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A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO: COMO LULA E MARISA LETÍCIA RECEBERAM OS BONÉS E A BANDEIRA DO ARCO-ÍRIS EM 2008

Foto do escritor: Toni Reis
Toni Reis
há 4 minutos
5 min de leitura

Uma fotografia histórica da primeira Conferência Nacional GLBT revela bastidores de um encontro com o presidente Lula, a participação de Toni Reis e David Harrad e a importância de preservar a memória do movimento LGBTI+ brasileiro.


Brasília, 5 de junho de 2008. O Brasil vivia um momento histórico. Pela primeira vez, um presidente da República participava da abertura de uma conferência nacional promovida pelo governo federal e dedicada aos direitos da população LGBTI+.


Naquela noite, Luiz Inácio Lula da Silva e a primeira-dama Marisa Letícia protagonizaram uma cena que se tornaria um símbolo do reconhecimento institucional da diversidade: Lula apareceu usando um boné preto com as cores do arco-íris, enquanto Marisa utilizava um boné branco, acompanhados pela bandeira que representa o orgulho LGBTI+.


O que poucas pessoas conhecem é a história por trás daquela fotografia.


Segundo o professor, pesquisador e ativista Toni Reis, um dos fundadores da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT), criada em Curitiba em 1995, a imagem não surgiu por acaso. Foi resultado de uma iniciativa cuidadosamente planejada para produzir um registro de significado histórico e político.


“Naquela época, Lula gostava muito de usar bonés dos movimentos sociais. Usava bonés do MST, dos metroviários e de diversas organizações. Então pensei: precisamos conseguir também um boné LGBTI+ para o presidente”, recorda Reis.


A ideia ganhou forma com a obtenção dos bonés e de uma bandeira do arco-íris. A preparação contou também com a participação de David Harrad, marido de Toni Reis, que ajudou a organizar a bandeira para o registro fotográfico.


Recentemente, uma nova informação ajudou a reconstruir essa memória. Em uma publicação nas redes sociais, Adriana Simone da Silva comentou sua participação naquela história, mencionando a bandeira, os bonés e os acessórios arco-íris. O depoimento permitiu a Toni recuperar o nome da pessoa com quem havia obtido os materiais, embora ainda não se recorde exatamente de como ocorreu a compra.


O ENCONTRO NA SALA VIP E A ESCOLHA DOS BONÉS

Um dos episódios mais marcantes aconteceu pouco antes da cerimônia de abertura, quando Toni Reis estava na sala VIP com Lula e Marisa Letícia.


O ativista conta que pediu autorização ao presidente para entregar a bandeira e os bonés.


“Presidente, podemos entregar a bandeira do arco-íris e os bonés?”


Com a concordância de Lula, os acessórios foram apresentados à primeira-dama.


Diante dos modelos branco e preto, Marisa perguntou qual ficaria melhor.


“Ela olhou para mim e disse: ‘Ah, vocês gays têm bom gosto! Qual você sugere para mim?’”, relembra Toni.


Observando que a primeira-dama vestia um blazer preto, ele sugeriu o boné branco.


“Dona Marisa, acho que o branco vai ficar maravilhoso!”


A sugestão provocou risadas e acabou registrada na fotografia. Lula apareceu com o boné preto, Marisa com o branco, e a bandeira do arco-íris completou a composição.


O resultado foi uma imagem de forte significado político, produzida em um período em que o movimento LGBTI+ reivindicava reconhecimento institucional, políticas públicas e igualdade de direitos.


A AUTORIA DAS FOTOGRAFIAS: CLAUDIA FERREIRA E JOEDSON ALVES


A recuperação dessa memória também permite reconhecer o trabalho dos profissionais que documentaram a conferência.


A fotógrafa Claudia Ferreira registrou a primeira Conferência Nacional GLBT. Seu acervo, disponível na plataforma Memória e Movimentos Sociais, preserva imagens da cerimônia, incluindo uma fotografia de 5 de junho de 2008, identificada pelo código 08_CLGBT_0043, na qual Toni Reis aparece entre as autoridades e representantes do movimento.


Outra fotografia do mesmo acontecimento foi produzida pelo fotógrafo Joedson Alves, da agência internacional Agence France-Presse (AFP). O registro, também de 5 de junho de 2008, mostra Lula segurando a bandeira do arco-íris, ao lado de Marisa Letícia e da ativista Fernanda Benvenutty.


São registros fotográficos distintos que documentam um mesmo acontecimento histórico e ajudam a reconstruir sua dimensão política e simbólica.


A identificação dos autores, das datas e dos enquadramentos é fundamental para a preservação da memória e para o reconhecimento do trabalho dos profissionais da fotografia.


DIVERGÊNCIAS POLÍTICAS TAMBÉM MARCARAM OS BASTIDORES

A trajetória daquela fotografia, entretanto, também envolve disputas e tensões internas.


Toni Reis relata que, antes da conferência, houve tentativas de impedir sua participação na mesa de abertura, motivadas, segundo ele, pelo fato de não ser filiado ao Partido dos Trabalhadores.


O ativista afirma guardar uma lembrança especialmente significativa: Lula teria condicionado sua presença na abertura à participação de Reis na mesa.


“Se o Toni não estiver na mesa, eu não vou à abertura”, teria afirmado o presidente, conforme a memória pessoal de Toni Reis.


A participação de Toni na cerimônia está registrada em documentos e fotografias da época. Na ocasião, ele representava a ABGLT.


UMA FOTOGRAFIA, DIFERENTES ENQUADRAMENTOS

Quase duas décadas depois, Toni Reis chama a atenção para outro aspecto dessa história: a circulação de versões recortadas da fotografia original.


Segundo ele, algumas reproduções mostram Lula, Marisa Letícia e a histórica e saudosa ativista Fernanda Benvenutty, mas deixam de fora sua própria participação.


“Tenho enorme respeito pela Fernanda, por sua trajetória e por tudo o que ela representou. Ela até visitou minha casa. Não se trata de disputar protagonismo com ninguém. Trata-se de preservar a memória completa daquele acontecimento”, afirma.


O ativista considera importante localizar e preservar os arquivos originais, identificar seus autores e compreender como as diferentes versões passaram a circular ao longo dos anos.


A MEMÓRIA DO MOVIMENTO COMEÇOU MUITO ANTES DE 2008

A história do movimento LGBTI+ brasileiro não começou com a Conferência Nacional de 2008, nem com a criação da ABGLT em 1995.


Suas raízes organizadas remontam especialmente ao final da década de 1970, durante a ditadura militar, quando surgiram iniciativas pioneiras como o Grupo Somos, em São Paulo, e o jornal Lampião da Esquina, ambos de 1978.


Esses movimentos abriram caminhos para novas gerações de ativistas, organizações e redes de defesa dos direitos humanos.


Toni Reis integra uma etapa posterior dessa trajetória. Nos anos 1980, aproximou-se do movimento organizado e, em 1992, participou, ao lado de David Harrad e outras pessoas, da fundação do Grupo Dignidade, em Curitiba.


Em 31 de janeiro de 1995, foi um dos fundadores da ABGLT, entidade nacional criada durante o VIII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas, em Curitiba, que representou um marco na articulação política do movimento LGBTI+ em todo o país.


Essa distinção histórica é importante porque reconhece o trabalho das gerações pioneiras, sem as quais as conquistas posteriores não teriam sido possíveis.


A HISTÓRIA PERTENCE A TODAS AS PESSOAS QUE A CONSTRUÍRAM


Realizada entre 5 e 8 de junho de 2008, a primeira Conferência Nacional GLBT representou um marco na participação social e na formulação de políticas públicas voltadas à população LGBTI+.


Reuniu representantes do governo, organizações da sociedade civil e militantes de diferentes regiões do país, em um momento de ampliação do debate nacional sobre cidadania, enfrentamento da discriminação e direitos humanos.


Para Toni Reis, recuperar os bastidores da fotografia significa também reconhecer o papel das inúmeras pessoas que ajudaram a construir essa trajetória.


“A história do nosso movimento foi feita por muitas mãos. Tivemos divergências, dificuldades, disputas, mas também muita coragem, solidariedade e conquistas. Não podemos permitir que essas memórias sejam esquecidas.”


O episódio reforça uma convicção que acompanha o ativista ao longo de mais de quatro décadas de atuação: a importância de continuar trabalhando com independência, mesmo diante de críticas, rivalidades e tentativas de exclusão.


“Não podemos deixar que a opinião dos outros determine nosso caminho. Precisamos continuar fazendo aquilo que acreditamos ser justo.”


E conclui com uma reflexão:


“Como diz o velho ditado, enquanto os cães ladram, a caravana passa. Mas eu acrescentaria: a caravana passa, a história permanece e precisa ser contada por inteiro.”


Mais do que uma fotografia de Lula com um boné do arco-íris, aquele registro de 2008 representa um capítulo da luta por reconhecimento, visibilidade e cidadania.


Uma imagem que guarda não apenas rostos e símbolos, mas também histórias humanas que merecem ser preservadas para as próximas gerações.


Prof. Dr. Toni Reis


Curitiba, novembro de 2026.

 
 
 

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