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Cutucaram o urso com vara curta 

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • há 22 minutos
  • 7 min de leitura



*Eduardo Papa

Depois do ataque de Israel e dos EUA ao Irã, a atenção da opinião pública internacional voltou-se para o Golfo Pérsico e a Ucrânia começou a perder espaço nos noticiários, justamente no momento em que a guerra com a Rússia parece estar chegando a sua decisão. Enquanto a aliança EUA/Israel tentou uma guerra rápida, baseado em um ataque aeronaval avassalador, o exército russo vem travando uma guerra de atrito contra a Ucrânia e a OTAN, que se transformou em um moedor de carne humana. Os conflitos são de natureza completamente diferente, porém com uma característica curiosa em comum: ambas já estão decididas, mas não acabam porque a parte derrotada recusa-se a reconhecer o fato.

 

Trump e Netanyahu lançaram tudo o que tinham contra o Irã, esperando que seus agentes infiltrados conseguissem aproveitar a oportunidade para derrubar o governo e abrir as portas aos invasores. Fracassaram de maneira inequívoca, e não tem um plano B. As bases americanas nos países árabes, que custaram trilhões, foram reduzidas a pó e a marinha dos EUA teve que recuar para uma distância em que não pode ser atacada pelo Irã. Israel foi duramente afetado pelo contra-ataque iraniano e está tomando outra surra do Hezbollah no Líbano, os agentes do mossad estão indo para a forca em Teerã e o governo dos Aiatolás vai bem obrigado, controlando o estratégico estreito de Ormuz. O Irã venceu a guerra e não há nada que possa mudar a realidade, porém, o ego de Trump não pode conviver com isso, e Netanyahu sabe que a paz para ele significa a prisão. O que criou essa situação inusitada, em que o mundo inteiro vai ter sua economia abalada, porque os EUA não assumem que o que de pior eles podem fazer ao Irã é prejudicar o time deles na Copa da FIFA.

 

Já na Ucrânia, Zelensky não pode aceitar a paz, pois teria que lidar com as graves acusações de corrupção em seu governo, e a OTAN aproveita para financiar e manter a guerra até o último ucraniano, com o objetivo manifesto de enfraquecer a Rússia. O exército ucraniano, que era o mais poderoso da Europa no início do conflito está esgotado, com um número de baixas colossal, que não podem ser repostas. Chega a meio milhão o número de desertores e o recrutamento de novos soldados depende da captura de pessoas na rua para o alistamento forçado. As funções técnicas e de comando de nível intermediário são ocupadas por militares dos países europeus, pois não existem mais oficiais ucranianos capacitados. O país está se despovoando e sua infraestrutura econômica está sendo destruída. A Rússia, ao contrário, cresceu economicamente durante a guerra, sequer decretou a mobilização militar de sua população, recrutando suas tropas entre voluntários sob contrato, seus comandantes adotaram uma estratégia que visa minimizar suas perdas em combate, e não parecia ter muita pressa em liquidar a fatura.

 

Mas o quadro mudou. Os EUA se desinteressaram pelo conflito e largaram a confusão por conta dos países europeus, diminuiu muito o financiamento à Ucrânia, porém, também deixaram de existir alguns limites, que eram impostos pelos americanos, para evitar uma reação mais incisiva da Rússia. Os EUA vetavam a realização de ataques com mísseis e drones de longo alcance ao território da Federação Russa, sem esse freio, a liderança da OTAN passou a fornecer mísseis fabricados na Inglaterra e a alimentar com munição e suporte de inteligência ataques sucessivos contra a infraestrutura energética da Rússia, provocando danos significativos. A tensão chegou ao máximo quando Zelensky ameaçou atacar Moscou no dia da parada militar em que a Rússia comemora a vitória na IIª Guerra mundial. A escalada ganhou contornos dramáticos quando os ucranianos começaram a atacar o norte da Rússia usando o espaço aéreo de países da OTAN, um ato de guerra. O chamado “corredor do Báltico” foi interditado pelas forças aeroespaciais da Rússia, que conseguiram assumir eletronicamente o controle de um enxame de drones ucranianos, os direcionando a alvos na Letônia, cujo ministro da defesa perdeu o cargo quando a situação foi desvendada.

 

Poucos dias atrás, os ucranianos fizeram uma provocação, atacando uma escola russa, matando e ferindo muitos jovens estudantes, como previsto o fato provocou uma comoção nacional e gerou uma retaliação brutal contra a cidade de Kiev. O governo russo parece estar mudando sua política, ameaçando inclusive bombardear as fábricas que produzem armas para a Ucrânia em território de países da OTAN, como o Reino Unido e a Alemanha, o que poderia levar o confronto a um nível extremamente perigoso. O cenário é preocupante, as mídias ocidentais criaram um clima de russofobia na Europa verdadeiramente histérico, os principais países europeus são liderados por políticos medíocres e fragilizados, e a ameaça da extrema direita de chegar ao poder é cada vez mais presente. A economia do continente está em franca decadência, a coesão social é tênue e, mesmo assim, parecem caminhar a passos largos em uma rota de colisão com a Rússia, buscando um confronto para o qual não estão preparados.

 

Líderes da Alemanha, Inglaterra e França, falam abertamente que estão se preparando para fazer a guerra com a Rússia, sem considerarem o fato de que não reúnem condições mínimas para a empreitada. Desde 1945, contam com a proteção militar dos EUA e suas capacidades militares foram degradadas paulatinamente ao longo desse período, em que se tornaram meros coadjuvantes, auxiliares de segunda grandeza do poder militar estadunidense. A outrora poderosa Royal Navy é uma sombra do que já foi um dia, hoje tem mais almirantes que vasos de guerra, e vem sendo humilhada pela marinha russa, que escolta seus petroleiros, ameaçados de arresto pelas potências ocidentais, em pleno Canal da Mancha. O antes poderoso e respeitado exército alemão tornou-se uma força diminuta, incapaz de qualquer missão além da defesa de suas fronteiras, e a famosa indústria bélica germânica vive uma crise profunda, vendo alguns de seus principais produtos, como o famoso tanque leopard, queimando derrotados nos campos de batalha ucranianos.

 

Devemos nos lembrar que o próprio conflito ucraniano foi gerado por uma agressiva expansão da OTAN no leste europeu, incorporando continuadamente novos integrantes até as fronteiras da Rússia. Em 2014, a CIA organizou uma “revolução colorida” na Ucrânia (cor de laranja no caso), e o novo governo passou a discriminar os falantes de russo no país, o que gerou uma rebelião na região do Donbass, região com maioria russa, que foi apoiada pela Federação Russa. O conflito acabou gerando uma intervenção do exército russo, a chamada Operação Especial. A liderança russa esperava uma solução negociada rápida, seu exército não era nem sombra do que foi um dia o poderoso Exército Vermelho da URSS. O ocidente dobrou a aposta e estimulou a Ucrânia a continuar na luta, sepultando o acordo de Minsk que vinha sendo negociado. O resultado foi a transformação da planejada “operação especial” em um conflito de alta intensidade, em que a guerra moderna mostrou sua face. com a novidade dos drones e aplicação de tecnologias que tornaram obsoletas as armas e táticas militares tradicionais.

 

Se no início do confronto o exército russo estava claramente despreparado, aproveitando a capacidade industrial voltada para a produção bélica herdada da URSS e a tradição militar do país, ele passou por uma curva de aprendizado e desenvolvimento tecnológico, que o colocou novamente na posição de principal máquina de guerra do planeta. Na prática a OTAN forçou a renovação das forças russas, das quais agora tem todos os motivos para temer, sobretudo após o desenvolvimento de novas armas, especialmente mísseis hipersônicos para os quais não há defesa eficaz. Putin parecia ter tomado emprestado de seu aliado chinês a paciência, fazendo uma espécie de guerra com limitações, evitando danos colaterais. Entretanto, o desespero de Zelensky, vendo seu exército ser progressivamente destruído, o levou a adotar uma estratégia temerária, iniciou uma campanha de ataque a infraestrutura de produção de energia nas profundezas do território russo, com o aval e a participação operacional direta da OTAN.

 

A liderança russa parece ter encarado os ataques ucranianos a suas refinarias como a ruptura de uma linha vermelha, e começou a pesar a mão na retaliação, identificando e expondo a participação ocidental no conflito, deixou clara a ameaça de atacar diretamente as fábricas que fornecem armas de longo alcance para a Ucrânia, em território da União Européia, aproveitando que os EUA, sob a liderança errática de Trump, largou a mão dos europeus. O quadro que se desenha é gravíssimo, e a ameaça é real, os russos não são fanfarrões que vivem blefando como os generais americanos, se disseram que vão bombardear as fábricas européias estão mesmo dispostos a fazê-lo, e possuem os meios necessários. Analistas especulam que, nesses anos de guerra, a Rússia renovou seus arsenais, incorporando novas armas para as quais o ocidente não tem defesa, a população do país apóia a sua liderança e está disposta a aceitar os riscos, seu exército foi reconstruído como uma força vitoriosa, calejado com experiência de combate, tudo o que o ocidente não tem.

 

A Europa está arruinada, passando por uma crise estrutural fabricada por sua própria liderança, apostaram em uma transição energética, que não está sendo capaz de substituir a energia barata, que vinha justamente da Rússia. Sua economia está em frangalhos, e sua liderança optou por aumentar gastos militares, sacrificando o orçamento para programas de bem estar social. Partidos populistas de extrema direita vicejam em todo o continente, alguns já governando seus países. Os europeus parecem caminhar resolutamente em uma marcha da insensatez, provocando uma guerra que não podem vencer, e que traria consequências desastrosas para eles. Não podem copiar a palhaçada do Trump, que pode gritar que venceu uma guerra que perdeu, pois ela foi travada a milhares de quilômetros de distância de suas fronteiras, para eles o inimigo está bem ao lado, e é um osso duro de roer, onde Hitler e Napoleão quebraram os dentes.

 

No meu entender, o perigo maior está na liderança política do continente, anos de vassalagem canina aos EUA impediram a formação de um comando político capaz de agir pensando no interesse de seus povos. Grandes estadistas do passado recente como De Gaulle, Churchil, ou Conrad Adenauer devem revirar-se incomodados em seus túmulos observando as nulidades que os sucederam, cuja incapacidade de gerar um projeto político e econômico voltado para a prosperidade de seu povo, abriu o flanco para o ressurgimento do fascismo. As hienas do fascismo, que se alimentam da pobreza e desgraça humana, estão esperando uma oportunidade, como uma guerra absurda dessas, para escalar ao poder. Resta torcer para algo que ilumine esses pobres de espírito, muito embora todos saibam que de onde menos se espera é que não vem nada mesmo.   

 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 

 
 
 

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