rio de Janeiro, lançamos uma história em quadrinhos, contando um pouco dessa trajetória da Marielle, e fez uma live histórica com a incrível Elza Soares, ainda viva.

Nesse ano a gente lançou a fotobiografia da Mari e fizemos uma primeira exposição do acervo do instituto Marielle Franco. O evento foi lá no Centro de Artes da Maré, território onde Marielle nasceu e foi criada.


Para manter viva a sua memória e a luta de mulheres negras, foi lançado o livro 'Marielle Franco - Fotobiografia', uma parceria entre o Instituto Marielle Franco, a vereadora Mônica Benício e a Azougue Editorial. Qual a importância dessa publicação?

Essa é uma publicação que a gente construiu junto com o mandato da nossa companheira, vereadora Mônica Benício, e da Azougue Editorial. O processo de curadoria de imagem é assinada pelos fotógrafos Mayara Donaria, Bernardo Guerreiro, Thaís Rocha, Wilson da Costa e Marcelo Brodsky, enquanto os textos foram organizados por Sergio Cohn e Melina de Lima.

Essa fotobiografia traz algumas imagens de muitos fotógrafos que, em diferentes momentos da trajetória da Mari, estiveram acompanhando essa caminhada, além de contar com fotos também do acervo da própria família da Marielle. Muitos desses registros que estão colocados na fotobiografia são registros inéditos. Então, acho que vai ser muito emocionante que a gente possa é entrar nesse resgate da memória, a partir de registros que ainda não foram a público e que seguramente vão marcar todos aqueles e aquelas que tiverem interesse em adquirir essa fotobiografia.


Nesta quarta-feira (26), novas revelações foram feitas sobre a dinâmica do crime. O ministro da Justiça, Flávio Dino, disse que isso foi possível após a prisão do ex-bombeiro Maxwell Corrêa, fruto de delação premiada do ex-policial militar Élcio Queiroz. Para você, qual a importância dessa prisão?

A notícia da prisão é seguramente um momento que simboliza uma virada de chave. O Instituto Marielle Franco, assim como outras organizações que compõem o Comitê Justiça por Marielle e Anderson, acredita que é possível resgatar alguma esperança sobre a possibilidade de que a gente vá, em algum momento, ter mais informações, ter notícias sobre quem são os autores intelectuais desse crime e quais são as motivações que levaram ao assassinato de uma parlamentar eleita democraticamente, a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro, num contexto de uma intervenção federal na segurança pública do estado do Rio de Janeiro, dentre tantos outros elementos que nos faz pensar ser um crime que resulta da violência política, que resulta de quem Marielle foi enquanto ativista, enquanto política e do que ela simbolizava, de tantas lutas que ela carregava, inclusive no seu próprio corpo, na sua própria existência.

A resposta sobre a autoria intelectual desses crimes é fundamental, porque seguimos acreditando que a ausência de respostas é como um cheque em branco para que a violência política se torne costume permanentemente, quando a gente está falando sobre a atuação de mulheres negras na política. O Estado precisa dar respostas adequadas sobre esse crime, porque ele não só é uma questão de justiça para a família de Marielle e Anderson, mas também uma questão de justiça para a sociedade brasileira.

O Estado tem que ser capaz de dar respostas efetivas sobre esse crime, porque isso fragiliza profundamente a democracia brasileira. É preciso que se tomem as medidas necessárias para que essas respostas cheguem até a gente. Vemos com esperança a chegada da Polícia Federal nesse momento, nesses últimos meses, a partir do engajamento do novo governo. Esperamos ter ainda mais informações e mais respostas sobre esse crime que chocou o Brasil e o mundo.


A mudança na presidência da República pode ser considerada um avanço nas investigações do assassinato de Marielle e Anderson Gomes?

Seguramente também é um marco para esse caso, não só porque estamos falando sobre um posicionamento explícito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no sentido da priorização, dos esforços que precisam ser empreendidos para que esse caso seja resolvido por parte do Governo Federal, e essa possibilidade de colaboração entre o Ministério da Justiça, a Polícia Federal e as autoridades locais do estado do Rio de Janeiro. É muito importante, não só, que tenha havido esse posicionamento político logo de início desse governo, que Anielle Franco hoje seja ministra da Igualdade Racial, que o caso de Marielle e Anderson seja enunciado abertamente pelas autoridades do Governo Federal, porque tudo isso implica num posicionamento político direto de que há interesse e compromisso na resolução desse crime. A gente vê a chegada da Polícia Federal neste momento como uma possibilidade de abrir novos caminhos para que efetivamente cheguemos nos autores intelectuais desse crime. Então, a gente, de fato, resgata a nossa esperança ao longo desses últimos meses com os posicionamentos do Governo Federal diante desse caso.



A demora na solução do caso fez com que outras ‘Marielles’ surgissem na política e na defesa dos Direitos Humanos?

A demora na resolução desse caso é seguramente uma questão para a nossa democracia. Enquanto o estado brasileiro não for capaz de responder quem mandou matar Marielle Franco e o porquê, a gente vai seguir permitindo que a política institucional seja um espaço perigoso para mulheres negras, algo que a nossa companheira Anielle Franco reforça muito nas suas falas públicas, que é justamente de que, enquanto mulheres negras, que querem disputar a política institucional não devam ter que se dobrar a essa política, se ajustar a essa política, para compor em esses espaços. É a política institucional que tem que se ajustar para que mulheres negras cheguem a esses lugares, não somente de maneira segura, mas que elas possam ocupar e permanecer nesses espaços até o final dos seus mandatos, que elas não tenham que se afastar da política institucional por conta das diversas expressões de violência política que marca uma cultura dessas instituições. É muito importante que a resolução do caso de Marielle Franco também simbolize para o Brasil uma possibilidade de refletirmos sobre qual é a cultura política que historicamente adotamos e que precisamos transformar para que efetivamente essas instituições sejam capazes de propiciar, de favorecer, de alimentar as diversidades de vozes que constroem o Brasil e que constroem a solução para a superação das nossas desigualdades.

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