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Mangueira canta a beleza de seus baluartes: Cartola, Jamelão e Delegado

A poucos dias de completar 94 anos de sucesso, a Estação Primeira de Mangueira levará para a Sapucaí a arte de um compositor, um intérprete de samba e um bailarino



Muito mais que suas cores, o verde e o rosa, a Estação Primeira de Mangueira é conhecida pela qualidade de seus sambas e pela força de sua comunidade. Para comemorar os 94 da escola, a Mangueira levará para a Passarela do Samba o enredo 'Angenor, José & Laurindo', numa reverência a três grandes baluartes da escola.


A proposta do carnavalesco Leandro Vieira é contar a história da escola de samba através da vida desses três homens que representam os pilares da agremiação. Campeão duas vezes pela escola, ele acredita que esse desfile será inesquecível por mostrar as raízes da escola e suas características únicas. Uma escola que se orgulha de ser preta e de comunidade, frisa Vieira.


'É a Mangueira que se utiliza de seu espaço no carnaval para reafirmar a realeza de sua gente. A potência e a excelência da arte que habita corpos similares aos corpos que seguem compondo a massa de sua comunidade. Em desfile, uma sucessão de imagens que reafirmam a realeza e a qualidade artística de um poeta compositor, de um intérprete e de um bailarino', afirmou.


Cartola


Considerado por muitos como o maior compositor da Música Popular Brasileira, Angenor de Oliveira, ou simplesmente Cartola, nasceu no bairro do Catete, em 1908 e morreu na Mangueira, em 1980. Com músicas gravadas por vários cantores e verdadeiras obras primas do samba,


Quando tinha 15 anos, abandonou os estudos (tinha concluído apenas o quarto ano primário) para trabalhar, ao mesmo tempo em que se inclinava para a vida boêmia. Na adolescência, trabalhou como aprendiz de tipógrafo, mas logo se transformou em pedreiro. Foi enquanto trabalhava nas obras de construção que ele ganharia o apelido com que se tornaria reconhecido como um dos grandes nomes da MPB. Para que o cimento não lhe caísse sobre os cabelos, resolveu passar a usar um chapéu, que os colegas diziam parecer mais uma cartolinha, e assim, começou a ser chamado de "Cartola".


'Por usar um chapéu maltrapilho, por ironia, os amigos apelidaram Angenor com o título que ainda o acompanha na eternidade: CARTOLA. O príncipe do princípio. O poeta que escolheu as cores da Mangueira. O que cantou as alegrias e as dores do morro. Aquele que ergueu – como quem bate laje, mistura o cimento ou empilha tijolos – duradouro e permanente estado de poesia'.


Jamelão


Sempre que o chamavam de puxador de samba, José Bispo Clementino dos Santos, mais conhecido como Jamelão, deixava claro que era um intérprete das poesias dos compositores da verde e rosa. Ganhou o apelido de Jamelão na época em que se apresentava em gafieiras da capital fluminense. Começou ainda jovem, tocando tamborim na bateria da Mangueira e depois se tornou um dos principais intérpretes da escola.


De 1949 até 2006, Jamelão foi intérprete de samba-enredo na Mangueira, sendo voz principal a partir de 1952, quando sucedeu Xangô da Mangueira Em janeiro de 2001, recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural, entregue pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.


'Se a poesia de quem guardava e lavava carros ocupa o riso e o pranto de quem mora lá, a voz de outro preto – este, batizado JOSÉ – reside na localidade, habitando-a sem pedir licença. Afirmo, sem medo de errar, que essa voz que paira no ar habita tanto o silêncio das manhãs quanto o burburinho das travessuras dos moleques que brincam quando a tarde cai. Essa voz é a voz de José Bispo Clementino dos Santos. Para a Primeira Estação, o JAMELÃO'.


Delegado


Filho de um dançarino de valsa e de uma doceira, Hélio Laurindo da Silva, ou simplesmente Delegado, nasceu no Morro da Mangueira e desde jovem interessou-se pelo samba e pelo Carnaval, ao se aproximar da bateria da Mangueira. Conheceu Marcelino, o mestre-sala fundador, e Jorge Rasgado, mestre-sala titular nos anos 1940, encantando-se com a função que exerciam. O apelido Delegado é decorrente de sua fama de “prender” as moças na conversa.


Delegado nunca tirou nota menor que 10 nos desfiles da Mangueira. Sua estreia ocorreu na madrugada de 8 de fevereiro de 1948, ao entrar na Praça Onze junto de sua parceira, a porta-bandeira Nininha Chochoba. Apesar da sua agremiação não levar o titulo, o casal levou nota 10, iniciando a sequencia que o acompanharia por toda carreira. Durante 36 anos ele conquistou a nota máxima fazendo dupla com Nininha, Neide e Mocinha. A última nota 10 foi em 1984, ano da inauguração do Sambódromo, quando a Mangueira venceu o supercampeonato.


'Impossível não crer que toda uma legião que defende a bandeira que ostenta o verde e o rosa da Primeira Estação não guarda a gana e a sede com a qual o mestre-sala DELEGADO defendeu o pavilhão que cortejou por décadas. Décadas de excelência e notas máximas. Difícil não crer que ele não esteja ao menos em uma gota de sangue de toda criança, menino ou menina, que nasceu ou nascerá naquele morro'.


Samba


De autoria do mestre Moacyr Luz, Bruno Souza, Leandro Almeida e Pedro, o samba da escola tem sido apontado como uma obra prima do Carnaval 2022. Confira aqui.



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