“A Construção”, de Franz Kafka, volta aos palcos do Rio em temporada no Teatro Municipal Sérgio Porto
Com idealização e atuação de Marcelo Olinto, espetáculo dirigido por Beto Brown transforma a história de um animal obcecado pela própria toca em uma reflexão sobre o medo, a sobrevivência e o isolamento humano. Montagem fica em cartaz de 2 a 18 de outubro.

A obra de Franz Kafka (1883-1924) volta aos palcos cariocas com uma nova montagem de A Construção, novela inacabada escrita pelo autor tcheco seis meses antes de sua morte e publicada postumamente, em 1931. O espetáculo terá uma curta temporada no Teatro Municipal Sérgio Porto, de 2 a 18 de outubro, com apresentações de sexta-feira a domingo.
Idealizada e protagonizada por Marcelo Olinto, a montagem tem direção de Beto Brown e adaptação de Pedro Emanuel, vencedor do Prêmio Shell de Melhor Dramaturgia por Língua. A peça transporta para o palco o universo claustrofóbico e inquietante de Kafka, explorando temas como o medo, a necessidade de proteção, a propriedade e a luta pela sobrevivência.
Em cena, Olinto interpreta um animal mamífero, um texugo que se dedica obsessivamente à construção e à manutenção de sua toca subterrânea, concebida como um refúgio seguro contra as ameaças do mundo exterior. Orgulhoso de sua obra, o personagem, no entanto, vive atormentado pela possibilidade de que sua moradia seja invadida por inimigos, reais ou imaginários.
A narrativa acompanha a tensão crescente entre a busca por segurança e o medo permanente da destruição. Por meio da trajetória desse animal envolvido na construção de sua própria fortaleza, Kafka apresenta uma metáfora da condição humana, marcada pela necessidade de um teto, pelo desejo de controle e pelo temor da morte.
Kafka e os ecos de um mundo em conflito
Escrita na primeira metade da década de 1920, em um contexto de profundas transformações políticas e sociais na Europa, A Construção ganha novos contornos diante dos conflitos e das tensões contemporâneas. A narrativa propõe uma reflexão sobre a luta pela sobrevivência em ambientes hostis e sobre os mecanismos de isolamento diante daquilo que se considera uma ameaça.
Quase um século depois, a obra mantém sua capacidade de dialogar com um cenário internacional marcado por conflitos e pela ascensão de movimentos autoritários em diferentes regiões do mundo, incluindo Europa, América do Sul, Ásia e África.
Para Marcelo Olinto, a decisão de levar o texto ao teatro está ligada à crítica que Kafka faz ao individualismo e à relação do indivíduo com a propriedade.
“Sempre me chamou atenção o fato de esse texto ser uma crítica à burguesia, desse lugar da pessoa nunca querer partilhar e dividir, desse lugar da loucura da pessoa autocentrada”, afirma o ator e idealizador do projeto.
Beto Brown, que retorna ao universo kafkiano após dirigir e adaptar Macaco — Relatório a uma academia, também destaca a relação do protagonista com aquilo que considera sua propriedade.
“Esse burguês da peça é egoísta ao máximo, mas não diria que é um ser infeliz porque ele ama a propriedade dele”, diz o diretor.
Figurino e criação cênica
O espetáculo reúne uma equipe de criação que explora visualmente a atmosfera sombria e claustrofóbica da obra. O figurino preto, criado por Marcelo Olinto em parceria com o estilista Almir França, apresenta uma textura bordada nas costas que remete à aparência de um animal. A criação da dupla foi indicada ao Prêmio Shell de Teatro de 2025, na categoria Melhor Figurino.
A equipe artística conta ainda com direção de movimento da coreógrafa Lavínia Bizzotto, cenário de Teca Fichinski, trilha sonora original de Mario Olinto e iluminação de Adriana Ortiz.
Marcelo Olinto: quatro décadas de trajetória no teatro
Com 43 anos de carreira, Marcelo Olinto é ator, figurinista e produtor, além de membro fundador da Cia. dos Atores, grupo com o qual participou de montagens como Rua Cordelier, Tempo e morte de Jean Paul Marat, A Bao A Qu, Melodrama, O enfermeiro, O rei da vela, Insetos, Ensaio.HAMLET, Bait Man e Conselho de Classe.
Ao longo de sua trajetória, trabalhou com diretores como Aderbal Freire Filho, Enrique Diaz, Gerald Thomas, Gilberto Gawronski, João Saldanha, Rodrigo Portella e Rubens Corrêa. No teatro, integrou os elencos de O Bem-Amado, ao lado de Marco Nanini, e Conselho de Classe, trabalho que lhe rendeu o prêmio APTR de Melhor Ator.
Como figurinista, acumula seis prêmios, entre eles Shell RJ, Shell SP, APCA, Mambembe RJ e Cultura Inglesa. Também assinou os figurinos do show Universo Particular, de Marisa Monte, e de espetáculos como Virgínia, A Falecida, Julius Caesar, Vidas paralelas, Os Mambembes e As irmãs Pereira. Atualmente, está à frente do Projeto Residentes da Sede, desenvolvido pela Cia. dos Atores.
Beto Brown e o universo kafkiano
Com trajetória iniciada em 1983, Beto Brown atua como diretor, ator e figurinista. No início da carreira, integrou o grupo Marxmellow e participou de montagens como Os Banhos, de Maiakovski, e Jogos de Guerra, de Fernando Arrabal e Bertolt Brecht.
Na direção, realizou trabalhos para o público infantil, como Morangos e Lunetas, com Patrícia Pillar, e Pedro e o Lobo, além de Tem Areia no Maiô, com o grupo As Marias da Graça, espetáculo que segue em circulação pelo Brasil.
No teatro adulto, dirigiu obras como Zee, de Fernando Pessoa, e Amor Perfeito, de Denise Crispun. Após a pandemia, voltou à obra de Kafka com a adaptação e direção de Macaco — Relatório a uma academia, apresentada no Rio de Janeiro com Eduardo Andrade, e sua versão uruguaia, Mono — Informe a la academia, em Montevidéu, com o ator Marcos Valls.
Com a nova montagem de A Construção, Brown e Olinto convidam o público a mergulhar em uma narrativa sobre a obsessão pela segurança, o apego à propriedade e os limites entre proteção e aprisionamento.

Ficha Técnica
Texto: Franz Kafka
Adaptação Dramatúrgica: Pedro Emanuel
Direção: Beto Brown
Atuação: Marcelo Olinto
Direção de movimento e preparação corporal: Lavinia Bizzotto
Cenário: Teca Fichinski
Figurino: Almir França e Marcelo Olinto
Iluminação: Adriana Ortiz
Composição: A Construção/Suite Sinfônica Mario Olinto
Produção executiva: Liliana Mont Serrat
Assessoria de imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda
Mídias sociais: Rafael Teixeira
Design gráfico: Maria Cristina Pacheco
Fotos banner e cartaz: Nil Caniné
Fotos: Ricardo Brajterman
Filmagem e edição de vídeo: Bruna Baitelli
Ateliê de costura: Empório Almir França
Estúdio: Mega
Técnico de luz e operação: Rafael Maia
Montagem cenário: Ryan dos Santos
Produção: Beto Brown e Marcelo Olinto
Realização: Antropofagia Produções
Idealização: Marcelo Olinto
SERVIÇO
Espetáculo: A Construção, de Franz Kafka
Local: Teatro Municipal Sérgio Porto – Rio de Janeiro
Temporada: De 2 a 18 de outubro de 2026
Dias: Sexta-feira a domingo
Idealização e atuação: Marcelo Olinto
Direção: Beto Brown
Adaptação: Pedro Emanuel




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