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CHEGOU SANGUE NOVO!

Foto do escritor: Eduardo Papa*
Eduardo Papa*
há 11 minutos
6 min de leitura


*Eduardo Papa


Sangue bom, de gente animada e disposta. Uma maré encarnada tomou conta das ruas das cidades brasileiras, milhões de pessoas em todo o Brasil saíram de suas casas para rejeitar, com profundo e sincero horror, a volta dos Bolsonaro ao governo. A campanha pelo Lula não foi o que levantou essa gente toda, afinal na campanha do primeiro turno não se viu nada parecido, o que moveu a massa foi o pavor! A iminência de implantação de um regime fascista chocou a nação, e a reação natural foi sair e procurar outras pessoas para compartilhar sua apreensão e buscar o abrigo na força da multidão. E que força!


Como cientista social e jornalista, estudei profundamente os movimentos de massa na obra de historiadores, sociólogos e psicanalistas que se dedicaram ao tema. Passei toda a minha vida participando de movimentos nas ruas do Rio de Janeiro, desde a primeira passeata na capital quando a ditadura começou a fraquejar, em 1977, passando pelo movimento das Diretas já, e inúmeros movimentos sindicais, comunitários e políticos ao longo das últimas décadas. Na oposição, com direito ao conhecido carinho da PM do Rio com manifestantes, e também no governo, como presidente de diretório do PDT e assessor do governador Brizola, participei da organização de comícios gigantescos, carreatas, etc. Sei do que estou falando, e considero que essas manifestações pela reeleição de Lula são, potencialmente, a ponta de um imenso iceberg capaz de afundar o Titanic do 01.


Vou relatar o que eu pude observar na Candelária e em Copacabana. O primeiro ponto a destacar foi a quantidade de pessoas, principalmente em Copacabana, seguramente a maior manifestação política na cidade em muito tempo, algo do tamanho desses megaeventos com astros internacionais. A segunda constatação evidente foi a predominância de pessoas abaixo dos 40 anos. Uma das características das manifestações políticas no Brasil, de todos os campos ideológicos, tem sido a ausência de jovens, fora movimentos específicos de estudantes e relativos à educação, a queixa de nove entre dez ativistas é ausência dos jovens. Lembram dos patriotarios? Um monte de candidatos a um asilo (alguns acabaram na cadeia), nas movimentações à esquerda a mesma coisa, uma notável predominância da terceira idade. Como consequência dessa nova composição etária, a animação é redobrada, a disposição é outra, e a criatividade explode. Acabou a caminhada em Copa, uma massa foi para a Lapa no encontro dos sambistas em apoio a Lula, a noite do Rio ferveu em todos os bairros, com bares cheios embalados no gingle da campanha. Outra questão digna de nota foi a inexistência de um comando forte, na Candelária/Cinelândia tinha o Trio Elétrico do Lula (bastante modesto por sinal), mas não era uma manifestação do PT, todos sabiam a razão de estarem ali e encontraram a melhor forma de manifestar seus anseios. Em Copa alguns caminhões carregavam personalidades e políticos locais, mas não dirigiam nada, eram pontinhos no meio de uma imensa multidão que cantava, dançava, empunhava bandeiras e cartazes, com um único sentido óbvio e consensual – derrotar o fascismo.


Essa clareza no objetivo comum, consubstanciada em uma medida tão simples quanto derrotar na eleição Flávio Bolsonaro, teve o poder de construir um arco de apoio enorme na sociedade civil, que resolveu quase instantaneamente reagir em repúdio ao candidato do PL, católicos, muçulmanos, budistas, espíritas, umbandistas, protestantes decentes, estudantes professores, operários, centenas de entidades e associações das mais diversas naturezas, os cientistas e artistas mais importantes da nossa cultura, a nata da sociedade brasileira se levantou e resolveu derrotar o tecnofeudalismo, domar os algoritmos, e neutralizar a patifaria orquestrada por Trump, Zuckberg, Elon Musk e Cia. para dominar o nosso país. Liberou-se no Brasil aquilo que eu ouvia o velho Brizola chamar de “a força do povo”, uma vontade coletiva que não pode ser contida. Nas escolas, Igrejas, locais de trabalho e convivência social o bolsonarismo vai ser posto nas cordas por uma reação natural de autodefesa da população. No dia 25, os eleitores bolsonaristas vão votar envergonhados, arrastando-se pelos cantos como párias em nossas cidades. Aqui no Rio é comum encontrar gente com o adesivo do Lula andando pelas ruas, até agora não esbarrei com ninguém com o 22. Quem vai sair de casa com um adesivo no peito com a cara do primogênito da nossa família Soprano?


A campanha de Flávio nitidamente enfraqueceu, deu sinal de subir no salto alto, e os candidatos de direita vencedores para o parlamento e governos estaduais, confortáveis com as maiorias conquistadas, esmoreceram, muitos foram tirar “merecidas” férias. Enquanto isso, a campanha de Lula ganhou tração, uma prova é o desespero dos magnatas das redes sociais, que sempre atuaram para seus candidatos, mas nessa eleição deixaram cair todas as máscaras, favorecendo abertamente Flávio Bolsonaro. Outra evidência é a ação despudorada do Presidente do TSE (o ministro garanhão das escravas sexuais da “creche” do Vorcaro) em favor da campanha do PL. Apostaram muito alto, não iriam se expor dessa maneira se a água gelada não estivesse batendo na bunda, para eles chegou a hora de ir para o tudo ou nada. E, afinal, o que vai acontecer semana que vem? Eu continuo com o mesmo prognóstico que meus leitores já viram nesse mesmo espaço: Lula vencerá e haverá tentativa de golpe, mas agora o quadro é outro, como dar um golpe em um país com milhões de pessoas mobilizadas em defesa da democracia? Simplesmente não dá! Foi o que Getúlio criou com seu suicídio.


A multidão nas ruas muda tudo. Muda a visão do homem comum, que, querendo ou não, tem de lidar com questões que vão além do campeonato de futebol ou as dancinhas do momento. Muda a postura da classe dominante, que vê seu maior pavor materializar-se, quando a maioria do povo começa a perceber a sua importância e posição na engenharia social, o que, potencialmente, pode mudar o centro do poder e a direção da sociedade, como na França, em 1789 e na Rússia em 1917. E chegou o que faltava para incendiar as ruas brasileiras, a força jovem! Os magnatas que controlam a internet investiram anos para criar “bolhas” virtuais para aprisionar a energia da juventude, e evitar que suas reais necessidades aflorem como aspirações e demandas concretas, que tragam a contestação da ordem neoliberal. Se milhões de jovens saem às ruas cantando e dançando, usando seus próprios canais e ferramentas para questionar seu poder, os caras piram e perdem a linha. A manipulação grosseira e visível na entrega de conteúdos não tem sido o suficiente, foi preciso acionar os juízes chicaneiros do bolsonarismo para tentar reduzir a avalanche lulista nas redes sociais.


Em se confirmando meu prognóstico de vitória do Lula, a crise institucional que vivemos não vai evaporar no ar, o poder judiciário, que procurava colocar-se acima das disputas fisiológicas em que o executivo e o legislativo chafurdam, passou a enfrentar os mesmos questionamentos que os demais segmentos do Estado. A voracidade do juiz adúltero e promíscuo mostrou que a ética dos juízes vale tanto quanto o pundonor dos militares golpistas, ou a honradez de nossos legisladores que se lambuzaram no orçamento secreto. A bancada de extrema direita no congresso não só vai fazer de tudo para obliterar as ações do executivo, como vai tentar avançar em sua agenda de supressão de direitos e entrega da soberania econômica do Brasil para os EUA. A margem de Lula de fazer novas alianças e acordos que garantam a governabilidade é muito estreita. Em seu último mandato, assim como Vargas em seu último período, Lula vai encontrar uma oposição ferrenha e golpista financiada pelos EUA, e a sua única saída será fazer como o velho caudilho, chamar o povo para a cena política. Foi uma grande campanha de massa, liderada pelos estudantes (detalhe importante), que permitiu a criação da Petrobrás por um congresso udenista. Já escrevi isso aqui nesse mesmo espaço: podem se preparar para a campanha do “o praseodímio é nosso”.


Os destinos do Brasil estarão novamente nas mãos dos jovens, que nunca nos falharam, sempre estando do lado generoso para com o povo. Estavam na linha de frente da luta abolicionista, apoiaram as campanhas democráticas e nacionalistas do PTB de Getúlio, foram a voz que se ergueu contra a ditadura militar, despacharam o Collor e estão passando o rodo no Flávio Bolsonaro. Lecionei décadas para jovens de ensino médio, asseguro a qualquer um que é um péssimo negócio arranjar encrenca com eles. Se esses rapazes e moças tomarem mesmo gosto pela coisa, podem atropelar essa direita psicótica de redpills, antivacs e outras aberrações que brotaram no esgoto das redes sociais controladas pela plutocracia estadunidense. Eu boto fé na rapaziada!



*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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