Ricardo Sales: "O Brasil desperdiça R$ 94,4 bilhões por ano ao excluir pessoas LGBTI+ do mercado de trabalho"
- Pimenta Rosa
- há 1 dia
- 6 min de leitura

A exclusão da população LGBTI+ do mercado de trabalho não representa apenas uma violação de direitos: ela também cobra um alto preço da economia brasileira. Um estudo inédito coordenado pelo Banco Mundial, em parceria com o Instituto Matizes, o Instituto +Diversidade e um consórcio de organizações e redes LGBTI+, revela que o país desperdiça cerca de R$ 94,4 bilhões por ano em razão das barreiras que impedem milhões de pessoas de acessar, permanecer e crescer no mercado formal. O levantamento mostra que esse montante seria suficiente para financiar políticas públicas estruturantes, como transporte coletivo gratuito, a ampliação da alimentação escolar e o fortalecimento de programas sociais. Em entrevista ao Pimenta Rosa, o fundador da Mais Diversidade e presidente do Instituto +Diversidade, Ricardo Sales, analisa os impactos econômicos da LGBTfobia, explica a metodologia da pesquisa e defende que a inclusão seja tratada como uma estratégia de desenvolvimento para o Brasil.
O estudo estima uma perda anual de R$ 94,4 bilhões causada pela exclusão de pessoas LGBTI+ do mercado de trabalho. Quais são os principais fatores que levam a esse prejuízo econômico e como esse cálculo foi realizado?
O principal achado da pesquisa é relativamente simples de entender: quando uma parcela da população encontra mais dificuldades para acessar, permanecer ou se desenvolver no mercado de trabalho, toda a economia perde. O que nós procuramos medir foi justamente o tamanho dessa perda.
Os R$ 94,4 bilhões anuais resultam da combinação de diferentes fatores. A pesquisa identificou taxas mais elevadas de desemprego, maior informalidade, maior inatividade econômica e diferenças salariais enfrentadas pela população LGBTI+. Quando somamos esses elementos, chegamos a uma perda equivalente a aproximadamente 0,8% do PIB brasileiro. E é importante destacar que estamos falando apenas do mercado de trabalho. Não estão incluídos nessa conta outros impactos da exclusão que também afetam a vida das pessoas e a economia.
Um aspecto que eu gosto de destacar é o cuidado metodológico que tivemos. Não queríamos fazer uma pesquisa que representasse apenas quem está conectado à internet ou quem vive nos grandes centros urbanos. Por isso, a pesquisa aconteceu em duas etapas. Na primeira, ouvimos 11.231 pessoas LGBTI+ em todo o país. Além da coleta online, equipes foram a campo para alcançar públicos que normalmente ficam fora dos levantamentos tradicionais. Estivemos em comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhas, assentamentos rurais, periferias urbanas, universidades, espaços de convivência e diferentes territórios do Brasil. Depois disso, realizamos 16 grupos focais em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belém. Todo esse processo foi acompanhado e validado por economistas do Banco Mundial.
O resultado é um dos maiores estudos já realizados sobre a relação entre cidadania LGBTI+ e desenvolvimento econômico. E o que os dados mostram é que o Brasil está desperdiçando talentos, qualificação e capacidade produtiva por causa de barreiras que não deveriam existir.
Os dados mostram que a inclusão da população LGBTI+ deixou de ser apenas uma pauta de direitos humanos para se tornar também uma questão de desenvolvimento econômico. Como convencer gestores públicos e empresários de que investir em diversidade gera retorno para toda a sociedade?
Eu costumo dizer que não precisamos escolher entre uma coisa e outra. Essa continua sendo uma pauta de direitos humanos. Continua sendo uma pauta de cidadania. Continua sendo uma pauta de igualdade de oportunidades. Mas a pesquisa mostra que ela também é uma pauta de desenvolvimento econômico.
Quando uma pessoa deixa de acessar uma vaga por preconceito, quando abandona uma busca por emprego porque já passou repetidas vezes por situações de discriminação ou quando recebe menos do que poderia receber apesar de ter qualificação semelhante, não é apenas ela que perde. A economia perde junto.
O estudo ajuda a reposicionar essa conversa. Durante muito tempo, o debate sobre diversidade foi tratado quase exclusivamente como uma questão identitária ou valorativa. O que os dados mostram agora é que existe também uma dimensão objetiva e econômica. O país cresce menos, arrecada menos e utiliza pior seus talentos quando mantém barreiras de inclusão. Por isso, a pergunta deixa de ser "por que falar sobre diversidade?" e passa a ser "quanto estamos deixando de ganhar quando não fazemos isso?".

A pesquisa aponta que o país deixa de arrecadar cerca de R$ 14,6 bilhões em impostos todos os anos. Que políticas públicas e iniciativas do setor privado poderiam reduzir esse impacto e promover maior inclusão no mercado de trabalho?
A pesquisa aponta uma perda fiscal próxima de R$ 15 bilhões por ano. Cerca de R$ 10 bilhões estão relacionados à informalidade e à menor arrecadação tributária e previdenciária. Outros R$ 4,8 bilhões estão associados a afastamentos e licenças médicas que também guardam relação com ambientes de trabalho marcados pela discriminação e pelo adoecimento. Uma das prioridades precisa ser melhorar a inclusão produtiva. Isso significa ampliar acesso à qualificação, fortalecer políticas de empregabilidade e reduzir barreiras de entrada e permanência no mercado formal. Também significa produzir mais dados para orientar decisões públicas e empresariais. É muito difícil construir políticas eficazes quando não conseguimos medir adequadamente o problema. Nas empresas, vejo espaço para avanços em recrutamento, promoção, desenvolvimento de lideranças e construção de ambientes mais inclusivos. Mas também penso que estamos entrando numa fase mais sofisticada da discussão. Não basta apenas medir representatividade. É preciso analisar como a inclusão impacta produtividade, retenção de talentos, inovação e desempenho organizacional.
E talvez a melhor maneira de compreender o tamanho desse desafio seja traduzir esses números para a realidade brasileira. Os R$ 94,4 bilhões desperdiçados todos os anos equivalem a cerca de 60% do orçamento anual do Bolsa Família, por exemplo. É um valor superior ao necessário para financiar sistemas de transporte público gratuito em todo o país, segundo estimativas frequentemente utilizadas pelos movimentos de mobilidade urbana. Portanto, estamos falando de recursos que poderiam estar financiando políticas públicas estruturantes e impulsionando o desenvolvimento econômico brasileiro.
Quais grupos dentro da população LGBTI+, como pessoas trans, travestis, não binárias e intersexo, enfrentam as maiores barreiras para acessar empregos formais e oportunidades de crescimento profissional?
Uma das conclusões mais importantes da pesquisa é que não existe uma experiência única dentro da população LGBTI+. As desigualdades se tornam muito mais profundas quando orientação sexual, identidade de gênero, raça e gênero se cruzam.
Os dados mostram que pessoas trans, travestis, não binárias e outros grupos historicamente mais vulnerabilizados enfrentam obstáculos significativamente maiores para acessar empregos formais e progredir profissionalmente. Mas a pesquisa também mostra algo importante: mesmo dentro dos grupos que costumam ter maior inserção econômica, as desigualdades permanecem. Por exemplo, um homem gay branco cisgênero recebe, em média, cerca de 6% menos do que pessoas que não pertencem à população LGBTI+ exercendo funções equivalentes. Já uma mulher lésbica ou uma mulher trans negra pode receber aproximadamente 14% menos na mesma condição. Também identificamos uma taxa de desemprego de 15,2% entre pessoas LGBTI+, muito acima dos 5,8% observados na população geral naquele período. Além disso, encontramos taxas mais elevadas de informalidade e de inatividade econômica. Nos grupos focais, ouvimos muitas histórias de pessoas que simplesmente desistiram de procurar emprego depois de sucessivas experiências de discriminação.
Outro dado que chama atenção é que até 60% das pessoas entrevistadas relataram conviver frequentemente com preconceito no ambiente de trabalho. E existe um paradoxo particularmente grave: a escolaridade média da população LGBTI+ é superior à média nacional, mas esse investimento em educação não se traduz proporcionalmente em melhores oportunidades e remunerações. Isso significa perda para as pessoas e para o país.
Na sua avaliação, quais medidas precisam ser adotadas com maior urgência para transformar os resultados do estudo em ações concretas que promovam igualdade de oportunidades e fortaleçam a economia brasileira?
Antes de falar das medidas concretas, eu acho importante contextualizar o momento que estamos vivendo. Existe uma percepção de que a agenda de diversidade e inclusão atravessa uma crise global. Eu particularmente vejo esse cenário de maneira um pouco diferente. O que estamos observando é muito mais um momento de transição do que uma crise propriamente dita. Nos Estados Unidos, por exemplo, algumas iniciativas sofreram recuos por fatores regulatórios, jurídicos e políticos. Mas a realidade é mais complexa do que frequentemente aparece no debate público. Existem empresas que desaceleraram suas ações, mas existem outras que mantiveram ou até aprofundaram seus investimentos. O cenário tem nuances e exige cuidado para evitar generalizações.
O que me parece evidente é que estamos saindo de uma fase em que diversidade era, muitas vezes, tratada prioritariamente como uma pauta reputacional e entrando numa fase em que ela precisa demonstrar resultados concretos. É um processo de amadurecimento. Como já comentamos em outras ocasiões, talvez este seja um momento de separar o joio do trigo. As iniciativas mais consistentes tendem a permanecer porque conseguem demonstrar impacto real sobre pessoas, cultura organizacional, produtividade e geração de valor. Por isso, as prioridades agora passam por ampliar a inclusão produtiva, fortalecer políticas de empregabilidade, investir em dados e evidências e criar mecanismos que reduzam as barreiras enfrentadas pelos grupos mais vulneráveis. Mas passam também por mudar a narrativa. A grande contribuição desta pesquisa é justamente acrescentar uma nova camada ao debate. Não estamos deixando de falar sobre direitos humanos. Continuamos falando sobre igualdade de oportunidades, dignidade e cidadania. Mas agora conseguimos falar também sobre crescimento econômico, produtividade, arrecadação e desenvolvimento. Em última análise, o Brasil não perde R$ 94,4 bilhões porque faltam talentos. O Brasil perde porque ainda existem barreiras que impedem milhões de pessoas de desenvolver plenamente esses talentos. E reduzir esse desperdício de potencial econômico talvez seja uma das agendas mais estratégicas que o país tem pela frente.

