APOCALIPSE NOW!
- Eduardo Papa*

- há 2 dias
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*Eduardo Papa
Eu não sou cristão, nem muçulmano, umbandista, budista, ou seguidor de qualquer tipo de pensamento religioso ou metafísico, não é pela fé, mas pela razão, embasada pelo conhecimento científico, que tomo minhas decisões na vida. Tenho profundo respeito pelas pessoas religiosas de qualquer credo, feita a exceção de seitas com uma visão racista ou supremacista e que defendam a violência, como os sionistas por exemplo. Ainda que não tenha essa dimensão espiritual, como estudioso da história, sempre tive grande interesse em conhecer as mitologias criadas pelas sociedades humanas, tanto antigas como modernas. Dentro da mitologia cristã, há uma passagem muito interessante, o Apocalipse, que embora colocado em uma prateleira meio escondida pelo catolicismo e denominações mais tradicionais do cristianismo, aparece no centro das atenções das Igrejas Neopentecostais.
O apóstolo João – o evangelista, o mais jovem discípulo de Cristo, quando exilado pelo Imperador Domiciano na rochosa e inóspita ilha de Patmos, por não abjurar a fé no nazareno, teve a sua visão do apocalipse. O período que antecede ao fim dos tempos, em que surgirá o anticristo, que comandará as forças do mal contra o bem na batalha final da humanidade. O livro do apocalipse é usado de maneira recorrente por nove entre dez pastores dessas igrejas levantadas que se especializaram em tosquiar seus fiéis, pois incutir o terror do juízo final pode ser um excelente estímulo para alavancar as doações. Para muitos cristãos o anticristo se apresentará como o novo messias:
“E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane, porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos.”- Mateus 24:4-5 ARC.
Essa semana, Donald Trump postou em sua rede social (Truth Social) uma foto como se fosse um novo Cristo. O despropósito é tamanho que não faltaram vozes para identificar a demência tomando conta do presidente. Pode ser, mas para apresentar o atestado tem que submeter-se a exame, ou não? Enquanto o 47º presidente dos Estados Unidos da América não é internado em um hospício, e considerando que a semiótica é largamente utilizada pelo espectro político da extrema direita para tocar os corações e influenciar a mente das pessoas, proponho levar ao leitor uma análise mais cuidadosa sobre a imagem postada por ele.
Notemos que na postagem de Trump ele aparece no centro da imagem (com uns 20 anos e uns 20Kg a menos), diretamente recebendo uma luz celestial, e como que a toma nas mãos em posição que sugere estar fazendo a cura de um enfermo. O que pode ser inequivocamente interpretado como uma comparação de si próprio ao Cristo. A figura do redentor cor de laranja tem ao fundo inúmeros símbolos dos EUA, a bandeira, a estátua da liberdade, a águia, promovendo uma associação da supremacia e a excepcionalidade dos EUA como pano de fundo para a cura do mundo doente. A imagem deixa transparecer claramente como o novo messias pretende realizar o seu milagre, um soldado uniformizado o admira com devoção enquanto aeronaves militares sobrevoam o cenário e figuras que evocam guerreiros saem das nuvens bem atrás do personagem principal, em um evidente sinal de que a violência e soluções militares fazem parte da cura saneadora.
Ao publicar essa impostura, logo após ter esculhambado o Papa, jactado-se de ter mandado matar o líder supremo dos xiitas e ameaçar exterminar uma civilização inteira, Trump parece ter lançado a campanha para o cargo de anticristo (em disputa acirrada com seu coleguinha Netanyahu). E o que dizem esses pastores que em seus púlpitos o enalteciam? Silêncio sepulcral. Por acaso Malafaia mostrou alguma solidariedade às meninas iranianas assassinadas na escola primária por um míssil ianque? Onde estão esses pastores da Igreja da Lagoinha, que viviam a massagear o ego de Trump e do seu correlato nacional? Não vão falar nada porque eles próprios têm um ego gigantesco, muitos acreditam chegar aos umbrais da deidade, como o Edir Macedo que se acha o próprio Salomão do subúrbio carioca de Pilares.
Como confiar na interpretação desses sacripantas é temerário, vamos beber na fonte primária para especular se podemos estar próximos da batalha do armagedon, que no final das contas, ainda que não seja agora, está marcada para ali mesmo, próximo ao Monte Megido na Palestina (Apocalipse 16:16). Na visão profética de João Evangelista o apocalipse chegará velozmente, sem antever a existência de mísseis hipersônicos e caças furtivos, a celeridade da desgraça vem no galope de quatro cavaleiros, cada um representando uma face da destruição que se abaterá sobre a humanidade, assim descritos:
“Olhei, e diante de mim estava um cavalo branco. Seu cavaleiro empunhava um arco, e foi-lhe dada uma coroa; ele cavalgava como vencedor determinado a vencer.”- Apocalipse 6:2
O primeiro cavaleiro, com o arco e a coroa, representa a conquista, o domínio pela força, mas não apenas por ela. O uso da cor branca (que simboliza a paz) na consecução de seus objetivos de conquista sugere a falsidade, o lobo em pele de cordeiro. Como não associar com o bombardeio midiático para classificar a agressão expansionista dos EUA e Israel com uma suposta defesa do “mundo livre”? É a besta que encobre como pacíficas suas intenções de destruição e conquista. A guerra é de conquista, com um império colonial querendo manter sua supremacia, aliado a uma potência regional que pretende uma expansão territorial, tomando a terra, e expulsando ou exterminando os derrotados. Alguém tem dúvida de que o Estado de Israel está propiciando aos palestinos em Gaza uma avant-première do armagedon?
Os ataques da aliança EUA-Israel são brutais e indiscriminados, além do assassinato das meninas de Minab cometeram inúmeros outros crimes de guerra, a aviação de Israel bombardeou oito hospitais, destruíram pontes, sistemas de água e saneamento, universidades, escolas (tudo sem o aviso prévio que o Irã costuma oferecer quando retalia os ataques). Como não conseguem alcançar os lançadores de mísseis em suas bases subterrâneas, atacam os civis promovendo uma matança horrenda, mas as agências de notícias ocidentais e a nossa grande imprensa, que a replica monotonamente sem questionar nada, não dão um pio, ao contrário exaltam as ações dos EUA e de Israel, alimentando os sionistas cristãos neopentecostais com conteúdo falso, para promover a islamofobia em seus púlpitos, bem como justificar a dominação econômica imperial sobre o mundo e a matança dos povos do oriente médio.
“Então saiu outro cavalo; e este era vermelho. Seu cavaleiro recebeu poder para tirar a paz da terra e fazer que os homens se matassem uns aos outros. E lhe foi dada uma grande espada”. Apocalipse 6:4
No segundo cavaleiro o vermelho evoca o sangue e o fogo, ele traz a guerra com sua espada, e toda a destruição e sofrimento que ela acarreta. É o semeador da discórdia entre os homens que sempre apresenta a violência como forma de solucionar os conflitos, muitas das vezes criados por ele mesmo. A escalada de conflitos armados que vivemos nos dias atuais, sugere a alguns estarmos próximos a uma terceira guerra mundial, que para outros já se encontra em pleno andamento. As guerras do capitalismo financeiro nos nossos dias são muito diferentes das guerras dos tempos do capitalismo industrial do século passado. A CIA pode destruir um gasoduto russo no Báltico sem os EUA entrar em uma guerra formal. O Irã pode atacar Israel pelo sul e pelo norte com seus aliados sem declarar guerra diretamente.
A guerra do capitalismo financeiro é limpa, morre quem está marcado para isso, cuja carne é barata, quando os mísseis chegaram a Dubai a fila de saída era ponteada por quem podia pagar mais. A guerra e a paz podem estar separadas por quarteirões, trabalhadores do porto em Odessa podem encarar um ataque de mísseis, enquanto do outro lado da cidade as discotecas funcionam normalmente. As “forças do mercado” não são senhores de guerra que sujem as mãos de sangue, fazem uma guerra tecnológica, da qual ficam distantes e indiferentes, em uma requintada fusão da brutalidade com a hipocrisia.
“Quando o Cordeiro abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizer: "Venha!" Olhei, e diante de mim estava um cavalo preto. Seu cavaleiro tinha na mão uma balança.Então ouvi o que parecia uma voz entre os quatro seres viventes, dizendo: "Um quilo de trigo por um denário e três quilos de cevada por um denário, e não danifique o azeite e o vinho!"- Apocalipse 6:5-6
O terceiro cavaleiro com a cor preta de sua montaria representa o desespero e a escuridão trazida pela fome que vem com a guerra e a conquista, não uma fome generalizada, mas sim uma privação seletiva. O cavaleiro traz uma balança que sugere seu poder em regular a divisão dos recursos. A alusão ao preço dos cereais e sugestão de poupar bens de luxo como o vinho e o azeite, é um indício de que a desigualdade na distribuição da riqueza é determinante para a morte de milhões pela fome, exatamente como vai ocorrer na gravíssima crise alimentar que se avizinha. Além do aumento geral da inflação com alta dos combustíveis, a guerra afetou profundamente a oferta de fertilizantes, sem os quais um grande número de regiões não pode produzir em escala para atender a demanda. A grande fome que se aproxima não vai ficar restrita aos nichos tradicionalmente conhecidos no continente africano e regiões empobrecidas do mundo, mas após a crise energética a Europa viverá uma séria crise de insegurança alimentar, um empobrecimento rápido capaz de gerar conflitos sociais, como os que já ocorrem na Irlanda. A fome agravada pela desigualdade irá expor o caráter seletivo das privações, sendo escancarada em uma realidade em que na mesma vizinhança uns passam fome enquanto outros vivem na abastança e escondem a comida.
“Olhei, e diante de mim estava um cavalo amarelo. Seu cavaleiro chamava-se Morte, e o Hades o seguia de perto. Foi-lhes dado poder sobre um quarto da terra para matar pela espada, pela fome, por pragas e por meio dos animais selvagens da terra”.- Apocalipse 6:8
No quarto cavaleiro a palidez amarelecida da montaria representa a morte, tanto a morte física quanto a espiritual que acompanha a chegada das bestas do apocalipse. Moléstias de toda sorte atingem com facilidade corpos enfraquecidos pela falta de alimento, mas as doenças do corpo virão acompanhadas pela destruição da saúde mental gerada pelo desespero. O quadro de violência extrema, que o mundo inteiro assiste há décadas em Gaza, vai se espalhar pela região. No pior dos cenários, o recrudescimento do conflito pode levar ao bombardeio das usinas de dessalinização da água do mar, o que mataria de sede milhões de pessoas em poucos dias, ampliando de maneira exponencial a matança que o exército de assassinos e estupradores de Israel promove há décadas, e atingindo até o seu próprio povo, que acreditam ser escolhido pelo seu Deus para dominar os demais.
A região que foi o berço da civilização humana vive tomada pela pulsão de morte. A banalização do mal e a perversão sádica do fascismo/sionismo são um veneno mortal, capaz de destruir a condição de humanidade desenvolvida em milênios de civilização, é contagiosa como um vírus agressivo, que leva a morte da alma em uma existência miserável, infelicitada pelo predomínio do ódio sobre os sentimentos construtivos e solidários, que nos permitiram sair das cavernas. A guerra do capitalismo financeiro contra o resto das pessoas do mundo pode não resultar na extinção de nossa espécie, mas está nos transformando em algo muito pior do que já fomos. Quando perdemos a empatia pelo que não é espelho e construímos robôs para interagirmos no lugar de outros seres humanos, estamos assistindo a aurora de uma nova espécie, moldada por uma lógica brutal, que revive a luta pela sobrevivência da Idade da Pedra em uma contenda renhida e sem limites por coisas fúteis, das quais não precisamos de fato para viver.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)





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