Entre a transgressão da imprensa alegre e o despertar do homoerotismo nas margens da Primeira República


Por Elen Genuncio
A imprensa periódica do final do século XIX e início do século XX no Brasil frequentemente oscilou entre a imposição de rígidos padrões morais e o flerte ousado com a transgressão. É exatamente nesse terreno pantanoso, onde a moralidade burguesa encontrava o submundo da boemia e do erotismo, que se assentam as análises históricas sobre o jornal pornográfico O Rio Nu (1898-1916), investigado por Johnatas dos Santos Costa, e os desdobramentos literários marginais abordados por Valmir Costa no estudo sobre O Menino do Gouveia (1914). Reunidas, essas produções historiográficas oferecem um panorama fascinante e contraditório da sociedade brasileira durante a Belle Époque e a Primeira República.
A farsa do moralismo e o choque da transgressão
Lançado em maio de 1898 — de forma emblemática no mesmo 13 de maio que comemorava a primeira década da Lei da Abolição —, O Rio Nu propunha-se a levar o riso e a leveza aos leitores por meio de um humor malicioso, estampando mulheres seminuas em suas capas e contos eróticos em suas páginas. O periódico transformou-se em um fenômeno editorial, mas essa ousadia custou caro. A célebre perseguição movida pelo diretor-geral dos Correios, Joaquim Ignácio Tosta, em 1910 — apoiada por setores católicos e inspirada por congressos antipornográficos internacionais —, tentou sufocar a circulação do jornal, gerando uma longa batalha jurídica que culminou em uma vitória histórica do periódico no Supremo Tribunal Federal em 1912.
Contudo, como aponta Johnatas dos Santos Costa, a transgressão d'O Rio Nu era ambígua. Ao mesmo tempo em que desafiava a censura institucional e afrontava o moralismo conservador, o jornal operava como um implacável reprodutor de preconceitos socioculturais da época. As narrativas publicadas reforçavam hierarquias de gênero violentas — naturalizando a ideia de que a mulher seria essencialmente frágil ou submissa aos desejos da carne — e impunham uma estética do desejo profundamente eurocêntrica e excludente, que colocava a mulher branca no centro absoluto da atenção e apagava os corpos negros.

Das páginas alegres ao primeiro conto homoerótico: O caso de Bembem
Se a heteronormatividade nos contos de O Rio Nu já revelava as amarras morais da sociedade da época, a expansão desse ecossistema de publicações baratas e "romances para homens" abriu brechas ainda mais profundas nas margens da literatura nacional. É o que demonstra o pesquisador Valmir Costa na obra O Menino do Gouveia: A história real que inspirou o primeiro conto homoerótico brasileiro de 1914.
Ao resgatar os bastidores do célebre conto homoerótico publicado em meio a essa literatura ‘marginal’ de 1914, Valmir Costa joga luz sobre o submundo da subcultura e do desejo entre homens na Primeira República. O estudo evidencia como a história de Bembem tensionou e subverteu de maneira radical os limites de uma sociedade pautada pelo patriarcado estrito e pela homofobia institucionalizada. Enquanto os jornais alegres utilizavam o erotismo heterossexual como válvula de escape regulada, o surgimento de narrativas explicitamente homoeróticas escancarou dissidências sexuais que a historiografia oficial por muito tempo tentou varrer para debaixo do tapete.
Refletir criticamente sobre essas pesquisas é compreender que a imprensa e a literatura da Primeira República não foram blocos monolíticos. Elas constituíram um campo de batalha simbólico. O Rio Nu e as ‘coleções populares marginais’ foram, simultaneamente, instrumentos de ruptura contra o moralismo de Estado e veículos de manutenção de velhas opressões de gênero, raça e classe.
Para os leitores que desejam aprofundar-se nessa arqueologia dos prazeres, dos tabus e das dissidências da nossa literatura, a pesquisa fundamental de Valmir Costa encontra-se publicada e disponível para aquisição no site O Sexo da Palavra. Trata-se de um convite indispensável para entender que a história dos costumes no Brasil é, acima de tudo, uma crônica de incessantes disputas entre o que a norma tentava proibir e o que a transgressão ousava revelar.

Fontes de referência:
COSTA, Johnatas dos Santos. Entre a norma e a transgressão: Uma história do jornal pornográfico O Rio Nu (1898-1916). Aedos, Porto Alegre, v. 13, n. 28, out. 2021.
COSTA, Valmir. O Menino do Gouveia: A história real que inspirou o primeiro conto homoerótico brasileiro de 1914. Disponível em: O Sexo da Palavra.





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