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Novas reviravoltas no caso Marielle são questionadas por entidades e família

A saída das promotoras Simone Sibilio e Letícia Emile do caso, por conta de 'interferências externas' e declarações do governador do RJ, causaram estranheza



Por Elen Genuncio


A investigação da morte da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes é, no mínimo, inusitada. Em mais de três anos de diligências, mobilização de familiares, amigos, políticos, organizações nacionais e até internacional, uma pergunta ainda não foi respondida: ‘quem mandou matar Marielle Franco e por quê?’. O caso, que teve repercussão internacional, macula ainda mais a imagem dos governos estadual e federal a cada nova reviravolta.


Na semana passada, no mesmo dia em que é anunciada a condenação do policial militar reformado Ronnie Lessa por ocultação e destruição de provas, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) comunicou a substituição das promotoras Simone Sibílio e Leticia Emile. Para piorar, o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, afirmou que não podia garantir que as investigações chegassem a alguma conclusão.


As promotoras integravam a força-tarefa criada pelo órgão e estavam à frente das investigações desde setembro de 2018, cinco meses após o crime. Elas alegaram que deixariam as funções por receio e insatisfação com ‘interferências externas’, sem especificar quais teriam sido.


Dias depois, o MP denuncia à Justiça, por vazamento ilegal de informação sigilosa, o delegado da Polícia Civil Maurício Demétrio. Preso no fim do mês passado por suspeita de ligações com quadrilha que cobrava propina de comerciantes em Petrópolis, Demétrio se encontrou com o delegado Moysés Santana, que conduzia, na época, as investigações do caso Marielle e Anderson. Por nota, a Polícia Civil do Rio de Janeiro nega qualquer tipo de interferência. No entanto, Santana foi realocado na 18ª DP (Praça da Bandeira), e o novo titular da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) é o delegado Henrique Damasceno, o quarto à frente das investigações.


Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil, considera ‘extremamente preocupante mais uma alteração nas equipes’, e cobra um esclarecimento público do procurador geral do MP-RJ, Luciano Mattos, assim como do governador do Rio, Cláudio Castro, a quem, há mais de três meses, vem solicitando reunião, sem sucesso.


É preciso dizer o que está por trás do afastamento das promotoras do caso, o que está por trás de tanto tempo. São mais de três anos sem se ter respostas necessárias, e principalmente, precisa se cumprir o seu dever de informar, esclarecer e garantir à sociedade que esse crime não ficará impune. A gente exige saber: quem mandou matar Marielle Franco e a gente exige saber disso o quanto antes’.


A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ), mesmo partido da vereadora assassinada, considera que as mudanças podem prejudicar o inquérito, que, pelo tempo, ‘deve ser extremamente volumoso’, ressaltando que a nova equipe precisará de tempo para ‘tomar pé do seu conteúdo antes de avançar na investigação propriamente’.


Me refiro também ao fato de ter ocorrido no mesmo contexto da troca do delegado responsável pelo caso. Quanto tempo a mais esse inquérito agora vai levar? E pelo que eu sabia, esse caso estava muito próximo da sua conclusão’.


Sobre a justificativa das promotoras, Renata Souza reflete.


Foto: Caio Oliveira
Foto: Caio Oliveira

Inegável que essa expressão me fez imediatamente lembrar das “forças ocultas” alegadas pelo Jânio Quadros na época de sua renúncia, em 1961, quando foi substituído por João Goulart, que, por sua vez, não conseguiu concluir a gestão, derrubado pelo golpe militar de 64. A expressão “interferências externas” é uma explicação pela metade. Ficam perguntas no ar: que interferências foram essas, de quem e em que sentido? Devemos temer que o resultado desse inquérito esteja à mercê de interesses políticos?


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