• Pimenta Rosa

Presença de Tiago Abravanel em reality show chama à discussão temas como a gordofobia

Atualizado: 7 de fev.

Ator deu uma aula sobre gordofobia social e contribuiu para 'libertar' milhares de jovens cujos corpos não estão dentro do 'padrão estético' definido pela sociedade como o ideal



O BBB 22 está fazendo história. A presença do ator e apresentador Tiago Abravanel, gay, gordo e empoderado tem sido libertadora para milhares de jovens que vivem à margem dos 'padrões estéticos' e acabam sendo vitimados pela sociedade. Num dos momentos mais emocionantes do reality, ele, em conversa com o brother Lucas Bissoli, estudante de Medicina, escancarou o dia a dia de gordos, que sofrem para passar em roletas de ônibus ou para usar o cinto de uma poltrona de avião.


A gordofia (repúdio ou aversão preconceituosa a pessoas gordas, que ocorre nas esferas afetiva, social e profissional, segundo o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras) é muito mais que uma brincadeira, uma 'zoação'. Uma pesquisa realizada pelo Grupo Catho com 31 mil executivos identificou que 65% de diretores e presidentes de empresas possuem restrição à contratação de gordos. Especialistas alertam que o trauma causado pelo preconceito pode levar até ao suicídio.


Empoderamento


A Miss Plus Size do Rio de Janeiro, Suelen Costa, diz que quer esquecer as muitas noites que passou chorando por não se enquadrar no 'padrão de beleza' estabelecido pela sociedade. A modelo disse que teve de romper o trauma das 'brincadeiras' com seu corpo da forma mais abrupta. Foi incentivada por uma prima a participar de um concurso de beleza plus size, onde precisou encarar os próprios preconceitos, medos e superar os traumas que carregou durante toda a sua vida.


'Eu aprendi a me aceitar como sou, a me amar acima de tudo e esse é o maior passo de todos, o amor próprio. Você conseguir se enxergar como uma pessoa linda que todos nós somos, seja um gordo (a), magro (a), gay... seja o que você for, mas você tem que se aceitar!', frisou a modelo.


A importância do ator Tiago Abravanel no BBB, para ela, é que quando uma figura pública se assume assim gordo (a), magro (a) LGBTQIA+ consegue representar e dar voz a todos os que estão escondidos e, muitas vezes, doentes por conta de uma sociedade hipócrita, onde muitos dizem não ter preconceitos mas são os primeiros a apontar, a julgar quando veem uma pessoa gorda na praia de biquíni.


'Eu já ouvi "nossa que coragem", ou o comentário mais absurdo de todos e que eu odeio "você tem o rosto tão bonito, por que não emagrece?!", eu posso ser bonita como eu quiser, gorda ou magra a escolha tem que ser de cada um!', desabafou.


O produtor cultural Eduardo Arauju, organizador do Miss Plus Size Rio de Janeiro, diz que a partir dos anos 60, quando o cinema dita a beleza com corpos sarados e esculturais, criou-se esse problema. Tudo o que não estava dentro dos padrões estabelecidos passa a incomodar e, mesmo 60 anos após a criação dessa 'lei', ainda não se conseguiu desconstruir o 'tal' padrão de perfeição.


"Qualquer "diferença" e qualquer"discriminação" é traumática para quem vive a situação! Enquanto a sociedade e a mídia continuarem Photoshopando homens e mulheres ,e tornando as silhuetas magras protagonistas, num patamar de visibilidade aceitável e belo aos olhos dos não "desconstruídos", o processo de aceitação da pluralidade dos corpos será mais lento! Para mim, ações como as que desenvolvo, gerando oportunidade à mulher gorda de se redescobrir como pessoa, independente de seus quilos, raça e condição social, são importantes para trabalhar essa mudança. Para essas Misses o maior legado é a representatividade, voz e o holofote que o Concurso e a oportunidade oferece ao segmento, permitindo que se sintam incluídas como qualquer outra Miss. Isso acaba gerando e acostumando a sociedade a entender que podemos ser e fazer o que quisermos, sem nos preocuparmos com a opinião alheia! A autoestima é tão avassaladora que todos que circundam a vida desse gorda(o) também refletem ao entorno ! Criar ações , ter espaço em qualquer setor, com oportunidades para "TODOS". Acredito que a partir daí vamos trazendo a sociedade para um olhar mais inclusivo e plural !', disse Arauju.


Falta representatividade


Para o digital influencer Dave Avigdor o grande problema é que os corpos gordos não são representados e, quando isso acontece, é sempre ocupando um espaço de engraçado, desastrado, em situações depreciativas e que mostram uma baixa autoestima. Avigdor aplaude a participação de Tiago Abravanel no BBB 22 e diz que a importância está no fato de trazer a reflexão sobre o direito ao corpo, independente de ser gordo ou magro.


'Normalmente a gordofobia já vem da infância. A criança nasce já gorda, passa pelo bullying na escola, na questão de ser o último a ser escolhido na aula de Educação Física, de você ser o zoado da sala ou o foto. Nesse caso você ocupa o lugar do gatinho, as pessoas têm pena, têm dó, querem guardar num potinho. É difícil a gente pensar em como não se tornar uma ferida, porque a sociedade é gordofóbica e vai perdendo a sensibilidade. Na infância há uma gordofobia social, mas, com o passar do tempo, torna-se estrutural, que é você ter de procurar um médico e não ter equipamentos para seu peso, não conseguir passar na catraca do ônibus, não conseguir um assento no avião. Ou seja, milhões de possibilidades que são negadas ao corpo gordo', refletiu Avigdor.


Naturalização


A discussão sobre o corpo, na visão do digital influencer, passa pela normalização. Enquanto o fato de um homem gordo estar de sunga numa piscina chamar a atenção, a sociedade está replicando, mesmo que inconscientemente, o mito do corpo perfeito.


'A gente precisa naturalizar isso. Quando o Tiago Abravanel foi na piscina de sunga viralizaram várias fotos dele, tanto pessoas ridicularizando, quanto pessoas falando "que corajoso", "que incrível", "é isso ai", "nossa, você está me inspirando". Eu entendo que é inspirador ver um corpo gordo vivendo sem medo, porque a gente não está acostumado a isso. Normalmente pessoas gordas já tem esse receio, esse medo do julgamento do outro, como qualquer pessoa tem medo do julgamento do outro. E no corpo gordo o julgamento é ainda mais forte. Então, na minha visão, a gente precisa naturalizar essa situação. O mundo tem de estar preparado para as pessoas gordas', reforçou.


Essa visão de naturalização é compartilhada pelo psicanalista Luiz Alberto Py, que lembra bem o bordão do apresentador Jô Soares em seu programa de entrevistas: 'Beijo do Gordo'. O psicanalista diz que os padrões são culturais e variam de época para época, de civilização para civilização. Ele lembrou que na qualquer revista dos anos 50 vai mostrar um padrão de beleza bem diferente do que temos hoje, com mulheres com muito mais carne.


'Olho a questão do ponto de vista adulto. Primeiro as pessoas que são gordofóbicas geralmente são pessoas preconceituosas, pessoas agressivas, que tendem a se comportar de uma forma hostil em relação ao diferente e que podem ser hostis com o ruivo, com o preto, com o branco, com o alto, com o baixo, com o gordo, com o magro, com qualquer coisa, desde que seja diferente do grupo. A gente herda a genética, o metabolismo dos pais e o próprio biotipo. As pessoas muitas vezes herdam esse biotipo gordo dos pais e tem de lidar com isso. Lidar objetivamente com o que o que pode ser um problema de saúde, porque, fora disso, o que é a questão estética, é moda. Se for olhar a Renascença, as mulheres eram vistas como sensuais por ter formas volumosas. Nos países árabes as mulheres são procuradas por serem acima do peso, enquanto aqui, nas civilizações ocidentais há um peso standard, um peso padrão. Essa coisa tem um lado que é muito cultural, varia de lugar para lugar e de época para época', detalhou o psicanalista.


A psicóloga e terapeuta Renata Ribeiro também reforça a necessidade de se naturalizar a questão. Renata afirma que o capitalismo e a violência da era da técnica moderna, inserem nas pessoas a ideia de consumir esses padrões, para serem aceitas pela sociedade e inseridas nela. Pessoas consomem beleza e consomem corpos. Assim, como uma pessoa compulsiva consome algo compulsivamente, pessoas que são escravizadas pela ditadura do padrão de beleza consomem padrões de beleza compulsivamente, mesmo quando não precisam. Essa ideia é naturalizada há décadas e com exposição através da mídia produz desejos. A busca pelo corpo ideal leva o indivíduo à insatisfação, devido a impossibilidade de atingir o padrão. Não atingir o padrão modelo leva o Ser a um sentimento de impotência frente ao próprio corpo. Isso traz lucros para o mercado que se nutre do desejo e da ansiedade das pessoas sempre em busca do corpo perfeito. Na sua visão, é uma demanda de consumo que nunca sofre escassez com as promessas e ciclos de desejos que giram cada vez mais depressa.


'O empoderamento, independentemente do que seja a causa, passa pela aceitação. A pessoa precisa olhar para si e se amar do jeitinho que ela é, e entender que cada pessoa tem um corpo e uma estrutura física. Ninguém é igual. Eu oriento as pessoas, a seguirem páginas de pessoas com a mesma causa, que já passaram pelo processo de autoaceitação, e que se empoderaram. Não adianta ser ou estar gordo, e seguir uma pessoa, que seja um ideal de beleza, que nunca será alcançado. Independentemente da estrutura física de cada um, o que é importante é estar bem de saúde e feliz, se aceitando como é, e não passando pano para pessoas preconceituosas. Não se calem! Se por acaso for necessário fazer uma terapia para se encontrar, se amar e se aceitar, por que não? Façam. É possível sim, elevar a autoestima independente de seu padrão corporal, e a partir de então, você não terá uma ferida que te acompanhará para o resto da vida. A terapia é, sim, um processo muito interessante', concluiu Renata.


A advogada Michelle Vargas, especialista em Direito Antidiscriminatório, é necessário fazer com que essas pessoas se sintam valorizadas e especiais, com representatividade nos meios de comunicação, escola, indústria da beleza, trabalhando a autoestima, autoamor, normalizando todos os tipos de corpos e estruturas físicas. Para ela, ser gordo é uma característica normal como qualquer outra, não significa oposto de ser saudável ou ser bonito, inclusive, porque somos indivíduos com características diferentes e únicas.


'O empoderamento vem com as manifestações sobre a temática, com políticas públicas para adequação de espaço e conscientização e reeducação da sociedade, inclusive, com relação às falas e termos preconceituosos. Nossa sociedade é preconceituosa, especialmente, com relação a grupos minoritários e, portanto, precisamos conscientizar, instruir e educar nossa população para que não haja mais padrões estabelecidos e para que as diferenças sejam aceitas de forma normal por serem inerentes aos seres humanos. O preconceito e ódio as minorias é uma chaga que precisa acabar porque além de adoecer os indivíduos que são atacados, destrói também nossa sociedade, porque propaga ódio, violência e desrespeito quando deveria incentivar a empatia e o amor', afirmou Michelle.

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