top of page

Casa Verde: um resultado, mas não o final

Foto do escritor: Luiz Carlos Campos*
Luiz Carlos Campos*
há 10 horas
4 min de leitura

 

Luiz Carlos Campos*

 

Hoje, ao acordar, pensei em A Casa Verde, o célebre hospício criado por Machado de Assis em O Alienista. A instituição pode ser compreendida como uma contundente crítica ao poder absoluto, ao autoritarismo e à vulnerabilidade das instituições políticas.

 

Itaguaí funciona, na narrativa de Machado de Assis, como uma espécie de representação simbólica do Brasil, permitindo refletir sobre aspectos de nossa sociedade e de nossas instituições. Nesse espaço, o médico Simão Bacamarte recorre ao discurso científico para justificar a criação de um sistema de controle baseado em uma espécie de “ditadura da razão”. A partir dos critérios estabelecidos por ele, comportamentos considerados inadequados ou diferentes dos padrões definidos passam a ser tratados como sinais de desvio e podem levar à internação na Casa Verde. A justificativa apresentada para manter e ampliar a instituição está relacionada à defesa da “ordem pública” e à proteção da saúde mental da população.

 

A crítica de Machado de Assis alcança também o funcionamento das instituições políticas. A Câmara de Vereadores de Itaguaí demonstra, em diferentes momentos, sua dificuldade de se contrapor ao poder de Bacamarte, cedendo diante de sua autoridade por conveniência, fragilidade ou interesses políticos. A facilidade com que uma instituição representativa se submete ao poder concentrado na Casa Verde revela a fragilidade dos mecanismos institucionais diante da concentração de poder e da possibilidade de práticas autoritárias.

 

Em nome dessa suposta necessidade de preservar a estabilidade, os moradores de Itaguaí acabam aceitando a restrição de sua liberdade — primeiro com certo orgulho e, posteriormente, sob o medo. Machado de Assis evidencia, dessa maneira, como o medo e a busca por segurança podem levar uma sociedade a aceitar, gradualmente, a redução de suas liberdades e até mesmo formas de autoritarismo. Ao colocar praticamente toda a população de Itaguaí sob o controle da Casa Verde, sob a justificativa de promover a “cura”, garantir a “segurança” e preservar a “ordem”, o escritor expõe os riscos de projetos que pretendem controlar a sociedade em nome de uma razão ou de um conhecimento apresentados como incontestáveis.

 

É justamente nesse ponto que a ficção de Machado de Assis encontra o presente: quando uma sociedade deseja mudança, a escolha de quem ocupará o poder pode representar não apenas uma renovação, mas também um risco para as instituições que sustentam a própria democracia. O Alienista permanece atual porque nos leva a questionar até que ponto uma sociedade está disposta a abrir mão de suas liberdades em nome da ordem, da segurança ou de uma verdade apresentada como absoluta.

 

A escolha do povo de Itaguaí, guardadas as diferenças entre a ficção e a realidade política, pode ser lida como uma expressão de um desejo de mudança. Não me interessa discutir as várias razões que, de alguma forma, influenciaram — e, pelo que vimos, continuam influenciando — esse anseio. O que parece evidente, entretanto, é que essa disposição não revela com clareza qual rumo o eleitor pretende dar a essa mudança nem por que está optando por ela. Na verdade, a escolha parece muito mais uma opção de risco.

 

No entanto, é equivocado afirmar que o eleitor errou ao escolher um candidato. Essa questão precisa ser compreendida também à luz da própria composição da sociedade brasileira, marcada por uma predominância de posições conservadoras, embora também estejam presentes perspectivas progressistas. Afinal, quem disputa um voto assume a responsabilidade de apresentar suas propostas, demonstrar sua capacidade política, sua competência e os princípios éticos que orientam sua atuação. Se o candidato não consegue convencer o eleitor de que possui essas qualidades e de que está preparado para exercer a função que pretende ocupar, seria justo atribuir a responsabilidade pelo resultado àquele que votou ou àquele que buscou conquistar o voto?

 

O problema, portanto, está no candidato e na sua campanha em apresentar suas propostas e convencer o eleitor. Entretanto, as consequências dessa escolha ultrapassam a relação entre candidato e eleitor e atingem toda a sociedade. Aqueles que acreditaram nas propostas apresentadas e depositaram seu voto naquele candidato também estarão sujeitos aos efeitos de suas decisões, assim como o próprio país, especialmente quando ficam comprometidas a preservação das instituições, o crescimento e a possibilidade de avanços sociais e políticos anunciados durante a campanha.

 

Reconhecer essas consequências não significa responsabilizar o eleitor pela escolha que fez, mas compreender que as decisões políticas produzem efeitos que alcançam a coletividade. Por isso, a responsabilidade pela conquista do voto pertence, antes de tudo, ao candidato e à sua campanha, que devem ser capazes de apresentar suas propostas, sua competência e seus princípios ao eleitor.

 

A sociedade contemporânea, portanto, não precisa de uma nova Casa Verde, nem de mecanismos que pretendam controlar o pensamento e o comportamento em nome de uma suposta ordem. O que precisamos é ampliar a liberdade, o diálogo e a capacidade de pensar criticamente. Diante da intolerância, da restrição e da censura, a resposta não pode ser o silêncio, mas a circulação de mais informação, de diferentes perspectivas e de possibilidades de reflexão.

 

 

*Luiz Carlos Campos - Doutor em Educação e Mestre em Teoria e literatura brasileira. Pesquisador, Professor da rede pública estadual e da UNESA.

 
 
 

Comentários


White on Transparent.png

Inscreva-se no site para receber as notícias tão logo sejam publicadas e enviar sugestões de pauta

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube

Obrigado por inscrever-se!

@2022 By Jornal Pimenta Rosa

bottom of page