É DIA DAS MÃES!
- Eduardo Papa*

- há 16 minutos
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*Eduardo Papa
Pode parecer fácil discorrer sobre o Dia das Mães. Afinal, trata-se de uma unanimidade, mãe é mãe. O que não é nada fácil é escapar da pieguice, imersa em platitudes desprovidas de qualquer conteúdo que possa estimular uma reflexão inteligente. Qual é? Vai levar papo cabeça no dia das mães? Para quem pensa assim: pega a visão, bobo és tu e não tua mãe! E se você a trata naquela vibe do “avental todo sujo de ovo” e foi hoje comer a comidinha gostosa que a velha faz, sem nem sequer lavar a louça no final, estás em infração grave! Ano que vem vá para a cozinha fazer alguma coisa que preste, se não ficar bom na primeira vez, tente no outro ano. E eu desejo que tenhas a oportunidade de tentar muitas e muitas vezes.
A primeira coisa para a qual chamo a atenção é para a violência e crueldade de como as principais mitologias fundadoras da cultura ocidental, a que nos agregamos, trataram a maternidade. No mito de fundação do antigo testamento a maternidade é uma punição, caso Eva não tivesse induzido Adão a consumirem o fruto proibido (o conhecimento), estariam até hoje, e ad eternum, vivendo no paraíso. Na mitologia grega, no mito da criação, a mãe Gaia (a terra) é estuprada seguidas vezes por Urano (o firmamento), que mata e devora os filhos que nascem. Será por acaso que os primeiros homens que escreveram esses mitos fundadores lançaram todo esse estigma contra a maternidade?
O “acaso” não existe. Essas culturas, onde surgiu a escrita, foram as que viveram a transição da estrutura social e familiar tribal, em que a definição da linhagem é materna, para as sociedades dos “pater famílias”. Nas sociedades primitivas o papel das mulheres era crucial. Em um grupo humano do paleolítico a perda de um grande número de homens jovens em um evento era algo muito grave, mas o grupo poderia se recuperar. Porém, perder um número significativo de fêmeas, capazes de conceber, comprometia a continuidade de sua existência. No neolítico tínhamos mais deusas que deuses e a fertilidade, tanto da terra quanto das mulheres, era o elemento central como imagem de sucesso e prosperidade de qualquer sociedade, e foi comumente divinizada. As primeiras imagens de divindades criadas por nossos ancestrais, que a nós chegaram, foram estátuas de matriarcas, de ancas largas e seios voluptuosos.
No cristianismo, Maria é a mãe do deus vivo, foi na única a acompanhar até o fim seu martírio na cruz, e não teve o devido reconhecimento pela Igreja, assim como Maria Madalena. Era uma santa de segunda grandeza, até a Alta Idade Média, quando o papado inflou seu culto para se contrapor as canções de gesta, em que nobres cantadores e menestréis valorizavam as mulheres, com um enfoque um tanto mais mundano. Na sociedade medieval, profundamente mística e religiosa, as mães são importantes elementos constitutivos. A preservação da linhagem paterna, que se consolidava como fio condutor para a transmissão da herdade entre as gerações, depende da fidelidade das esposas, e, para evitar dúvidas criaram a engenhosa solução do cinto da castidade.
Na sociedade brasileira, segundo Gilberto Freire, cunhã é a mãe índia da nação, e foi fundamental para o sucesso da colonização portuguesa no Pindorama. Portugal, com um ralinho de gente, jamais poderia colonizar um mundão como o Brasil sem a miscigenação. Como assinalou Darcy Ribeiro, as novas ferramentas de metal tão logo surgiram se tornaram indispensáveis, e os gentios nada tinham de maior valor para trocar com os europeus além de suas filhas, e assim povoou-se a colônia. A França Antártica fracassou pelo sectarismo de seus líderes, que vedavam a seus crentes a injunção carnal com os nativos, enquanto o apreço dos lusos pela carne mais escura garantiu a prosperidade da colonização portuguesa.
Quando a carne preta escravizada começou a chegar em grande número no Brasil, e a economia escravista estruturou-se como dominante na lavoura e na mineração, a maternidade passou por uma bifurcação. Enquanto na casta brancarana de proprietários regras severas e restritivas controlavam a maternidade, em função da preservação da propriedade. Pelo mesmo motivo, entre a massa trabalhadora escravizada a procriação era estimulada, incrementando os cabedais dos proprietários (hoje nossos assessores de investimento chamariam de ativos). Ora vejam que idiossincrasia: herdamos uma licenciosidade com objetivo natalista entre os miseráveis, e uma repressão sexual rigorosa para as mães nas classes de proprietários, enquanto seus filhos pais e maridos se esbaldam em uma orgia quase institucional.
Com a imigração européia do final do séc. XIX até meados do séc. XX, chegaram as nonas e as babuskas. Um novo ingrediente nesse caldeirão foi acrescentado, a experiência familiar dos pobres europeus. Italianos, polacos, alemães poderiam gerar uma importação de valores para influenciar a população em geral a se aproximar à civilização européia, essa era a idéia. Qual nada! Os carcamanos e os polacos viraram uma bugrada só. Ainda que alguns tentem cultuar os valores de uma terra que escorraçou seus antepassados, o Brasil é um sorvedouro gigantesco, que absorve as mais variadas culturas, imprimindo o seu jeito e interpretação própria, mostrando, generosamente aos pobres coitados que não são daqui, como a banda toca em nosso canto do mundo.
No Brasil mãe é coisa séria, que se for ofendida dá briga de facada. Mesmo o mais empedernido e celerado malfeitor, em frente a mãe pede benção e demonstra contrito respeito. E não é sem razão, desde a cunhã do séc. XVI, até a trabalhadora migrante do séc. XX, como D. Lindu a mãe do nosso presidente, que as mães do Brasil são o alicerce da nossa sociedade, pelo menos do que presta nela. Não é por outro motivo que os cadastros para inscrição em benefícios sociais, destinam a contas controladas pelas mães os subsídios estatais, expondo na prática a hipocrisia da estrutura patriarcal. Para que os recursos cheguem até as crianças, o caminho são as mães, se deixar com os pais é capaz de parte ir parar nos cofres das bets, ou coisa pior.
Por tudo isso, você que ainda tem mãe viva aproveite a data para honrá-la e usufruir do mais limpo e desinteressado afeto que conhecemos, o amor materno. A mim o destino concedeu o privilégio de poder cuidar da minha mãezinha em sua velhice. Dona Victória Theresa que, aos 95 anos, lúcida e orientada, acompanha o que acontece no mundo como minha leitora número um. Está agora aqui ao meu lado, como todas as semanas, curtindo meu artigo antes mesmo que o envie a redação, e mandando um abraço a todas as colegas leitoras do Pimenta Rosa.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)





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