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Onde fica a memória da cidade? Estudo inédito coloca as favelas no centro do patrimônio cultural brasileiro

Foto do escritor: Pimenta Rosa
Pimenta Rosa
4 de ago.
2 min de leitura

Em parceria com o Iphan, o Observatório de Favelas lança o e-book gratuito “Corpo Morada”, mapeando saberes, afetos e resistências nos territórios da Leopoldina, no Rio de Janeiro.


Foto divulgação: Thaís Valencio
Foto divulgação: Thaís Valencio


Quando se pensa no patrimônio cultural do Brasil, as primeiras imagens que surgem no imaginário público costumam ser igrejas centenárias, fortalezas coloniais e palácios imperiais. Embora esses bens materiais estejam consolidados na memória oficial, uma provocação fundamental ganha força no debate urbano: por que os saberes e as vivências produzidos nas favelas ainda enfrentam barreiras para obter esse mesmo reconhecimento institucional?


Buscando responder a essa questão e ampliar os conceitos tradicionais de preservação, o Observatório de Favelas, em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), lança o e-book gratuito Corpo Morada – Inventários e Educação Patrimonial nas Favelas da Leopoldina. A publicação apresenta o resultado de um mapeamento inédito das referências culturais vivas na Zona Norte do Rio de Janeiro.


O trabalho parte da premissa de que o patrimônio de um país não se restringe a pedras e cal, mas é composto prioritariamente por redes de solidariedade, práticas coletivas, expressões artísticas, formas de ocupação do solo e memórias transmitidas entre gerações.


O Descompasso da Memória Oficial

A publicação traz à tona uma contradição histórica na formação do Rio de Janeiro. Apesar de as favelas terem desempenhado — e continuarem desempenhando — um papel determinante na construção das linguagens, costumes e modos de vida que definem a identidade carioca, suas contribuições seguem marginalizadas pelas políticas públicas tradicionais de preservação.


Esse descompasso evidencia uma disputa constante sobre quais narrativas e territórios são considerados legítimos pelo poder público. Enquanto a história oficial preserva determinados monumentos, a memória popular das periferias permanece frequentemente desprovida de documentação e salvaguarda institucional.

Diálogo e Identidade nos Territórios da Leopoldina


Desenvolvido a partir de um método participativo, o projeto foi construído por meio de trabalho de campo, reuniões, entrevistas e grupos focais com os próprios moradores e lideranças locais. A pesquisa concentrou-se na região historicamente conhecida como Leopoldina, na Zona Norte carioca, englobando territórios como:

  • Maré

  • Complexo do Alemão

  • Complexo da Penha

  • Manguinhos

  • Brás de Pina

  • Cidade Alta

  • Kelson's / Marcílio Dias

  • Ramos


Em cada localidade, a equipe identificou eixos temáticos moldados pelas particularidades da própria população. Em Manguinhos, destacam-se os patrimônios literários; na Kelson's, as memórias ligadas às águas; e, em Brás de Pina, as narrativas de resistência contra remoções históricas e em defesa do direito à cidade.


"O mapeamento foi construído junto com os moradores, a partir do que eles reconhecem como memória e patrimônio. Cada território traz uma forma própria de contar sua história", pontua Júnior Pimentel, coordenador-executivo do eixo de Políticas Urbanas do Observatório de Favelas.


Acesso Gratuito

Voltado a estudantes, pesquisadores, gestores públicos e à sociedade civil, o e-book Corpo Morada propõe um deslocamento no olhar sobre a história do estado e do país, convidando o leitor a enxergar as favelas não apenas como espaço de moradia, mas como berço de cultura, identidade e memória social.


A obra já está disponível para acesso e download gratuito. Acesse o ebook

 
 
 

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