FAMÍLIA CONSERVADORA ENLATADA SERVIDA NO SURUBÃO DO VORCARO
- Eduardo Papa*

- há 2 dias
- 6 min de leitura

*Eduardo Papa
Dois assuntos chamaram minha atenção nesse carnaval, o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, na Marquês de Sapucaí, e a divulgação das orgias sexuais proporcionadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro às autoridades que o financista desejava obsequiar. A reação pública ao desfile carnavalesco no Rio de Janeiro, especialmente a dos líderes evangélicos de direita, e a divulgação da faceta de proxeneta do banqueiro queridinho dos governadores bolsonaristas, formam juntas um cenário perfeito para explicitar a hipocrisia da extrema direita, que ganha cada vez mais espaço no mundo do pensamento liberal.
O carnavalesco da escola foi genial, e a comunidade do Morro do Estado fez um desfile magnífico, que foi de longe o mais comentado dos que passaram na avenida esse ano, e só não teve melhor sorte pela má vontade dos bicheiros que comandam a LIESA, resistentes em aceitar o enredo apresentado. Comprovando a tese de Gilles Deleuze de que o poder precisa de corpos tristes, a reação dos fascistas irada ao desfile da escola de Niterói não acabou com o carnaval, um pastor dessas igrejas levantadas chegou a desejar o câncer para seus componentes, a senadora Damares, Michele, Carluxo e o primeiro time do bolsonarismo foi à loucura. E observem bem, não foi a exaltação ao Lula o que mais doeu, mas sim a exposição, brilhante há que ressaltar, do ridículo trágico do governo Bolsonaro, e da vergonha mundial que os “patriotarios” passaram. Foi muito duro para a turma, em especial uma fantasia, extremamente criativa, que retratava a família conservadora presa em uma lata de conserva. Aí a galera pirou de vez! O relicário mais precioso da propaganda fascista achicalhado publicamente!
A reação dos políticos de direita foi histriônica, parlamentares como o niteroiense Carlos Jordy, que pagava com verba de gabinete o Uber para ir à casa das primas, berram e babam de ódio contra a comunidade do Morro do Estado (que fica perto do prostíbulo frequentado pelo deputado defensor da moral e dos bons costumes). Tudo bem, na linha do faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, princípio que norteia a ação dos políticos conservadores, como o senador Magno Malta, que profere inflamados discursos criminalizando os usuários de drogas, para depois aparecer em sessões do Congresso Nacional trôpego e visivelmente embriagado. Exemplos patéticos da hipocrisia que caracteriza o fascismo tupiniquim, que encontrou sua mais cristalina expressão nos embalos promovidos pelo banco Master em Trancoso na Bahia.
Nove entre dez políticos reacionários partiram indignados para atacar o desfile da escola niteroiense, em defesas inflamadas da família tradicional e da religiosidade. Não duvido que muitos deles, após instilarem seu falso moralismo, tomaram conhecimento do vazamento do Cine Trancoso e começaram a fazer consultas com advogados especialistas em casos de divórcio. Acaso acham que nós aqui também não temos escândalos sexuais envolvendo políticos? As orgias promovidas por Daniel Vorcaro são o nosso caso Epstein, menos gravoso, porque até onde se sabe não envolvia pedofilia, mas na essência é a mesma coisa: a oferta de favores sexuais a pessoas poderosas com o objetivo de obter vantagens. Assim como Jeffrey Epstein, Vorcaro também gravava as libertinagens das autoridades, que deixavam os celulares na porta para garantir o sigilo, sem saber que o anfitrião usava o sistema de câmeras da mansão para obter registros comprometedores, e a prova de que eram para ser usados para chantagem é que imagens do Cine Trancoso foram encontradas no celular do banqueiro.
O esquema era altamente profissional, altas autoridades dos três poderes da república eram convidadas a participar de festas em uma mansão de 36 milhões de reais na paradisíaca praia de Trancoso, bem longe dos holofotes de Brasília e das grandes capitais. Eventos de altíssimo luxo, com tudo o que de melhor o dinheiro pode comprar, inclusive a carne humana. Jatinhos chegavam direto da Europa trazendo garotas de programa holandesas, escandinavas e do leste europeu, quem sabe algumas ucranianas empobrecidas pela guerra, que os asqueroso Mamãe Falei pretendia assediar. A estratégia era brilhante, além de atender ao fetiche de alguns, as meninas não falam português, e depois do programa não vão ver o cliente na TV, efeito indesejável ao se contratar mão de obra local. E o banqueiro rufião não fazia economia, eram quatro para cada convidado. O babado era fortíssimo e chegava a incomodar os vizinhos magnatas, a proprietária do imóvel (antes de vender a casa para Vorcaro), reclamava com o corretor que as orgias eram tão intensas que deixavam prejuízos materiais e uma imagem ruim na vizinhança.
E agora? Será que podemos comprar a pipoca para acompanhar os filmes picantes do Cine Trancoso? Ou será que os impolutos pais de famílias tradicionais vão conseguir abafar o assunto? O Tribunal de Contas da União já colocou a pizza no forno, dizendo que orgia é assunto privado e ninguém tem nada com isso, mas não é tão simples assim. Estamos em ano de eleições, enquanto os buliçosos convivas do Cine Trancoso que irão se submeter ao escrutínio do voto farão de tudo para ocultar sua participação, seus concorrentes vão trabalhar em sentido inverso. A Polícia Federal vive uma feroz disputa interna, com os lavajatistas, que escanteados desde a queda de Moro, vendo no caso Master uma oportunidade de reconquistar relevância. A prática de espionagem, vazamento de dados e chantagem, parece que voltou a todo vapor. Daniel Vorcaro está acuado, com robustas provas contra ele, e uma delação premiada é uma possibilidade real, na qual as informações sobre o que se tratava nas orgias, ou após as mesmas, podem ser o grande trunfo do banqueiro. Interesses poderosíssimos estão em jogo, caciques políticos de alto coturno, financistas bilionários da Faria Lima, juízes de cortes diversas instâncias, vivem momentos de forte sobressalto. E tudo depende do relator do processo.
André Mendonça, o ministro terrivelmente evangélico indicado por Bolsonaro, assumiu o caso, após o rumoroso afastamento de Dias Toffoli. Muitos analistas observam que há uma grande proximidade do Ministro com um dos principais envolvidos no caso, através da Igreja da Lagoinha, e que governadores bolsonaristas têm grande interesse em abafar o caso. Pode ser, pois de cabeça de juiz e bunda de neném ninguém sabe o que vem, mas eu trago aqui duas reflexões a considerar. Em primeiro lugar, ministro do STF é uma deidade dentro da institucionalidade brasileira, um ser praticamente inatingível, que ao assumir o posto está automaticamente desobrigado de qualquer compromisso anterior, que o diga o PT, que sofreu o pão que o diabo amassou pela ação de ministros que seus governos indicaram. Portanto, os que respiraram achando que com a mudança de relatoria seria um refresco, podem estar enganados, e as primeiras medidas do ministro não lhes são lá muito auspiciosas.
O segundo fator que chamo o leitor a observar é a posição do ministro relator entre seus pares. Mendonça é pato novo, tem que comer muito feijão para alcançar o patamar de um Gilmar Mendes ou Alexandre de Moraes, mesmo o também novato Flávio Dino, que veio trazendo uma bagagem mais rica, tem outra estatura no tribunal. A prova que a bolinha do ministro é baixa é que seu instituto ITER, administrado por sua esposa, entre 2024 e 2025, faturou míseros R$ 4,8 milhões em contratos com entes públicos, uma ninharia perto do sucesso financeiro que ostentam alguns de seus colegas. Mendonça é um ministro que vem do baixo clero e tem que mostrar o seu valor para conquistar o seu espaço entre os grandes. A relatoria desse caso, mais até que a do caso do INSS, é a sua grande oportunidade para se firmar como um nome de peso no tribunal, e desvencilhar-se da incômoda associação com o bolsonarismo.
O certo é que em breve saberemos como será o encaminhamento, pois esse não é o tipo de processo que dá para sentar em cima e ficar procrastinando, interesses de forças políticas e agentes econômicos muito poderosos estão jogo. E tudo isso na ribalta de um ano eleitoral, cujo calendário segue inexorável, e coloca as convenções partidárias, quando são firmadas as alianças e apresentados os candidatos, coincidindo com a apuração de um inquérito tão sensível. Na minha opinião, a única coisa que tranquilizaria a turma do baile da cueca era se ministro terrivelmente evangélico tivesse participado das sessões do Cine Trancoso, eu da minha parte duvido que tenha sido convidado, pelo mesmo motivo que a turma do Epstein nunca convidou o Elon Musk, que era considerado bobo demais para natureza dos embalos que faziam.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




Comentários