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Outubro Rosa: campanha invisibiliza trans e travestis e médica e ativistas comentam

A médica radiologista Ana Amélia fez um estudo sobre a incidência de câncer de mama em travestis e transexuais e diz que a comunidade também apresenta risco da doença



Por: Mario Teixeira


O câncer de mama é o tipo que mais afeta as mulheres no país. Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), apenas em 2019 foram registrados aproximadamente 59.700 novos casos, sendo que a taxa de mortalidade fica entre 15 a 16 por 100 mil habitantes. A pesquisa do Inca mostra que a taxa é maior entre as mulheres do Sul e Sudeste do Brasil.


O autoexame é extremamente importante para a detecção prematura de qualquer nódulo e o tratamento, que garante grande possibilidade de cura. Apesar disso, a campanha do Outubro Rosa continua com uma visão antiga da sociedade, sem conseguir chegar a travestis e transexuais, que fazem parte da nova realidade mundial. Embora a radiologista Ana Amélia, da Clínica Imax, reconheça que a incidência na comunidade de transexuais e travestis seja pequena, há sempre o risco.


Pimenta Rosa - Por conta dos hormônios no processo de redesignação sexual, qual o risco da população trans (homens e mulheres) terem câncer de mama?


Dra Ana Amélia - O risco das mulheres e homens trans é menor que das mulheres cis.

A testosterona não parece alterar o risco dos homens trans que não realizaram mastectomia. Já as mulheres trans tem um aumento de risco em relação ao seu risco de nascimento, porém ainda menor que das mulheres cis. A avaliação de risco de câncer de mama deve ser individualizada considerando história familiar e pessoal de cada um.


Pimenta Rosa - No caso dos homens, que retiram o seio, quais os riscos do aparecimento da doença? Se o seio foi retirado, como identificar possíveis nódulos no local?


Dra Ana Amélia - O risco reduz em 98% ao realizar a cirurgia. Eles devem ser avaliados clinicamente e se houver necessidade de exame, nestes pacientes, ultrassonografia e ressonância são os mais indicados.


Pimenta Rosa - Nas mulheres trans, que acabam fazendo a construção dos seios, como se cuidar? Nem sempre é fácil o exame de toque, essencial na detecção precoce do câncer de mama.


Dra Ana Amélia - O melhor é avaliação médica e seguir o protocolo de rastreamento indicado pelo colégio americano de radiologia, próprio para a população transexual, que foi publicado agora em 2021. Ele tem as orientações de em que idade realizar qual tipo de exame (mamografia, tomossintese, ultrassonografia ou ressonância) de acordo com o risco individualizado. Este risco se baseia no tempo de uso de hormônios, história pregressa da paciente e familiar desta.


Pacientes com próteses de silicone podem e devem realizar seus exames das mamas (inclusive mamografia). A técnica de exame é adaptada para quem tem prótese e o exame é realizado sem maiores problemas. O importante é seguir os protocolos de indicação atuais.


Pimenta Rosa - Como garantir a transição, mas evitar esses riscos?


Dra Ana Amélia - No caso da mulher trans, a exposição a estrogenio pode sim aumentar um pouco o risco em relação ao seu risco basal (de nascimento) porém desde que haja acompanhamento e que os exames clínicos e de imagem sejam feitos de acordo com os novos protocolos de acompanhamento das mamas, a transição pode ser feita.


Pimenta Rosa - No caso das travestis, que muitas vezes são levados a colocam silicone de má qualidade (inclusive silicone industrial) em processos rústicos, quais os riscos da doença?


Dra Ana Amélia - Os riscos maiores em relação a injeção de silicone industrial são relativos a infecção e tromboses. Quanto ao câncer, o maior problema é que os estudos de mamografia e ultrassonografia ficam muito difíceis de serem realizados e de baixa qualidade diagnostica, ou seja, o silicone industrial prejudica a detecção precoce de um câncer de mama num exame de imagem.


Pimenta Rosa - A senhora acredita que alguns casos de câncer de mama na comunidade de transexuais e travesti podem ser fruto do medo da discriminação?

Dra Ana Amélia - Os trabalhos mostram que de fato, infelizmente, a população trans é pouco acolhida nos serviços médicos.


Pimenta Rosa - Na sua opinião, como combater isso, uma vez as campanhas, normalmente, são feitas só com imagens de mulheres, sem contemplar travestis e transexuais. Eles seriam menos propensos e o Ministério da Saúde deixa à margem?


Dra Ana Amélia - Acredito que devemos incluir toda a população com mamas sejam mulheres trans e homens trans que não realizaram mastectomia nas campanhas.


Pimenta Rosa - Essa invisibilidade pode levar à morte travestis e trans? Como trabalhar para que o olhar das políticas públicas recaia sobre todos?


Dra Ana Amélia - Incluir a população trans no debate do rastreamento de mamas é muito importante, inclusive com treinamento de todas as equipes de atendimento em saúde para acolhimento com respeito desta população.


Falta empatia


Para a ativista e diretora da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Jacqueline Brazil, o problema não está apenas nessa campanha. Diretora da Casa Brasil, que acolhe homens trans em situação de vulnerabilidade no Rio Grande do Norte, ela lembra que não há qualquer campanha, seja na área de saúde, emprego ou esportes, e lazer por exemplo, que seja inclusiva.


"Essa é uma das muitas campanhas que invisibilizam a comunidade LGBTQIA+, principalmente os transexuais e travestis. Falta empatia. Nós mulheres transexuais e travestis somos mulheres. Assim como há campanha para mulheres que estão amamentando e para mulheres deficientes, por exemplo, é preciso que haja a inclusão das mulheres trans e travestis nas campanhas de saúde. É preciso abranger mais o todo d universo feminino", explicou Jacqueline.


A artista plástica gaúcha, radicada em São Paulo, Rosália Surreal também sente falta de um olhar mais atento para a comunidade de transexuais e travestis. Há a necessidade de esclarecer a todas as pessoas que fazem a transição para a questão da saúde, dos exames necessários. A informação, reiterou, é a forma mais eficiente de se combater as doenças e falta informação direcionada à comunidade.


"Eu faço meu autoexame sempre, mas nem todos agem assim. Seria importante que o governo incluísse também nós mulheres, transexuais e travestis, em seus projetos, como forma de garantir o sucesso das ações afirmativas em saúde, no caso do Outubro Rosa", frisou a multiartista.


Benny Briolly, a primeira vereadora transexual de Niterói, no Rio de Janeiro, se ressente do fato das campanhas serem sempre voltadas para mulheres cis, deixando à margem os transexuais e travestis. Essa falta de uma visão mais abrangente acaba permitindo que muitas pessoas sejam vítimas dessa invisibilização.


"É preciso criar medidas que beneficiem a população trans dentro do sistema de saúde é fundamental. Isso se dá pelo preparo de profissionais para receber nossos corpos, acompanhamentos periódicos e mamografia para homens trans que ainda não realizaram a mastectomia, assim como campanhas para alertar mulheres trans e travestis sobre o tema. Além disso, não existe o desenvolvimento de pesquisas sobre o tema em nosso país. Explorar dados para saber a dimensão do impacto da doença sob nossos corpos é ideal para criar medidas de prevenção", concluiu a vereadora.


O Ministério da Saúde, embora questionado, não se pronunciou sobre as denúncias de invisibilização da comunidade e as ações necessárias para que a campanha seja mais inclusiva.

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