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A METAMORFOSE DO MAL: POR QUE O GADO ESTÁ AMUADO?

Foto do escritor: Eduardo Papa*
Eduardo Papa*
há 11 minutos
7 min de leitura

Imagem criada pelo ChatGPT
Imagem criada pelo ChatGPT

 

*Eduardo Papa

  

Há duas semanas da eleição mais importante do nosso século, a opção de temas importantes para serem observados é enorme. Poderia escrever sobre a treta do STF, que deixa claro o caráter de classe da justiça no Brasil, o fato de pelo menos a metade da corte estar no bolso do banqueiro pôs a nu o tipo de relações de nossos magistrados com os diferentes setores da sociedade. Outra questão relevante seria abordar as tentativas do governo americano intervir na política brasileira, e a humilhante posição de setores políticos brasileiros ante a pressão estadunidense, bastaria citar o vergonhoso discurso do deputado Gen. Pazzuelo, representante da classe castrense fluminense na Câmara Federal, defendendo que o Brasil aceitasse o pedido de Trump para enviar nossa marinha para ajudar na agressão ao Irã. Poderia analisar o papel da nossa imprensa cada ver mais parcial em seu apoio incondicional ao que há de mais retrógrado em nosso país. Enfim não faltariam temas relevantes na esfera política, econômica, diplomática, etc. Porém, escolhi levar o leitor a uma reflexão sobre um tema comportamental, que tenho feito a partir de minha experiência pessoal nas ruas do meu querido Rio de Janeiro, origem e baluarte do bolsonarismo (bem como do Comando Vermelho).

 

Muito embora eu não me identifique com o PT, pois o meu pensamento está bastante à esquerda dele. Na verdade, é uma impropriedade defini-lo como um partido de esquerda, é um partido de centro, social-democrata, que acaba sendo enquadrado como esquerdista, devido a predominância de organizações partidárias ultrarreacionárias em nosso espectro político, definir o partido do Edir Macêdo ou o do Ciro Nogueira como centrão, nada mais é que uma forma de escamotear que é tudo direita, e extremada. No fundo, nem sequer considero que o processo eleitoral seja, por si só, capaz de levar às necessárias transformações sociais e políticas para sermos soberanos e prósperos. Entretanto, debaixo dessa treva que baixou sobre o nosso país, hoje, como há quatro anos, trabalho pela eleição de Lula, e nessa lide fiz uma observação que considero relevante.

 

Desde o primeiro dia da campanha oficialmente aberta, só saio de casa com o botton do Lula, assim como na eleição passada, e tenho notado uma diferença significativa no comportamento de pessoas que de alguma forma demonstram sua hostilidade ao ver o broche com o “sapo barbudo”. A cara feia não mudou, desde a expressão de um furor possesso, até o ar blasé para evocar uma superioridade que denota pura mediocridade. Porém, a despeito do visível desconforto que causo em alguns, a atitude é bem diferente que em 2022, quando lutavam embalados pela reeleição do seu mito. Esse ano o gado está amuado, alguns envergonhados, muitos olham para o chão. Na vez passada, em três oportunidades, enfrentei hostilidades sérias e provocações que poderiam levar a confrontos, e considere que, apesar de já idoso, sou um homem grande e razoavelmente forte. Em 2022, o trabalho do “gabinete do ódio” mostrou seus resultados, arregimentou uma base radicalizada e aguerrida para sustentar um movimento social vigoroso que culminou na “Revolta dos Coxinhas”, do oito de janeiro, na Praça dos Três Poderes. Agora tudo mudou, continuam fazendo cara feia, mas estão nitidamente “com o galho dentro”, e ninguém pode dizer que é fome, já que o país garantiu a segurança alimentar para o povo.

 

Esse ano a base social da extrema direita está dispersa, como comprovou a incapacidade do bolsonarismo de mobilização de massa, isso será fatal para a campanha presidencial e pode resultar em uma modificação na composição da bancada direitista no congresso. O fascismo precisa da multidão, sem a turba não pode ser cultivado o sentimento de pertencimento a um movimento poderoso, é um elemento que não pode ser substituído nem por um trilhão de robôs. O candidato que apresentaram para o certame, além de uma história política com tudo para se transformar em um vasto prontuário policial, não tem uma fração do carisma do pai, suas tentativas de radicalizar o discurso soam patéticas, posso estar errado, é claro, mas acho que Flávio Bolsonaro vai levar uma surra, capaz de dançar logo no primeiro turno. Sem um líder forte os elementos mais radicalizados perdem tração, candidatos ligados a esquemas políticos tradicionais com raízes regionais devem sobreviver, mas o núcleo duro do bolsonarismo vai sangrar. Também essa gente não se ajuda, essa semana, o deputado Zé Trovão entrou na justiça contra o reajuste do bolsa família, coisa de gênio hein!

 

Sim, em minha opinião, Lula vencerá, e veremos o mesmo script na política brasileira que se repete desde que as eleições deixaram de ser controladas pelos coronéis do interior: o partido mais identificado com as massas populares vence e os setores reacionários tentam virar a mesa, buscando apoio no Tio Sam. No século passado foi o PTB de Getúlio contra a UDN, em nossos tempos é o PT do Lula, primeiro contra o PSDB e agora contra o PL e uma coleção de legendas conhecidas como centrão. Sempre foi assim, o Império prefere vencer pelo suborno, pelo engodo, mas quando não dá vem na força bruta mesmo, com isso contam os agentes da CIA recrutados em nosso país, alguns chegam até aventar o uso de armas nucleares para os EUA manterem sua colônia submissa, e por eles administrada, é claro.

 

E agora voltamos ao tema inicial, muito recorrente em meus artigos recentes, o que leva um terço da população a apoiar um projeto político que beneficia não mais que um por cento dos brasileiros? Como explicar que gente que diz amar o país, que chora pela nossa seleção, andar com a bandeira americana e de Israel, votando em traidores capachos de Donald Trump? Vou voltar a tocar a mesma lira com plectro diferente, como dizia Homero, e tecer mais algumas considerações sobre o perfil psicológico do segmento social que aglutinou em torno da UDN no século passado e hoje sustenta o bolsonarismo.

 

Muito se fala sobre o “soft Power” dos EUA, uma imagem construída no imaginário de seu povo, e exportada para sua área de influência em todo o globo, da excepcionalidade dos EUA. Seria uma espécie de paraíso na terra, campeão da justiça e da democracia, uma nação construída por homens fortes e justos, claro varrendo para baixo do tapete os escravizados e excluídos de toda a sorte. A população de países como o nosso, tem sido bombardeada pela propaganda, pelo cinema, por todas as mídias, pelo sistema educacional, por um monte de igrejas e inúmeras instituições que propagam o “sonho americano”. Ao mesmo tempo, pelas mesmas vias transitam as propostas do neoliberalismo para a sociedade, estado mínimo, meritocracia, desregulamentação da economia, etc. Processos que foram potencializados pelo advento das redes sociais.

 

A nossa classe média, que na pirâmide social, em sua maioria esmagadora, está bem mais próxima dos pobres que da classe dominante, teve sua estrutura mental moldada para a adoração incondicional ao novo Deus da sociedade ocidental moderna – o dinheiro. Desde os folhetins do século passado até o Instagran a felicidade vem sendo fundida à riqueza material como nunca antes, difundiu-se uma verdadeira adoração ao luxo, e a vida do grand monde o paradigma dos sonhos de donas de casa, escriturários e todo o tipo de gente que fica embevecida, verdadeiramente extasiada pela visão de uma realidade que não é, e nunca será a sua. Ainda que isso seja óbvio, a ânsia de ter mais lhes é tão fortemente incutida que gera frustrações, bem no fundo dessas almas inundadas por desejos ilimitados.

 

O recalque criado pela continuada frustração de expectativas por uma escalada social, que ainda que ocorra jamais será suficiente, acaba encontrando uma compensação psicológica na discriminação e diminuição de quem está, ou consideram estar, em condição de inferioridade a sua na escala social. É nesse caldo de insatisfação emocional, que pode ser muito agudo, que vicejam os preconceitos, os que nos acompanham há séculos e milênios como o racismo e o machismo são atualizados, acrescidos de outros tantos mais modernos, e lançados como uma avalanche virulenta contra a ascensão, pequena que seja, do nosso povo pobre. Um ideário malicioso, voltado para eximir o grande capital da responsabilidade sobre a pobreza e as mazelas sociais, surge buscando bodes expiatórios justamente naquilo que é a antítese do que adoram, o resultado é botar a culpa nos que estão no degrau debaixo. Daí vem o discurso de que os cidadãos que recebem o bolsa família são vagabundos que não querem trabalhar, que as favelas são antro de bandidos e que a polícia tem mais é que entrar matando, e todo esse horror que vimos ser banalizado.

 

Quando a explosão coletiva desse recalque encontra uma barreira, como foi o fracasso do golpe de Bolsonaro surge uma barreira. Ainda que a atuação histriônica de suas lideranças tentasse de tudo, o movimento refluiu e voltou ao ambiente virtual. Com o mito preso e os milicos quietinhos os patriotarios ficaram reticentes, ainda mais agora com seus líderes, em desespero de causa, agarrados no Trump como tábua de salvação (aposta bem arriscada), estão sentindo o cheiro da derrota, daí a mudança no comportamento com o lobo vestindo a pele do cordeiro. A barreira a que me referi acima funciona como uma barragem represando o caldo até a próxima explosão, e ainda que ainda sejam encontrados por aí arquétipos do idiota patriotario, desses que afirmam que Lula já morreu e o que vemos é um clone e outras sandices, esses são apenas marolas que escondem no fundo da represa.

 

Precisamos identificar essa sutil mudança de comportamento, que não demonstra nenhuma mudança de convicção, mas sim um ardil construído internamente para adaptar-se as novas situações. Por exemplo: aquele bolsonarista furioso, radical combatente de corruptos, que você via esbravejando “e o Lula! E o PT!”, bufando de indignação por uma corrupção sem provas, hoje ao tomar conhecimento da corrupção comprovada e exposta de Cláudio Castro, pode estar fazendo piadinhas, algo como: “viu só o governador do Rio, empregou seis mil fantasmas quaquaqua”, criando uma forma de suavizar, minimizar os crimes cometidos pelos seus, Demonstrando claramente que toda a sua indignação não era de fato pela corrupção em propriamente dita, mas discriminando de quem ela pode ou não ser aceita. Quando confrontado com as rachadinhas dos gabinetes do bolsonarismo reage banalizando: “mas isso todo mundo faz”, quando confrontado com acusações quanto ao seu mito: “Ah! Mas isso tem que provar”, enquanto para outros qualquer rumor tem o peso de culpa na certa.

 

Precisamos ficar atentos para identificar quando há uma real mudança de pensamento nas pessoas, coisa que depois de uma certa idade fica difícil, e quando se trata apenas de escamotear o que de fato está por trás de uma moderação desejada, porém inesperada, e procurar antever o que vem depois da curva, pois como dizem por aí: de onde menos se espera, é que não vem nada mesmo.  


 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 

 

 
 
 

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