POR QUE O FUTEBOL BRASILEIRO ENTROU EM DECADÊNCIA?


*Eduardo Papa
Eu creio que, parafraseando nove entre dez jogadores de futebol quando dão entrevista, primeiramente devemos agradecer a Deus. Quando os atletas da nossa seleção tomavam umas biritas e levavam garotas escondido para as concentrações o Brasil ganhava tudo, hoje, esse bando de crentes devotos, que vivem choramingando, não arruma nada. É só derrota! O velho Mané das pernas tortas não tinha problemas com o Altíssimo, quando tomava sua uca despejava o primeiro gole sempre para o santo, amou de forma linda e sem pudor a Elza Soares, e carimbou com seu talento as maiores glórias do nosso esporte. Foi um comunista de carteirinha, João Saldanha, que armou o melhor escrete brasileiro de todos os tempos, naqueles tempos em que Santana, o massagista dos times mais vencedores do Brasil, não deixava de fazer seus despachos nas encruzilhadas da vida antes dos jogos. O manto de obscurantismo religioso que encobriu a sociedade brasileira, embotando e reprimindo a nossa cultura, atingiu em cheio o futebol.
E a desgraça que se abateu sobre a maior paixão do brasileiro foi de tal magnitude, que não poderia ser creditada apenas a uma dimensão do universo, o caprioto também tem a sua parte nessa conspiração cósmica. De onde mais, além das profundezas dominadas pelo maligno, poderia vir a cornucópia de riqueza que comprou nossos craques? Afinal, os milhões que abençoam esses meninos tão religiosos são amealhados por bookmakers ardilosos, que recolhem até o último níquel de pobres desesperados, ou oriundos da indústria que produz a droga que mais vicia e mata no planeta – o álcool. Mas como ocorreu essa transição? Como gênios da raça brasileira como Pelé a Garrincha deram lugar a uma sucessão de mediocridades como o menino Neymar?
É sabido que a criação do futebol e dos demais esportes modernos (bem como a recuperação dos esquecidos por séculos esportes olímpicos) deveu-se a nova dinâmica trazida pela sociedade industrial, que criou a folga semanal para a manutenção das máquinas. O fabricante de tecidos de Manchester ou Londres, que oferecia bolas e uniformes para seus operários jogarem pelada aos domingos, com o objetivo de esvaziar atividades sindicais, não tinha a menor idéia do que estava criando. Vai bem longe o tempo em que os maiores clubes de futebol eram dirigidos por pessoas pitorescas, como o ex-presidente do Corinthians, Vicente Matheus, capaz da gafe de agradecer a Antártica por mandar umas Brahmas para a festa do título. O futebol transformou-se em um negócio bilionário e adotou o modelo de gestão das grandes corporações capitalistas. Os clubes estão sendo comprados por grandes empresas multinacionais, cujo compromisso principal é obter lucro, o mundo da bola foi sendo encaixado direitinho no esquema global de dominação do grande capital financeiro, e a FIFA cumpriu o papel de principal agente no processo.
Lecionei décadas para jovens pobres no Rio de Janeiro, perdi a conta de quantos meninos conheci que investiram tudo no sonho de se tornarem jogadores de futebol, muitos deixavam de estudar inclusive. Nunca tive notícia de que qualquer um deles tenha prosperado, Será que não eram bons o bastante? Talvez, mas eu convivi por uns dois anos com um velho craque aposentado, o saudoso Aírton Povil, que jogou no time de Garricha, Nilton Santos, Didi e Quarentinha, enfrentou o Santos de Pelé e os maiores times do mundo. E uma das coisas que pude depreender de nossas conversas é que os atletas na época eram pessoas diferentes e plurais, a maioria tinha sim origem popular, ele mesmo foi criado no Morro do Estácio, mas eram pessoas que traziam experiências de vida variadas, que se uniram em torno da bola, que na vida de todos surgiu como um prazer antes de virar profissão. Hoje não! Crianças são entregues pelas mães aos empresários esportivos, para serem criados em centros de treinamento dos clubes, quase que logo após o deasmame!
A bola para esses jovens não é uma amante a ser seduzida e conquistada, mas sim uma madrasta severa, que cobra com rigor qualquer recompensa e castiga de maneira cruel qualquer deslize no comportamento. Quer uma receita melhor para a mediocridade? Quem lembra das antigas transmissões esportivas do rádio? Você poderia ouvir de um discurso articulado em um português perfeito do Dr. Sócrates, até um monte de grosélia do Dada Peito de Aço ou do Fio maravilha. Agora o discurso é padronizado: primeiramente agradecer a Deus, assim como em diversos ramos da nossa sociedade o evangelismo tornou-se um marcador social, cada vez mais adotado para garantir aceitação social; depois demonstrar sua obediência canina ao “professor”, com a figura do treinador encarnando a autoridade que nunca deve ser contestada; é praxe também manifestar seu desmedido amor pelo clube beijando a camisa (que na semana seguinte já pode ser outra), um script repetitivo e tão entediante quanto o futebol burocrático adotado pelos treinadores brasileiros, que caíram em uma situação tão deprimente que hoje estão dando lugar a profissionais estrangeiros.
Craques cada vez mais são criados no mundo virtual, nossos jogadores estão trocando a disputa pela bola em campo, pela disputa de seguidores nas redes sociais. Pobres meninos ricos criados em um meio em que suas referências não são mais atletas que valorizavam e amavam o esporte, mas pessoas fúteis que colecionam relógios de luxo e roupas de grife, para circular em ambientes em que nunca serão de fato valorizados, mas sim tratados quase que como animais de estimação, e alvos da atuação de golpistas em geral, dentre os quais desponta a já clássica figura da “Maria chuteira”. Conforme a tolice avança entre os praticantes do esporte, a esperteza tomou conta dos comandantes do negócio, além de capitalistas que fizeram do esporte um grande negócio, políticos descobriram um filão poderoso para angariar os preciosos e necessários votos. Rueda no Flamengo, Vorcaro no Atlético mineiro, Zezé Perrela no Cruzeiro e tantos outros! A escória da política brasileira adonou-se despudoradamente das instituições esportivas, federações locais, e por fim da CBF, cujos últimos cinco presidentes foram afastados, e alguns presos, por seus mal feitos, exemplo que o atual mandatário, que mantém um harem com verbas da entidade, parece prestes a seguir.
A mudança não atingiu apenas os diretamente envolvidos na atividade, o público dos estádios agora é outro. Transformados em modernas “arenas” (que etimologicamente seriam cobertas de areia e não grama), os estádios de futebol deixaram de ser frequentados pela massa proletária, mas por uma gente brancarana e endinheirada que pode arcar com os altos custos dos ingressos. E o curioso de se observar que a elevação do padrão econômico do público não significou qualquer melhora no comportamento observado entre os torcedores. O racismo, a misoginia e a homofobia são recorrentes, e a incitação a violência é regra entre as torcidas organizadas, verdadeiras organizações criminosas, responsáveis por constantes conflitos e atos de vandalismo. Eu frequentei o Maracanã quando jovem, de fato dezenas de milhares de pessoas espremidas em arquibancadas de cimento, por vezes assistiam a uma ou outra rusga entre alguns mais exaltados que chegavam às vias de fato, mas não existia esse clima de guerra entre facções antagônicas, que proporcionam verdadeiras batalhas campais entre bandos rivais, não raro com mortos e feridos.
Na minha análise, a decadência visível do futebol brasileiro, deve ser compreendida dentro de um contexto geral de rebaixamento dos padrões culturais do povo brasileiro, o futebol arte dos craques do passado foi substituído pela mediocridade aplicada com metódica disciplina pelos novos comandantes do esporte, pelos mesmos motivos que a belíssima música popular brasileira foi enterrada e substituída por aberrações como o Sertanejo Universitário ou o Funk Ostentação por exemplo. Quando a criatividade espontânea do nosso povo começou a ser embotada pela mentalidade neoliberal, de valorizar o dinheiro e o sucesso econômico acima de tudo, quando acumular dinheiro e ostentar bens que ele pode comprar substituiu o élan de ser mais, de criar coisas belas, de encontrar a poesia mais bela para sua música, de performar o drible mais improvável para marcar o gol, nossa alma nacional foi capturada pela mediocridade. O admirável mundo novo criado pelo capitalismo moderno promete aumentar a conexão entre os povos e as pessoas em geral, mas entrega justamente o contrário, o vazio de expectativas que não podem ser materializadas e a frustração de desejos irrealizáveis, que criam paradigmas para garantir a infelicidade geral de pessoas que pulam e dançam imaginando sentir uma grande alegria, que está destinada a anteceder uma brutal decepção, até a próxima diversão.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)





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