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Dark Horse: o azarão que virou cavalo paraguaio 

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • há 1 hora
  • 8 min de leitura

Entre comédia pastelão e filme de horror, a produção cinematográfica mais cara da história do cinema brasileiro, inaugurou o gênero lavanderia cinematográfica. 

 



*Eduardo Papa


Dark horse no jargão do turfe nos EUA é o que aqui chamamos de cavalo azarão, aquele que não está bem cotado entre os apostadores, mas vence surpreendentemente e garante um prêmio gordo aos felizardos com as pules vitoriosas. Significativo o nome dado a película não? Afinal, o principal investidor do filme retirou o capital investido, com um lucro bilionário, antes mesmo de sua estréia. Daniel Vorcaro não regateava recursos para a produção, sem sequer constar formalmente como investidor, o que indica que o banqueiro já havia obtido o resultado financeiro que esperava da operação. Quando o Intercept apresentou o áudio bomba em que Flávio Bolsonaro cobrava do comparsa novos aportes financeiros para o empreendimento, ficou claro que o filme é uma lavanderia de dinheiro cinematográfica. O azarão queimou a largada e vai chegar ao cinema claudicando como um cavalo paraguaio, expondo ao vexame os seus criadores.  

 

A incursão de Flávio Bolsonaro na indústria cinematográfica demonstra uma enorme evolução da familícia nos métodos de limpar o dinheiro obtido pelo crime. Vai longe o tempo que a grana das rachadinhas dos gabinetes da ALERJ passava no caixa de uma prosaica lojinha de chocolates em um shopping carioca. O movimento financeiro cresceu de maneira exponencial ao se aboletarem no Palácio do Planalto, e tornou-se necessária uma adequação do instrumento utilizado para ocultar a origem da verdadeira cornucópia de dinheiro que se apoderaram. As usuais operações imobiliárias em dinheiro vivo e a lojinha de bombons não comportavam mais o movimento financeiro crescente, era necessário nada menos que um banco, e não um banquinho mixuruca, mas um banco Master!  

 

Com Campos Neto assumindo a gestão do Banco Central, começou uma farra de autorizações para novas instituições financeiras operarem no mercado, dentre elas a do “irmão” do senador carioca. Vorcaro não apenas conseguiu a autorização para abrir sua banca, mesmo com suspeitas que resultaram em negativas anteriores (tempo em que o BC era controlado pelo governo e não pelo “mercado”), mas recebeu o combo completo com autorização para operar crédito consignado. A partir de então a ascensão do Master foi meteórica, recebendo bilhões dos esquemas de corrupção do bolsonarismo em vários estados: Cláudio Castro no Rio de Janeiro esbulhou os aposentados destinando 3,7 bilhões do fundo de previdência dos servidores estaduais à compra de papéis podres do Master; Ibaneis Rocha foi mais longe, destinou 12 bilhões do governo de Brasília para o esquema, afundando o BRB (banco público do Distrito Federal); Tarcísio deu o mesmo destino aos recursos obtidos pela privatização das empresas de saneamento e distribuição de água de São Paulo, que de imediato começaram a ver sua capacidade de operação se degradar; a mesma coisa no Amapá controlado por Alcolumbre. 

 

O Master passa a ser o centro de diversos esquemas de corrupção, um manancial de dinheiro roubado passava pelas mãos de Vorcaro, que organizava a sua distribuição e lavagem, e montou um esquema mafioso para sua administração e captação de novos recursos, organizando bacanais para seus clientes mais importantes em uma mansão em Trancoso, e mantendo uma tropa de sicários, sob o comando de seu pai, para casos em que a violência era necessária para ocultar suas atividades. O banqueiro tornou-se um potentado econômico, com os tentáculos de sua organização avançando sobre vários setores da sociedade, sempre em dobradinha com o senador Flávio Bolsonaro, o operador financeiro da familícia. O Master tornou-se a principal ferramenta para sustentar financeiramente a extrema direita, seja com doações milionárias para as campanhas eleitorais do PL (3 milhões para a de Tarcísio e 5 para a de Jair Bolsonaro), ou com formas indiretas de apoio, como a cessão de seu avião para Nikolas Ferreira fazer a campanha de Bolsonaro nas capitais nordestinas. Foi nesse contexto que surgiu o filme para contar a saga do mito dos idiotas. 

 

Ora, por que usar atores americanos e fazer o filme falado em inglês se ele foi rodado no Brasil, sem nem sequer providenciar o registro na ANCINE? O que parecia apenas mais uma demonstração de sabujice dos fascistas tupiniquins ao Tio Sam, na verdade tinha uma razão bem mais objetiva e pragmática, sua produção ocorreu ao mesmo tempo em que Eduardo Bolsonaro mudou-se para os EUA e começou uma campanha junto ao governo Trump para sancionar o Brasil, com o objetivo de asfixiar economicamente o governo Lula. Sem os mecanismos de controle estabelecidos pela Lei Rouanet, abriu-se uma porta para financiar as atividades antipatrióticas e a vida de luxo de Eduardo Bolsonaro nos EUA com a grana captada para a produção do filme. Tudo indica que a casa em que o ex-deputado vive em Arlington, no Texas, foi comprada por 800 mil dólares por Vorcaro, que certamente também bancou o passeio a Dubai para surfar na piscina de ondas artificiais, a presença constante em rodeios, e as viagens até Washington para conspirar com Marco Rúbio contra o Brasil.  

 

Claro que o banqueiro sabia que as vultosas somas que enviava para a produção mambembe, com roteiro do canastrão Mario Frias, que deixava os figurantes passando fome no set de filmagem, coisa típica de produção classe Z, iam em grande parte para a familícia. Quando destinou os últimos 61 milhões para o filme, e sabe-se lá o quanto desembolsou antes disso, Vorcaro já estava com a PF em seus calcanhares, e o pedido desesperado de Flávio Bolsonaro ao banqueiro, a quem tratava como irmão, já dava indícios que o senador sabia que seria a última remessa. Tudo o que já foi descoberto deixou bem claro que a produção do filme não era apenas uma peça de propaganda para enaltecer o chefe da quadrilha, mas uma engenhosa forma de lavar nos EUA o dinheiro roubado no Brasil. Muita ousadia da organização criminosa, pois, por mais que confiem que o governo Trump vai lhes dar guarida, trata-se de um crime grave nos EUA, com penas pesadíssimas, que o diga o Al Capone. E o esquema montado por Paulo Calixto na Havengade  development fund para o repasse da grana é frágil e pode ser facilmente rastreado.  

 

A divulgação pelo Intercept do áudio do senador cobrando o repasse financeiro do banqueiro caiu como uma bomba atômica nos arraiais da extrema direita, que vinha tentando se desvencilhar do caso, fazendo de tudo para encontrar meios de associar o escândalo ao PT. Flávio Bolsonaro a princípio dizia não conhecer Vorcaro, depois assumiu a existência de uma ligação tênue, com aliados atribuindo a intimidade demonstrada pelo senador com o banqueiro na conversa a um jeito carioca de falar. Eu sou carioca da gema e nos círculos em que transito em minha cidade não se usa o linguajar, tipicamente mafioso, adotado por Flávio para cobrar o dinheiro do comparsa. A bancada fascista, que costuma avacalhar as sessões do nosso parlamento começou a abandonar o plenário bem antes dos debates começarem a esquentar. O Deputado Mário Frias, enrolado até o pescoço na patranha, fugiu às pressas do país. Flávio Bolsonaro entrou em parafuso, apresentando uma versão diferente atrás da outra, apenas para ser seguidamente desmentido pela revelação de novos fatos. Teve que ir buscar com o papai a chancela para manter sua candidatura, enfrentar protestos públicos no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, passou por uma reunião na Faria Lima em que amargou uma esculhambação da banca. 

 

O estrago foi enorme, e vai se delineando que a principal argumentação que arranjaram para defender o indefensável é sustentar a afirmação de que não há dinheiro público envolvido no negócio. Outra mentira grossa! A produção contou com recursos de emendas parlamentares do próprio Mario Frias, Bia Kicis, Carla Zambelli e outras fontes ainda mais obscuras, já que a dona da produtora do filme tem também uma ONG evangélica agraciada com um contrato milionário pela prefeitura de São Paulo, em uma licitação para lá de suspeita. Eduardo Bolsonaro postou vídeos em que exaltado jurava de pés juntos que não tinha nada a ver com o filme, logo depois surgiu um contrato em que seu nome aparece como produtor executivo. O escândalo parece areia movediça para os envolvidos, quanto mais esperneiam mais afundam. Tarcísio, visivelmente constrangido, partiu para passar o pano, certamente preocupado com o seu próprio rabo preso no esquema. Zema, logo após a divulgação do áudio, encenou uma tímida reprimenda ao senador, ao qual perdoou logo após Jair Bolsonaro ratificar a candidatura do filho. O imbroglio pode inclusive levar o Ministro André Mendonça a seguir os passos de Toffoli e abandonar o caso, por sua notória vinculação com Bolsonaro, de quem foi ministro da justiça e deve sua indicação ao tribunal. Pesquisas eleitorais divulgadas após a divulgação do áudio revelador, apontaram uma queda significativa no apoio a candidatura de Flávio, cujo enfraquecimento estimulou a apresentação de novos postulantes ao cargo, como o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. 

 

O auge da impostura foi o momento patético em que Flávio e Eduardo (acompanhado de seu cambono neto de ditador) foram até a Casa Branca prestar vassalagem ao Trump, traindo miseravelmente a pátria brasileira ao abrir o caminho para uma intervenção dos EUA em nossos assuntos internos. Em condições normais de temperatura e pressão, essa traição e o mar de lama em que estão cada vez mais atolados destruiria qualquer campanha eleitoral. Entretanto, na minha avaliação, Flávio Bolsonaro tem tudo para se manter um candidato competitivo até a reta final. Muito embora uma parte um pouco mais civilizada da direita tenda a largar a mão do bolsonarismo, sua base de apoio raiz é fiel e resiliente, composta por pessoas com a mente capturada de tal forma pela propaganda fascista, que ante a exposição das falcatruas de seus líderes vão sempre sacar aquela resposta padrão: e o Lula? E o PT? A Faria Lima pode ter ficado decepcionada com as ligações de Flávio com Vorcaro, que estava longe de ter o respeito de seus pares, mas vai com o bolsonarismo até o final, pois o pavor da continuidade de um governo que lhes tire algumas migalhas para destinar ao povão, os leva a apoiar qualquer escroque, desde que tenha um compromisso com políticas neoliberais antipopulares. 

  

A candidatura de Flávio está seriamente abalada, mas não foi ferida de morte, caso os crimes comprovados não resultem em sua prisão ele leva a campanha até o fim, pois para o Bolsonarismo mais importante que ganhar a eleição de lula é manter o comando do espectro político de direita, que seria perdido com o surgimento de uma nova liderança fora do clã familiar. Para os caciques do PL e os membros de sua nominata de candidatos ao legislativo, mais importante que derrotar Lula é a manutenção de uma candidatura que preserve suas posições junto ao eleitorado fiel até o pleito. Muita água há de rolar embaixo da ponte até novembro, há inclusive a possibilidade de que Trump volte a atacar o Irã, cuja retaliação pode desencadear uma recessão global, com consequências econômicas capazes de influenciar decisivamente nos humores do eleitorado. Mas minha visão é que o quadro já está consolidado, e Flávio rachadinha terá fôlego para levar sua candidatura até outubro.  

 

A minha única dúvida é de saber qual será o destino da abençoada. Karina Ferreira da Gama, a laranja usada pela ORCRIM nesse esquema, é um fenômeno. Moradora na comunidade da Brasilândia em São Paulo, postulante a uma casa subsidiada pela prefeitura, uma pessoa de poucos recursos que vivenciou um milagre, foi agraciada pelo Senhor! Sem nunca ter atuado na área, sua ONG evangélica firmou com a prefeitura de São Paulo o maior contrato da América Latina para a implantação de pontos de WI-FI (inicialmente 108 milhões de reais, chegando a abiscoitar mais de 150). Sem nenhuma experiência na área cinematográfica, recebeu vultosas somas em sua empresa (Go Up), para produzir a película de maior investimento na história do cinema nacional. Eu realmente estou muito curioso em saber o destino da moça. Será aquinhoada pela fortuna e terá vida longa como o Queiroz, que anda por aí, lépido e fagueiro, autoridade no município fluminense de Saquarema? Ou fenecerá fuzilada com trocentos tiros como Adriano da Nóbrega, ou mesmo suicidada como o sicário de Vorcário, que se enforcou com a própria camisa enquanto estava sob a guarda dos federais de extrema confiança de André Mendonça?  


*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 



 
 
 

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