Israel e o fantasma de Tito Vespasiano


*Eduardo Papa
Na antiguidade, os judeus tiveram a infelicidade de ser um povo pouco numeroso estabelecido em uma região de contato entre grandes e poderosos impérios. Assírios, babilônios, gregos e romanos revezaram-se no controle da palestina e do destino dos judeus. Em 722 a.C. Sargão II da Assíria destruiu Samaria (o Reino de Israel) e escravizou o povo. Remanescentes dispersos formaram a base para a fundação do Reino de Judá, apenas para serem novamente conquistados e deportados como escravos por Nabucodonosor II da Babilônia, em 586 a.C. Após a conquista de Alexandre da Macedônia, os judeus recuperaram autonomia no Reino dos Asmoneus (140 a.C.). Em 63 a.C. a região foi conquistada por Roma e a dinastia dos Asmoneus, e depois a dos iduceus, passou a administrar o Reino da Judéia como um estado cliente da República Romana.
No sexto ano da Era Comum, a Judéia foi reorganizada como uma província romana, uma série de revoltas eclodiu questionando o poder imperial, e o Imperador Vespasiano, em 66 d.C., enviou seu filho Tito, com quatro poderosas legiões, para sufocar as rebeliões na região. As guerras judaico-romanas foram conflitos sangrentos, que tiveram seu auge no ano 70, quando Tito Vespasiano arrasou Jerusalém, saqueou e destruiu o Templo, e terminaram em 136 d.C., quando os judeus foram proibidos de entrar em Jerusalém, e cidade rebatizada como Aelia Capitolina. Durante o período medieval a diáspora judaica se decantou em três grandes grupos populacionais: os judeus que permaneceram no oriente, os mizraim formaram importantes comunidades na Etiópia e no Irã, integradas sem grandes traumas nas sociedades em que se inseriam; os sefarditas na Península Ibérica e mediterrâneo ocidental; e os ashkenazi no norte e leste da Europa. Os dois últimos enfrentaram uma série de perseguições e massacres ao longo da história. Séculos de intolerância e discriminação pelos cristãos europeus determinaram, em meados do séc. XIX, o surgimento no continente do movimento sionista, que começou a trabalhar pela volta dos judeus para a palestina.
Quando Theodor Herzl (fundador do movimento) organizou o I Congresso Sionista, em 1897, na Suíça, se propunha a liderar um movimento nacionalista, como muitos da mesma época (na Polônia, Grécia, Itália, etc.), com o complicador de que a nação que pretendia unir não estava no território onde planejava construir o estado sionista, que não poderia ser longe do Monte Sião na Palestina. O movimento Sionista buscou, através da Aliança Israelita Universal, captar recursos junto aos capitalistas judeus para comprar terras na Palestina e lá assentar o seu povo. Ainda sob o governo do Império Otomano foram sendo instaladas colônias judaicas na região, o processo se intensifica a partir da década de 1880 até 1909 quando foi fundada Tel Aviv. A partir de 1920, com os britânicos assumindo o controle da região, aumentou a migração de judeus para a Palestina, que ganhou ainda mais impulso com as perseguições impostas aos judeus pelos nazistas em toda a Europa.
Os sionistas começaram a organizar colônias apartadas do restante da população local, com escolas, hospitais e todo o tipo de equipamento exclusivo para judeus. Organizaram milícias paramilitares (Igrun e outras), que adotaram práticas terroristas contra a administração inglesa e o povo local. O país foi fundado em guerra, e David Ben Gurion criou o exército de Israel expulsando os palestinos de suas terras e de suas casas – a Nakba. O processo continua até os dias de hoje e Israel surgiu como um estado colonialista na região, porém uma modalidade de colonialismo diferente do que se praticava até então. As potências coloniais tradicionais conquistavam a terra para explorar seus recursos naturais, e estabeleciam uma administração, direta ou através de algum grupo local, para utilizar a mão de obra do país conquistado em suas atividades econômicas. O colonialismo sionista é diferente, ele exclui completamente o povo derrotado da equação, praticam uma meticulosa limpeza étnica nas regiões conquistadas expulsando ou, como em Gaza, exterminando as populações originárias.
Antes que o que escrevi me valha a pecha de antissemita, afirmo que repudio qualquer forma de racismo, inclusive a dos sionistas. Judeus, assim como os negros, indígenas e toda gente do mundo, não são melhores ou piores que ninguém, desde pequeno eu sei que em todo lugar tem gente boa e gente ruim. Conheço judeus maravilhosos, alguns lutaram junto comigo para derrubar a ditadura militar, assim como há judeus trevosos, como aqueles que foram na Hebraica gargalhar e aplaudir enquanto Bolsonaro instilava seu racismo contra os negros. São pessoas completamente diferentes, que enxergam o mundo de forma diametralmente oposta, mas tem uma coisa em comum, nenhum deles topou ir viver em Israel. Eis o calcanhar de Aquiles do sionismo: há mais de um século fazem um esforço titânico para convencer os judeus do mundo inteiro a abraçar seu projeto de povoar a terra prometida, e fracassaram de maneira rotunda.
Quando da criação de Israel, muitos judeus atenderam ao chamado, a maioria ashkenazi, com a esperança de virar a página do horror que enfrentaram na Europa nazista. A população chegou a 5 milhões de judeus, convivendo com cerca de 2 milhões de palestinos e se manteve estável, o país não construiu mais que uma economia agrícola, dependendo de aportes financeiros vindo da comunidade de judeus estadunidenses para sua prosperidade. Israel acabou dependendo dos EUA para seu desenvolvimento e defesa, o que foi conveniente para os estadunidenses, que encontraram no estado sionista um elemento garantidor de sua presença militar e econômica em uma região vital para sua estratégia geopolítica.
No final dos anos 90, com a queda do muro de Berlim e a dissolução do bloco socialista, um impulso migratório vindo da Europa Oriental deu novo ânimo a Israel. A União Soviética instruía a sua população, e a chegada de mais de um milhão de novos imigrantes capacitados deu um grande impulso a economia israelense, que se industrializou absorvendo importantes inovações tecnológicas, sustentando a multiplicação de empresas que alavancaram a economia do país. Mas, por trás desse crescimento, foi surgindo uma bomba demográfica, muito mais ameaçadora que qualquer míssil iraniano, que pode ferir de morte o projeto sionista.
A liderança sionista israelense não esconde de ninguém seu objetivo de criar o Grande Israel, anexando vastas áreas dos países vizinhos, uma equação que não fecha e só pode parecer exequível aos mais fanatizados genocidas do pedaço. Vá lá que com o auxílio dos EUA conseguissem conquistar os territórios que ambicionam, teriam que deslocar, ou exterminar, dezenas de milhões de árabes que moram nessas áreas, e a resistência que encontram hoje em Gaza dá uma idéia da dificuldade da tarefa. E depois, de onde viriam os milhões de judeus necessários para ocupar esses novos territórios?
A verdade, que o governo de Israel tenta esconder por todas as maneiras, é que a população de Israel é declinante em função da política belicista que adotaram. Não é todo mundo que aceita bem viver constantemente em guerra, o número crescente de suicídios entre reservistas veteranos das IDF comprova que não é possível participar de massacres de pessoas indefesas, sem graves consequências para a estrutura psicológica de pessoas normais. A rejeição ou o medo das guerras eternas promovidas pela liderança sionista começaram uma nova diáspora, o governo esconde os números a sete chaves, dificulta por todos os meios a saída do país, impede que as pessoas levem seus recursos financeiros, tratando migrantes como desertores, mas o fato é que Israel está se despovoando de maneira acelerada.
E esse esvaziamento vem com uma característica peculiar arrasadora para o futuro do país. Quando Ben Gurion fundou o Estado de Israel, firmou um acordo com os judeus ortodoxos (que na verdade são contra a refundação de Israel antes da chegada do messias, que esperam há milênios), em troca de seu apoio garantiu-lhes a isenção do serviço militar e o direito de controlar a educação em suas comunidades. O acordo vale até hoje, e o resultado foi a criação de sucessivas gerações de jovens dedicados quase exclusivamente ao estudo do Talmud, pessoas fanatizadas sem qualquer preparo acadêmico para contribuir com o desenvolvimento econômico, são esses meninos ensinados pelos pais a cuspir nos cristãos e derrubar freiras no chão. O problema é que no tempo do Bem Gurion eles eram 1% da população, mas enquanto suas mulheres concebem em média 6,2 filhos, as do restante da população não passam de pouco mais de um filho em média. Hoje chegam a 8% da população e, nessa progressão, em poucas décadas serão a maioria.
É claro que essa situação gerou conflitos de interesses enormes. A parte do povo que é produtiva, que gera riqueza e paga impostos para sustentar o Estado, e que tem que mandar seus filhos para morrer nas guerras, sentiu-se incomodada com esse privilégio dos religiosos, e o acordo passou a ser questionado. Quando o governo se viu impelido a tentar recrutar os ortodoxos, para sustentar sua política expansionista, a reação foi brutal. Enquanto os mísseis iranianos chovem sobre o país, conflitos de rua violentos provocados pelos ortodoxos contra o recrutamento militar eclodem em Tel Aviv. A coesão social em Israel está em acelerado processo de corrosão, nuito embora 70% dos israelenses ainda apóiem a política de expansionismo militarista, eu suspeito que, dentro da classe média instruída e cosmopolita, tende a crescer a idéia de abandonar o país, ainda mais agora que a maré da guerra mudou e estão apanhando feio.
Na minha visão, o espectro de Tito Vespasiano paira sobre a Israel moderna, não como a ameaça de um exército invasor que vá destruí-la, muito embora a sua situação militar seja hoje bastante frágil, e prejudicada pela política desumana que os transformou no povo mais rejeitado pelo resto do planeta. Mas a nova diáspora pode vir pelo simples abandono pelo povo do desejo de viver sempre ameaçando os vizinhos, pelo cansaço da população de ter em sua rotina sirenes de alarme, abrigos subterrâneos e explosões. E o meu prognóstico para eles não é nada favorável, pois na medida em que as pessoas mais razoáveis e moderadas abandonam o barco, o poder do núcleo duro mais radical aumenta na mesma proporção.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)





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