A FORÇA DO POVO - Uma ópera brasileira

*Eduardo Papa
ATO 1
Os estudantes: a banda de música da revolução.

No dia 5 de outubro a nação brasileira amanheceu letárgica, em um torpor paralisante após a vitória, por dois milhões de votos, do candidato fascista apoiado pelo imperialismo ianque. A possibilidade da confirmação do desastre no segundo turno da eleição gerou uma espécie de depressão cívica em todo o país, parecia que tudo estava perdido e o desastre tinha data para ser consumado, no fim do mês. Eis que na cidade de Niterói, no bairro do Ingá, na Faculdade de Direito da UFF, os estudantes, apavorados com a possibilidade do retrocesso político e social que vislumbravam pela frente, resolveram fazer a única coisa que estava ao seu alcance, fizeram cartazes de protesto e saíram às ruas, logo conseguiram a adesão de alunos do resto da universidade e de secundaristas da cidade e arrastaram uma multidão pelas ruas.
Só o fato de o movimento ter iniciado na escola de direito já é um indicativo importante das mudanças que o Brasil viveu com o fim da ditadura. Quando participava do movimento estudantil na UFF, no final dos anos 70, a faculdade de direito era um bastião da direita, dava até medo, cheia de policiais estudando para tentar alcançar o grau de delegado, e totalmente refratária as propostas do movimento. Pois foi dela que saiu o movimento que levantou a juventude brasileira, quatro dias depois a Universidade Federal de Pernambuco, sob ataque violento de fascistas, reage e bota o bloco na rua. As lideranças das entidades estudantis do país convocam sua base para atos no Brasil inteiro, inicialmente dando ênfase as pautas sobre a educação. O movimento nas ruas cresce de maneira exponencial, e logo milhões de brasileiros desfilam em cidades de todo o país, assumindo uma pauta antifascista, rejeitando a volta do bolsonarismo ao poder. Mesmo sem uma direção política estabelecida, uma maré humana inundou as cidades brasileiras, sem chefes, mas com objetivos claros, com alegria e sem violência, mas firme e resoluta.
ATO 2
A cultura brasileira assume a causa.

Enxovalhados e perseguidos nos tenebrosos anos do governo Bolsonaro, artistas e intelectuais do país aderem ativamente ao movimento. Não apenas aquela velha guarda, que amamos e sabemos que sempre estará com o povo, Caetano, Gil, Chico e tantos outros, que saíram logo de cara reunindo a massa em Copacabana, mas todo mundo que tem relevância na arte e cultura no Brasil aderiu. O mundo do samba entrou de cabeça, do Zeca Pagodinho ao Neguinho da Beija Flor, seus maiores ícones e as principais agremiações carnavalescas, compareceram e abrilhantaram as manifestações. Do Axé nem se fala, os Trios Elétricos da Bahia e de todo o nordeste largaram o som, Daniela Mercury e Ivete Sangalo puxaram a fila. O Funk e o Rap chegaram junto, da minha janela eu escuto o baile do Morro Santo Amaro, não dá para repetir aqui como os MCs tratam os Bolsonaro. Na música pop eu registro a gigantesca Anitta, eu não escuto nem conheço muito bem suas músicas, mas sou seu fã de carteirinha! Que depoimento essa moça deu! Que ser humano maravilhoso! Até na música erudita a onda chegou, fui a um concerto na Sala Cecília Meirelles dia 10, e não faltavam adesivos do Lula, inclusive no compositor da obra que abriu o programa (meu primogênito). Na dramaturgia e no cinema o apoio foi absoluto, alguns dos maiores astros dos palcos e das telas foram fotografados por manifestantes nas ruas e participaram ativamente nas redes sociais, por vezes se pronunciando em seus espetáculos. Flávio Bolsonaro implorou em suas redes sociais pelo apoio de cantores e artistas, foi atendido pela Jojô Todinho e por um punhado de cantores sertanejos que vivem de rachadinha de cachê com prefeitos bolsonaristas.
Assim como a arte, a ciência também reagiu. As maiores mentes do Brasil, responsáveis pelo desenvolvimento do conhecimento e da nossa tecnologia, também gastaram sola de sapato com seus alunos nas manifestações. Até os livreiros fizeram um ato, no Rio de Janeiro, repudiando a volta do obscurantismo. O meio acadêmico já enfrenta tem tempo o ataque continuado dos fascistas, que aqui, ao que parece, radicalizaram as propostas de seus antecessores, Enquanto os nazistas queimavam livros, alguns dos nossos fascistas queimam logo as universidades. Urge a apuração do incêndio na UFPE!
ATO 3
A conquista da sociedade civil.

A causa era tão urgente e o tempo tão escasso, que etapas tradicionais para a organização de grandes eventos políticos deixaram de fazer qualquer sentido. Nada de reuniões prévias de organização, nem pensar em plenária de entidades ou de reuniões preparatórias em bases sindicais ou associativas, zero campanha de divulgação de qualquer tipo. Era só marcar, botar um banner na internet e pronto, a massa respondia. Milhões de pessoas se mobilizaram e tomaram as ruas sem qualquer cerimônia, mostrando que quando o povo quer democracia não precisa pedir licença para ninguém. O que a campanha do PT fez foi providenciar os adesivos, as bandeirinhas e a estrutura mínima para o candidato, quando presente. E o fizeram muito bem-feito, não faltou nada.
As pessoas voltavam das ruas energizadas e fortalecidas para seus espaços de vivência, e encontravam outras com a mesma experiência, o clamor das ruas repercutiu com força nas instituições da sociedade civil. Para muito além do sindicato dos petroleiros ou das entidades de professores, o apoio assumido de entidades de âmbito privado a uma campanha política foi algo inédito. Quem algum dia imaginou a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil orientando voto aos católicos? Nos terreiros os atabaques invocavam os orixás e a força de seus ancestrais. Todas as nações indígenas ergueram seus cantos em defesa de sua existência. Os judeus brasileiros criaram uma entidade pela democracia, que expressou o apoio do melhor dos descendentes de Abraão ao movimento. Muitos pastores evangélicos evoluíram de opinião, e outros se viram questionados por parte de seu rebanho. Inúmeras entidades assumiram uma posição político eleitoral pela primeira vez, associações comunitárias, sindicatos, a associação dos capoeiristas, dos skatistas, etc. O movimento surgiu nas ruas e foi ganhando organicidade.
ATO 4
Das ruas para as redes

Temos visto que o poder dos senhores do tecnofeudalismo na política mundial só faz crescer, derrubam governos, incitam rebeliões, decidem eleições, criam guerras. Influíram nas eleições de nossos vizinhos, e foram fundamentais para a criação dessa legião de pessoas idiotizadas, aos quais, carinhosamente, denominamos bolsominions. O espaço digital parecia uma área totalmente dominada pela extrema direita, ainda que tenhamos construído no Brasil uma robusta rede de canais independentes de grande qualidade, seu alcance é controlado e limitado pelas empresas estadunidenses, que criaram um ecossistema digital para manter os internautas restritos a “bolhas” criadas por afinidades, turbinando a disseminação apenas de conteúdos que as interessam.
A campanha de Lula parecia impotente para romper o domínio avassalador das redes sociais pelo fascismo, repetindo um modelo tradicional de campanhas políticas que já vinha dando sinais de estar superado. Em um dos países mais digitalizados do mundo, na terra do Pix, nosso presidente sequer tinha um celular, parecia que novamente as pessoas progressistas iriam se esfalfar nas ruas e perder tudo na internet, até que surgiu um gigante. O deputado Janones, que nem do PT é, chamou para si a responsabilidade, e organizou uma verdadeira guerrilha digital. Com a sua genial proposta de criar o exercito do Lula virou o jogo completamente, pois a mobilização que ganhou as ruas dominou a internet. Os brasileiros amam as redes sociais, são os maiores craques em memes, só faltava o chamado. Dez milhões de soldados se alistaram no Exército de Lula (hoje já são onze) e foi organizada uma verdadeira guerrilha digital, que subverteu completamente a ordem imposta pelos magnatas das empresas que dominam o mundo digital.
Milhões de cidadãos, armados com seus celulares, simplesmente esmagaram a rede de robôs com engajamento real de seres humanos, quem não sabia foi aprendendo com quem tinha mais prática, o pessoal chegava em casa da passeata e sentava o dedo no celular, os algoritmos piraram com o mundão de gente produzindo conteúdo e compartilhando o dos outros. O Zuckerberg deve ter ficado pistola, não adiantou nada entregar empurrar vídeos do Nikolas Ferreira para 150 milhões de usuários, só quem ligou para ele foram as pobres mentes já completamente abduzidas pela propaganda fascista, o povo em geral já está farto de ver aquele moleque mentindo em fundo preto, muito mais legal é assistir os depoimentos de gente de nosso povo, de nossos artistas. O brasileiro é muito criativo, fizemos miséria no espaço da Meta e do Google, já que eles entram em nossas vidas sem pedir licença, resolvemos entrar na casa deles e bagunçar o coreto.
O que fizemos aqui não foi bolinho não! O Brasil virou exemplo e referência para os povos do mundo inteiro, provamos que os barões do feudalismo digital podem ser derrotados em seu próprio campo. Os socialistas espanhóis adotaram o L que fizemos com os dedos em sua campanha eleitoral, espalhamos a esperança pela terra ao provar que um povo pode derrotar o tecnofeudalismo, e nosso presidente saiu fortalecido como uma das lideranças mundiais mais respeitadas. Os fascistas daqui sentiram o tranco, achavam que iam acuar a nação de dentro do parlamento com a sua maioria, correm o risco de ficar acuados dentro dele pela maioria da população, o Flávio Bolsonaro já meteu o pé, assumindo a carapuça de ladrão, qual será o próximo?
ATO FINAL
Grand finale! A revolta dos velhotes

Enquanto os estudantes iniciavam o movimento nas ruas, dentro de milhões de lares brasileiros se processava outro movimento, silencioso, mas não menos importante. Desobrigados legalmente do dever de votar, muitos idosos resolveram ficar em casa, porém, tão logo saiu o resultado do primeiro turno, milhões se arrependeram e decidiram comparecer no segundo turno. As famílias começaram a se organizar, filhos e netos assumiram a missão de apoio, várias pessoas se voluntariaram para ajudar. A fisioterapeuta que atende minha mãe levou em seu carro oito de suas pacientes idosas para as sessões eleitorais, merece uma medalha do exército do Lula a grande Adriane!
No dia da eleição uma enorme quantidade de idosos, alguns com grandes dificuldades de locomoção, compareceram às sessões eleitorais. Com bengalas e andadores, em cadeiras de rodas, ou carregados pelos familiares, milhões de idosos enfrentaram suas limitações e aguentaram suas dores para fazer a sua parte, eu vi a felicidade dessa gente de valor nos olhos da minha mãezinha de 95 anos ao acabar de votar. Foram decisivos para o resultado e deram uma lição a todos nós, foi a nossa ancestralidade viva se levantando e fazendo mais um sacrifício por nós, pelo bem coletivo, pelo futuro, do qual já não tem muito a esperar para si. Devemos muito aos nossos idosos, que em uma perfeita sintonia com a juventude, literalmente salvou a pátria brasileira.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)





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