A GUERRA ÀS DROGAS
- Eduardo Papa*

- 27 de jul. de 2025
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*Eduardo Papa

O termo foi transformado em política prioritária nos EUA, após o fim da URSS. Como estava ficando muito difícil explicar para o contribuinte a manutenção de um complexo industrial militar gigantesco e caríssimo, já que não havia mais nenhuma ameaça externa, Pablo Escobar e os cartéis da droga passaram a justificar o militarismo intervencionista ianque. Essa fase durou pouco, afinal, ninguém precisa de bomba atômica para estourar boca de fumo, depois dos atentados às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, a islamofobia garantiu o fluxo de verbas pra o Pentágono, que deixou os “doidões” americanos em paz, hoje podem inclusive desfrutar do seu baseadinho dentro da legalidade.
A hipocrisia tem sido a regra estabelecida para lidar com o assunto na sociedade moderna. Curiosamente, cem anos atrás, as sociedades estavam mais abertas a conhecer e vivenciar experiências com elementos psicoativos. Em 1922 Dr. Sigmund Freud destilou pela primeira vez a cocaína, vendeu a patente para a Bayer, que comercializava o produto no mundo inteiro como o que é hoje, um estimulante. Após a derrota da Alemanha na guerra, os laboratórios americanos lançaram anfetaminas sintéticas no mercado e a cocaína foi proibida, como a Bayer estava enrascada até o pescoço com a utilização de mão de obra escravizada e a produção do gás para os campos de concentração, não pôde falar nada. Da mesma forma, o consumo da maconha também foi proibido por razões econômicas. A Dupont desenvolveu uma tecnologia para descaroçar o algodão e precisava do aumento da área plantada para sustentar a produção em larga escala. Como forma de substituir a cultura do cânhamo, que produz uma fibra bem mais resistente que o algodão, a empresa bancou uma campanha midiática e um lobby político para criminalizar o consumo de maconha, um subproduto do cânhamo muito popular entre os trabalhadores agrícolas latinos. Bingo! Além de liberar as terras para o cultivo desejado, ainda forneceu um fator a mais para discriminar os “cucarachos.”
A humanidade desde sempre experimentou substâncias para alterar seu estado psíquico, remontam a tempos imemoriais as fórmulas para acalmar ou excitar os ânimos. Guerreiros, desde a antiguidade, usam poções para turbinar a coragem, dos Celtas que avançavam seminus contra legiões romanas, até os super-homens de Hitler na blitzkrieg, o uso de drogas antes dos combates sempre foi muito comum nos campos de batalha. Da guerra ao amor, sempre tivemos o desejo de melhorar nossas possibilidades, o sucesso estrondoso dos novos medicamentos para combater a disfunção erétil, são o eco dos incessantes e milenares esforços dos homens em encontrar substâncias que garantam sua prontidão. O Álcool, a droga mais consumida pela humanidade, nos acompanha desde a idade da pedra, foi o segundo alimento processado pelos seres humanos, depois apenas do pão, para o homem do neolítico, a sopa da noite virava cerveja pela manhã. Mesmo no reino animal podemos observar a busca por substâncias que produzem um efeito além da nutrição. O uso do café, por exemplo, foi introduzido por pastores da península arábica, que observaram que suas cabras buscavam com avidez as frutinhas vermelhas, que as deixavam mais ativas. Pesquisas recentes demonstram que até os inocentes golfinhos usam a toxina do baiacu para fins recreativos.
Acaso seria na sociedade hedonista que vivemos, com a busca frenética pela satisfação de desejos impregnada na alma da sociedade de consumo, que o ser humano encontraria o equilíbrio mental necessário para abster-se do uso de substâncias capazes de lhe trazer conforto e alegria? Piada não é? Penso eu que, a despeito dos bons esforços dos pesquisadores, é muito difícil dimensionar a real dimensão do uso de tais substâncias, talvez seja muito maior do que pensamos, e alcance segmentos sociais que nem imaginamos como sacerdotes, policiais ou professores. Oculto por medo do preconceito ou da lei, o uso de drogas, lícitas ou ilícitas, me parece generalizado, e vai da ralé às culminâncias do poder. Por esses dias, o senador Magno Malta, que costuma representar os eleitores do Espírito Santo visivelmente embriagado, referiu-se a Lula (que não nega apreciar uma branquinha) como cachaceiro. O Presidente da Câmara Federal, Hugo Motta, posou para foto mamando uísque na boca da garrafa, Já o deputado Zé Trovão apareceu com um canudo enfiado no nariz, defronte a uma mesa com uma carreira de um pó branco, quem sabe a mesma substância que era carregada, em grandes quantidades, pelo helicóptero de um senador a república?
Entretanto, mesmo que o consumo de drogas esteja presente em toda a sociedade, o tratamento dado a ele difere por classe social, especialmente no que tange as drogas ilícitas. A mesma polícia que joga uma pessoa pobre de cima de um viaduto por nada, libera, com um tapinha nas costas, um playboy pego em flagrante usando o seu porshe para matar. Essa diferença, que é tão evidente ao ponto de incorporar o “censo comum”, tem origem na forma de como é produzida a imagem do usuário de drogas para as pessoas. Na mídia, na indústria cultural, nos templos religiosos e em todos os espaços de formação de idéias, predomina uma visão sobre o consumo de drogas dividido por classe social. Enquanto uma pessoa rica, branca e instruída que consume droga é vista como tendo motivações aceitáveis, como relaxar do stress, liberar a criatividade. Já para negros, migrantes e pobres, a motivação atribuída é o encorajamento para o crime e a perversão. Quanto mais parecido com a classe dominante, mais complacência e aceitação social o usuário encontra, quanto mais próximo da base da pirâmide social, maior é a intolerância e discriminação. Uns são casos clínicos, outros caso de polícia.
Observar o caráter de classe que envolve a abordagem da questão é relativamente fácil, chato mesmo é colocar o dedo na tradicional família brasileira. Sou professor e garanto que a educação mais eficiente de dá pelo exemplo. O pai severo e rigoroso, que sente enorme prazer em exercer a autoridade de manter seu filho adolescente longe do vício do álcool, nos dias de jogo do time do coração, abre umas cervejas, por vezes, acompanhado dos tios e pessoas importantes na estrutura familiar. Quando bebe, o sisudo patriarca fica feliz, animado e falante, animando a torcida dos jovens e crianças. Talvez mais tarde, após deixar o respeitável bebum na cama, sua esposa recorra a um dos medicamentos disponíveis para controlar os males que Dr. Freud estudava. A indústria de medicamentos e as cervejarias são importantes agentes econômicos, que não tem responsabilidade sobre o mau uso de seus produtos, já traficantes são criminosos perseguidos, muito embora ambos ofereçam a sociedade produtos que tem o mesmo efeito e objetivo, a única diferença é que as drogas ilícitas são acompanhadas por problemas legais e morais de aceitação social maiores.
O fato é que as drogas estão no meio de nós e podem produzir efeitos diversos e contraditórios. Tanto podem servir como um elemento de agregação, pela formação de grupos de adictos à mesma substância, como podem gerar uma tendência ao isolamento. Algumas substâncias são capazes de tornar o usuário mais efusivo, outras o deprimem, por vezes a mesma substância produz o mesmo efeito em momentos diferentes. Tudo depende também da das condições físicas e psíquicas do paciente. Enfim, a variedade das reações ao elemento químico e a complexidade de sua relação com o ambiente social e familiar, exige prudência para lidar com a questão, sobretudo para tentar chegar a conclusões generalizantes. A relevância do tema é tamanha que, os EUA, com 100 mil mortos por ano por overdose de fentanil, acusam a China de fornecer o produto para os cartéis mexicanos distribuírem no país, para enfraquecer a vontade do povo americano, justo o que eles fizeram, em parceria com a Grã-Bretanha, contra a própria China na Guerra do Ópio. Trata-se de um negócio que movimenta bilhões em escala global, sendo a principal fonte de renda para milhões de pessoas, tanto na produção como na distribuição, atendendo a um número incalculável de consumidores em todo o planeta.
A pergunta que me intriga ao abordar o tema é por que um assunto desse tamanho é continuadamente varrido para baixo do tapete? Por que sua discussão é espinhosa, evitada por todos, ou respondida de maneira simplista e preconceituosa? Penso eu que o constrangimento provocado pela reflexão sobre o problema, e mesmo do abuso no consumo, reside no fato de que temos muitas dificuldades em lidar com a angústia provocada pela incapacidade de nos libertarmos da repressão provocada pelo recalque da nossa sexualidade, e como nossa civilização lida com os dramas morais por ela condicionados; com a maneira de como o mundo do trabalho tornou-se um espaço cada vez mais psicologicamente carregado e desumanizado (desde a China socialista até os EUA do ultraliberalismo); pela forma como nossos corações e mentes, nossa atenção e afetos, são disputados ferozmente, através de múltiplas mídias extremamente agressivas e invasivas, por grupos, religiosos, políticos, econômicos, etc.
As drogas não são um bem ou um mal intrinsecamente, mas se adaptam as nossas necessidades. Alguns buscam a excitação com adrenalina, outros se comprazem com a serenidade propiciada pela dopamina, vai de acordo com o freguês ou a ocasião. Claro que não é impossível viver sem ela, que pode ser substituída por outros elementos de equilíbrio, o fanatismo religioso ou político, por exemplo. Mas enquanto não superarmos o medo de sermos livres de imposições sociais e não construirmos um consenso moral contra nossa exploração econômica e destruição da afetividade. Haja droga! Sou chegado a uma utopia, mas reconheço que é uma tarefa para séculos, talvez milênios, quem sabe irrealizável?
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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