COI endurece regras para atletas trans e reacende debate global sobre inclusão no esporte
- Pimenta Rosa
- há 10 horas
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Em meio aos playoffs da Superliga, Tifanny Abreu critica novas diretrizes e aponta avanço de agendas conservadoras; entidades denunciam retrocesso e exclusão

A nova política de elegibilidade anunciada pelo Comitê Olímpico Internacional para atletas trans nos Jogos Olímpicos de 2028 reacendeu o debate global sobre inclusão, ciência e direitos no esporte. Em meio à disputa dos playoffs da Superliga Feminina de Vôlei, a jogadora Tifanny Abreu, do Osasco, afirmou não ter se surpreendido com a decisão e classificou o cenário como parte de uma “luta diária”.
As novas diretrizes estabelecem que a participação na categoria feminina será restrita a “mulheres biológicas”, com base em testes genéticos. O principal critério será a verificação do gene SRY, associado ao sexo biológico. Atletas que não apresentarem esse gene poderão competir permanentemente na categoria feminina.
A medida marca o retorno, sob nova roupagem, de mecanismos históricos de verificação de gênero no esporte, como os chamados “testes de feminilidade”, adotados desde os Jogos Olímpicos de 1968 e amplamente criticados por seu caráter invasivo e discriminatório.
Em entrevista ao jornal O Globo, Tifanny foi direta ao relacionar a decisão a um contexto político mais amplo. “Essa é uma luta diária contra a extrema direita. Hoje estou elegível, amanhã não. As regras mudam o tempo todo”, afirmou a atleta, destacando a instabilidade enfrentada por esportistas trans em diferentes competições.
A jogadora também mencionou a influência de lideranças políticas internacionais, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, ao assumir o cargo em 2025, assinou medidas para proibir a participação de mulheres trans em competições femininas no país. Para Tifanny, decisões como a do COI dialogam com esse cenário global de restrições.
O impacto dessas disputas não se limita ao âmbito internacional. Recentemente, Tifanny precisou recorrer ao Supremo Tribunal Federal para garantir sua participação na Copa Brasil de Vôlei, após tentativas de aplicação de uma lei municipal em Londrina que proibia atletas trans em competições realizadas em espaços públicos.
“Não é uma questão apenas do esporte. É sobre a vida das pessoas trans”, afirmou a atleta, citando também a deputada federal Erika Hilton como exemplo de figuras públicas trans que enfrentam resistência institucional.
A reação às novas diretrizes também veio da sociedade civil. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais divulgou nota criticando duramente a decisão do COI, classificando-a como alinhada a políticas restritivas internacionais e baseada em “estratégias de exclusão disfarçadas de neutralidade científica”.
Segundo a entidade, o uso de critérios biológicos para definir elegibilidade esportiva retoma práticas históricas que já foram utilizadas para excluir mulheres cis e pessoas negras de competições, com base em teorias hoje consideradas ultrapassadas e discriminatórias. A ANTRA também alerta que o foco em atletas trans desvia a atenção de problemas estruturais do esporte feminino, como desigualdade de investimentos e falta de políticas de proteção.
No cenário atual, especialistas e organizações apontam que não há consenso científico robusto que sustente a exclusão generalizada de atletas trans com base em supostas vantagens biológicas. Ainda assim, decisões vêm sendo tomadas sob forte influência de pressões políticas e ideológicas.
Enquanto isso, dentro das quadras, Tifanny segue em atividade pelo Osasco, que enfrenta o Fluminense nas quartas de final da Superliga. Fora delas, sua trajetória continua simbolizando um debate que ultrapassa o esporte — e expõe disputas mais amplas sobre direitos, reconhecimento e pertencimento.
Para entidades e atletas, o momento é de alerta: mais do que regras esportivas, o que está em jogo é o lugar das pessoas trans na sociedade contemporânea.





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