Obrigado Aiatolá!
- Eduardo Papa*

- há 1 dia
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*Eduardo Papa
Como servidor inativo do Estado do Rio de Janeiro, aproveito esse espaço para agradecer penhoradamente aos líderes da República Islâmica do Irã e ao valente povo do país pelo fechamento do Estreito de Ormuz, em meu nome e de todos os meus colegas beneficiados pela vitória do Irã na guerra. Explico: a elevação do preço dos hidrocarbonetos gerou um substancial acréscimo no valor dos royalties do petróleo que cabem ao Rio, o que afastou o perigo de ficarmos sem receber nossos proventos. Allah Akbar!
É claro que de nada adiantaria se a quadrilha de Bolsonaro e Cláudio Castro continuasse no Palácio Guanabara, certamente iriam arranjar um meio de roubar tudo, como fizeram com os “empregos secretos” da CEPERJ e UERJ, usados para desviar a receita da venda da CEDAE para a campanha de reeleição de Castro. Felizmente vivemos um raro momento em que cariocas e fluminenses não são governados por bandidos, não que o eleitorado local tenha algo a ver com isso, estão inclusive a caminho de reconduzir os milicianos ao domínio da máquina pública. Para quem não é daqui, ou sendo é tolo o bastante para passar alheio ao que vivemos, cabe uma breve explicação do que aconteceu recentemente na política fluminense.
Depois do golpe militar de 1964, a extrema direita fez a festa na antiga capital do país. Carlos Lacerda, no governo do Estado da Guanabara, ofereceu a ditadura um laboratório de implantação de políticas antipopulares para replicar em todo o país. Remover os miseráveis do cenário das metrópoles, os empurrando para periferias. E, até mesmo, eliminando os indesejáveis, como a Secretária de Assistência Social, Sandra Cavalcânti, enfrentava o problema da população de rua, afogando os pedintes recolhidos na cidade no Rio Guandu.
O desgaste e a queda do regime militar seguiram no Rio de Janeiro um caminho diferente que no resto do país. Enquanto o fim do poder dos militares foi na essência gradual, com governadores do espectro conservador dialogando com José Sarney no governo federal, aqui elegemos Leonel Brizola. Os governos de Brizola e Darcy Ribeiro, especialmente no primeiro mandato, foram decisivos para a formação do quadro político a que chegamos. Sabemos que o aparelho da repressão da guerra suja reciclou-se nos esquadrões da morte dentro dos aparelhos policiais, e em atividades ilícitas, notadamente a contravenção ligada ao jogo do bicho. A política radical de Brizola em defesa dos direitos humanos, e de políticas sociais voltadas para o progresso e justiça social, gerou uma oposição reacionária violenta. Começaram a surgir nichos dentro das casas legislativas dominados por esquemas criminosos. Era o surgimento da nossa máfia, com a liderança política sendo obtida por meios escusos e ilícitos, cristalizando o surgimento de uma espécie de feudalismo eleitoral, em que famílias controlam o eleitorado de regiões inteiras, ocupando cargos eletivos quase que de maneira hereditária.
Sufocado por sucessivos presidentes sabotando a economia do Rio e acuado pela Globo e toda a grande mídia em uma campanha de difamação avassaladora, o PDT de Brizola foi esmagado pelos novos coronéis da política fluminense, que acabou totalmente dominada por políticos comandados por milicianos. Os senhores feudais da política fluminense não só controlam a ALERJ, como fazem ampla maioria na bancada federal e no senado, elegem prefeitos e vereadores. Com todo esse apoio elegeram sucessivos governadores, que garantiram no Tribunal de Justiça e no Tribunal de Contas, nomeações para garantir o domínio do crime, como comprovou a vergonhosa absolvição de Cláudio Castro no TRE do Rio, pelo crime pelo qual o TSE o tornou inelegível. O esquema criminoso se tornou tão poderoso que chamou a atenção das facções criminosas, o Comando Vermelho chegou às culminâncias do poder com seu influente representante, o deputado TH jóias, de livre trânsito no governo Estadual.
O poder miliciano toma notável impulso com Bolsonaro no governo federal. Leva ao poder com a mesma facilidade com que derruba o desconhecido Wilson Witzel, reelege Castro e amplia sua bancada de apoio, conquistando um verdadeiro rolo compressor na ALERJ. A confiança no controle político era tanta que Castro sai do governo seis meses antes do fim do mandato, com a esperança de eleger-se senador, mesmo estando inelegível por sentença do TSE. Tudo estava preparado para uma eleição indireta para um novo governador, que certamente faria parte da turma. Entretanto deu ruim!
O arquiteto e condutor do processo, o todo poderoso presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, candidato a suceder seu grande parceiro Castro no Guanabara, foi preso, acusado de coordenar o braço político do Comando Vermelho, e deixou novamente o bolsonarismo sem candidato no Rio. Vamos lembrar que o preferido, ungido pelo próprio mito, hoje está foragido da justiça nos EUA por ter participado do golpe de estado, e, ao que tudo indica, prestando serviços à CIA. Na falta do operador, o rolo compressor emperrou a máquina, a eleição indireta foi questionada e acabou no plenário do STF, que pode levar o povo fluminense às urnas para eleger um governador para um mandato de seis meses, ou menos. E o pior para a quadrilha, o pedido de vista ao processo feito pelo Ministro Flávio Dino, tem o condão de prorrogar o mandato do Presidente do Tribunal de Justiça do Rio como governador.
O desembargador Ricardo couto assumiu o cargo com a orientação de Fachin para governar de fato, enquanto estiver na função, e quando o doutor sentou à mesa e abriu as gavetas viu os portões do inferno! Centenas de demônios pularam ocupando cargos comissionados, bem remunerados e sem prestar qualquer serviço para o contribuinte, até agora 638 já foram exonerados, seguramente uma baixa considerável na campanha dos governistas. Um contrato de 730 milhões, assinado por Castro em seu último dia de governo, foi suspenso e vai passar por auditoria. O governador Ricardo Couto promete um pente fino na administração estadual, o que certamente irá revelar coisas do arco da velha e comprometer muita gente graúda na política fluminense. E caso o STF decida pela eleição direta para o mandato tampão, fortes emoções vão sacudir o mundo político no Rio de Janeiro.
A sucessão estadual fluminense em 2026 prometia ser uma das mais monótonas do país, praticamente decidida ainda no primeiro turno com a vitória de Eduardo Paes, que depois de vários anos como prefeito do Rio, construiu um arco de alianças que vai do bolsonarismo ao PT, e ao que tudo indica vem se cacifando para se tornar o “cappo del tutti capi”do milicianato do Rio, unindo todos os potentados feudais da política local. Não vamos nos esquecer que um dos milicianos condenados como mandante do assassinato de Marielle era secretário de governo de Paes até poucos dias antes de ser preso, e a convivência do prefeito com a contravenção no Rio, obedece ao compasso do samba de longa data. Uma unanimidade entre a direita, Paes cooptou parte considerável da esquerda. Garantiu a aliança com o PT, que tem por tradição usar o Rio de Janeiro como moeda de troca em seus acordos nacionais, como pode nos comprovar o valoroso quadro político da esquerda fluminense, Vladimir Palmeira. Além do que hoje no Rio é controlado por uma súcia de arrivistas, do nipe de um Quáquá da vida.
Porém, caso haja uma eleição popular isolada para governador, três meses antes da eleição para o mandatário dos quatro anos subseqüentes, tudo muda. Uma campanha curta, com menos influência do poder econômico, com a discussão centrada nas grandes questões do estado e do país, e desenrolando-se ao mesmo tempo em que a podridão dos políticos que saíram do governo e tentam voltar, pode muito bem levar a vitória um candidato alternativo, até mesmo da esquerda mais radical. Temos aqui o Glauber Braga, que pode cumprir muito bem o papel, quem sabe? Tudo está muito nebuloso, mas nesse caso a névoa favorece o povo, pois aquilo que seria uma transição previsível, com a manutenção da essência do satus quo vigente, pode virar de ponta a cabeça uma situação política que parecia já definida. E o povo do Rio de Janeiro é useiro e vezeiro em proporcionar essas surpresas.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)





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