Amores em expansão: brasileiros repensam a monogamia e abraçam novos arranjos afetivos
- Pimenta Rosa
- 7 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Poliamor, relações abertas e outros modelos não exclusivos ganham espaço, apesar do conservadorismo. Especialistas destacam a importância do diálogo, dos acordos e da ética emocional.

A monogamia pode até seguir como modelo predominante no Brasil, mas está longe de ser o único. Cada vez mais pessoas têm questionado esse padrão tradicional e buscado outras formas de viver o amor e a sexualidade, com mais diálogo, acordos afetivos e liberdade relacional. O resultado é o avanço de práticas como poliamor, relacionamentos abertos, polifidelidade e outras estruturas que fogem da exclusividade amorosa.
Segundo o Mapa da Não Monogamia no Brasil e na América Latina, realizado pelo aplicativo Gleeden, 66% dos brasileiros têm uma visão positiva (42%) ou neutra (24%) sobre a não monogamia. Os números colocam o Brasil à frente de países vizinhos como a Argentina, onde 40% da população ainda mostra resistência à ideia.
“A abertura para múltiplos vínculos permite que os envolvidos expressem suas necessidades e desejos sem a pressão da exclusividade, favorecendo a autodescoberta e a construção de relações mais equilibradas”, afirma Silvia Rubies, diretora de marketing do Gleeden.
Mas o que é, afinal, a não monogamia? O termo abrange uma série de arranjos afetivos e sexuais como relacionamentos abertos, poliamor, polifidelidade, ménage, swing e outros. Para 38% dos entrevistados na pesquisa, trata-se de acordos baseados em transparência e responsabilidade. Outros 36% valorizam a liberdade emocional e sexual, e 29% enxergam o modelo como uma maneira de questionar normas sociais e culturais consolidadas.
Convidados pelo Pimenta Rosa para comentar o tema, um praticante de relações poliamorosas foi direto ao apontar o maior desafio:
“O principal desafio é o conservadorismo e a hipocrisia da sociedade contemporânea. Antigamente, as pessoas tinham vontade de experimentar novas formas de relação, mas a insegurança e o medo do julgamento social falavam mais alto.”
Sobre o ciúme, uma das questões mais comuns a quem ouve falar de não monogamia, ele não hesita:
“Ciúme é resultado de um sentimento de propriedade. Numa relação poliamorosa, isso precisa ser desconstruído. Se há ciúme ou insegurança, a relação não se sustenta.”
Mas essa liberdade exige maturidade. Para ele, não monogamia não significa ausência de regras:
“Tem que haver um código de conduta. Isso precisa ser muito conversado antes de começar. Senão, vira bagunça e não é legal. Não é simplesmente sair se relacionando com várias pessoas. É sobre respeito, ética e afeto.”
A estudante Lia, bissexual, de 22 anos, compartilha uma visão similar. Para ela, amar fora da monogamia é também uma forma de resistência:
“A não monogamia é uma crítica política ao modelo patriarcal. É um ato de liberdade afetiva. Nem sempre é fácil, mas é muito mais verdadeiro pra mim.”
Já Renata, 39 anos, psicóloga, lésbica e mãe solo, conta que foi na não monogamia que encontrou equilíbrio:
“Aprendi a não projetar todas as minhas expectativas numa única pessoa. Passei a me comunicar melhor, a negociar. Não é bagunça, é maturidade emocional.”
Por outro lado, há quem veja essas novas formas de se relacionar com desconfiança ou crítica. A professora Daniela, 42 anos, acredita que a não monogamia pode abrir margem para desequilíbrios:
“Respeito quem escolhe esse caminho, mas pra mim, exclusividade é sinônimo de compromisso. Sem cuidado emocional, qualquer relação vira desequilíbrio.”
Marcos, 37 anos, casado e evangélico, também expressa uma visão conservadora:
“Acredito que o casamento é uma aliança entre duas pessoas. Vejo essas novas formas de relacionamento como algo instável. Parece mais desejo do que amor.”
Já Caio, 25 anos, estudante de arquitetura, compartilha sua experiência como seu namorado que já rompeu com a monogamia:
“Achei que era só moda no começo. Depois percebi que fazia sentido pra mim. Eu amo intensamente, mas não de forma exclusiva. Meu afeto não tem senha de uso único.”
Caminhos abertos, mas não fáceis
A pesquisa do Gleeden também apontou que os modelos mais praticados no Brasil hoje são os relacionamentos abertos (29%), seguidos por polifidelidade (26%) e ménage (25%). O poliamor aparece com 20%, e práticas como swing (14%) e poligamia (17%) também têm adeptos. A infidelidade, vale destacar, ainda aparece com 28% — revelando uma confusão comum entre “não monogamia” e “traição”, que na verdade são práticas opostas.
Como resume uma das entrevistadas:
“Amar mais de uma pessoa não é amar menos. É amar com verdade, sem amarras e com muito diálogo.”




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