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Entre o samba e o soul, nova geração resgata a força da black music no pagode

  • Foto do escritor: Pimenta Rosa
    Pimenta Rosa
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Aos 24 anos, cantor de São Gonçalo viraliza com versão de clássico do Jackson 5 e vive momentos ao lado de Thiaguinho e Péricles



Aos 24 anos, Coimbra vem transformando referências da black music em identidade própria no pagode. Nascido e criado em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, o cantor ganhou projeção nas redes sociais ao interpretar “I’ll Be There”, clássico do Jackson 5, em uma versão que une a força do soul à batucada do pagode. O sucesso do vídeo coloca o artista no radar de uma nova geração que revisita as raízes negras do gênero e, ao mesmo tempo, amplia suas possibilidades.


A escolha de “I’ll Be There” revela mais do que uma estratégia musical. É parte da formação artística de Coimbra, que cresceu ouvindo referências da música negra e encontrou na mistura entre soul, R&B e samba uma maneira de expressar sua própria identidade. A aproximação com essa sonoridade também dialoga com a história do pagode brasileiro, especialmente com a produção dos anos 1990, quando grupos como Raça Negra, Negritude Júnior, Só Pra Contrariar, Katinguelê e Soweto ajudaram a consolidar o gênero incorporando diferentes elementos da cultura negra.


Três décadas depois, a conexão entre pagode e black music volta a ocupar espaço. O movimento também aparece em trabalhos de grandes nomes do gênero. Thiaguinho lançou o álbum “Bem Black”, enquanto Péricles está confirmado no Rock in Rio deste ano com um espetáculo dedicado aos clássicos da Motown.


É nesse cenário que Coimbra começa a construir seu caminho. E a trajetória tem um componente simbólico: dois artistas que fizeram parte de sua formação musical e pessoal, Thiaguinho e Péricles, hoje também fazem parte de sua história profissional. O cantor já teve a oportunidade de dividir o palco com os dois.


Para Coimbra, a experiência tem um significado que ultrapassa a realização de um sonho. Na infância, Thiaguinho era uma referência de representatividade. Ver um homem negro ocupando um espaço de destaque na música brasileira fazia com que o menino também conseguisse imaginar possibilidades para si.


Anos depois, estar próximo de artistas que ajudaram a formar sua identidade representa emoção, mas também responsabilidade. A inspiração que antes vinha de longe agora se transforma em encontros e experiências concretas no palco.


Do pagode escondido ao primeiro palco

A relação com a música começou cedo, mas não de maneira convencional. Coimbra cresceu em uma família religiosa e descobriu o pagode principalmente por influência do pai. A mãe, evangélica, via o gênero de outra maneira.


“Eu ouvia pagode escondido dentro do banheiro, porque durante muito tempo aquilo me foi apresentado como pecado”, conta.

A música, entretanto, permaneceu presente. Durante a pandemia, Coimbra cursava Enfermagem e chegou a concluir uma formação técnica na área. O projeto profissional ainda estava ligado à saúde, enquanto a música ocupava um espaço cada vez maior em sua vida.


A virada aconteceu depois da morte de uma tia muito próxima. No último Natal que passaram juntos, ela deixou uma frase que Coimbra jamais esqueceu: “Filho, a sua voz vai ecoar pelos cantos da Terra”.


Aquelas palavras se transformaram em um ponto de partida. Coimbra passou a estudar canto e instrumentos e decidiu transformar uma paixão em profissão.


O primeiro show surgiu pouco tempo depois, a partir do convite de uma amiga para uma festa de arraiá. Em menos de quatro semanas, ele reuniu músicos, montou uma banda e subiu ao palco pela primeira vez.


“Foi ali que eu entendi que era isso que eu queria. O palco era o lugar que me mantinha vivo”, lembra.


Uma geração que não escolhe entre referências

A história de Coimbra acompanha uma transformação mais ampla na música brasileira. Se o pagode dos anos 1990 já dialogava com diferentes vertentes da música negra, a nova geração parece ainda menos disposta a estabelecer fronteiras rígidas entre gêneros.


Soul, R&B, samba e pagode podem coexistir na mesma música. Para Coimbra, essa liberdade não significa abandonar as raízes, mas justamente reconhecer a diversidade que sempre fez parte da construção da música negra brasileira.


Sua própria identidade também atravessa esse processo. Homem preto, gay, casado e ligado às religiões de matriz africana, Coimbra encontrou na música um espaço para transformar vivências pessoais em representação.


“Quando eu consegui me reconhecer, a barreira entre o artista e quem estava do outro lado caiu”, afirma.

A identificação com o público, portanto, não acontece apenas por meio da música. Ela também nasce da possibilidade de ocupar espaços que, durante muito tempo, pareceram distantes para pessoas negras e LGBTQIA+.


Construir, e não apenas chegar

Ainda no início da carreira, Coimbra sabe que os momentos ao lado de grandes nomes do pagode e a repercussão nas redes sociais são apenas capítulos iniciais de uma trajetória que pretende ser longa.


Mais do que alcançar a fama, o cantor afirma querer construir uma carreira coerente com sua história e suas referências.


“Eu não quero apenas chegar. Quero construir. Quero olhar para trás e saber que cada passo foi dado com verdade, respeito e amor, sem esquecer de onde eu vim.”

Entre a batucada do pagode, a sofisticação do soul e as referências que atravessam gerações da música negra, Coimbra começa a escrever sua própria história. Uma história que nasce em São Gonçalo, passa pelos grandes palcos do pagode e encontra nas redes sociais uma nova ponte com o público.


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