top of page

Blocos de carnaval: uma tradição que se recusa a caber em definições

  • Foto do escritor: Pimenta Rosa
    Pimenta Rosa
  • há 1 hora
  • 4 min de leitura

Em Os Blocos do Carnaval Carioca, Tiago Ribeiro analisa a história, as tensões e a força transformadora da maior manifestação carnavalesca do país



O que é, afinal, um bloco de carnaval? Longe de ser apenas uma provocação conceitual, a pergunta estrutura o livro Os Blocos do Carnaval Carioca, do pesquisador Tiago Ribeiro, e revela a complexidade de uma manifestação que, embora hoje seja a principal expressão do carnaval brasileiro, resiste a qualquer enquadramento único ou definitivo.


Ao longo da pesquisa, Ribeiro demonstra que a própria noção de bloco se transforma conforme o tempo histórico. Para ele, os blocos funcionam como uma espécie de “esponja” da sociedade. Se o carnaval já reflete os dilemas, desejos e conflitos do país, os blocos absorvem essas mudanças de forma ainda mais direta. “Eles captam o cenário carnavalesco como antenas”, observa o autor, ao explicar por que sua forma, sua estética e sua organização estão em constante mutação.


Historicamente, “bloco” surge primeiro como um termo, não como um formato de desfile. Nos primórdios do carnaval urbano, essas agremiações se aproximavam das grandes sociedades. Com o fortalecimento dos concursos carnavalescos, especialmente nos anos 1920, passaram a incorporar características dos ranchos, então mais valorizados.


Entre as décadas de 1930 e 1950, blocos ligados a repartições públicas voltaram a se assemelhar às grandes sociedades, refletindo o contexto institucional da época. Já a partir dos anos 1960, com a consolidação das escolas de samba, emergem os blocos de enredo, em diálogo direto com esse modelo.


Nas últimas décadas, novas transformações ampliaram ainda mais esse espectro: blocos que dialogam com a lógica das festas, incorporam DJs, experimentam repertórios diversos e redefinem o próprio sentido do cortejo. Essa plasticidade acompanha mudanças sociais, políticas, culturais e tecnológicas. Não por acaso, segundo Ribeiro, os blocos são as manifestações carnavalescas que melhor dialogam com a internet.


"O formato estético dos blocos foi se transformando muito com o restante do cenário carnavalesco, mas também com a sociedade, com a política, com a moda, com tudo isso, com todas as transformações que o país e o mundo foram passando. Os blocos foram incorporando isso. A gente pode pensar que os blocos são os que melhor dialogam, por exemplo, com a internet, porque os blocos conseguem surgir do dia para a noite, se cria um perfil na internet e no dia seguinte o bloco já nasce vivo com as pessoas lá", contextualiza.

Outro ponto central do livro é a origem quase simultânea dos blocos no Rio de Janeiro e no Recife. O autor associa esse fenômeno ao uso nacional do termo “bloco”, popularizado a partir da eleição presidencial de Afonso Pena, em 1906, quando uma coligação política adotou essa denominação. A partir daí, surgiram blocos literários, esportivos e carnavalescos em diferentes regiões do país.


Os caminhos, no entanto, começam a se diferenciar quando o carnaval passa a ser oficialmente organizado pelo poder público, com concursos centralizados. Enquanto as escolas de samba se estruturam desde cedo em torno da competição oficial, os blocos mantêm uma relação mais livre com esse sistema.


Essa liberdade ajuda a explicar tanto a vitalidade quanto a tensão permanente que marcam a trajetória dos blocos. Ao mesmo tempo em que são exaltados como motores do turismo e da economia — reunindo milhões de foliões e superando, em número de público, os desfiles do Sambódromo —, também enfrentam perseguições, restrições e tentativas de controle. Sem um local único de desfile e sem regulamentos rígidos, os blocos ocupam a cidade inteira e desafiam modelos tradicionais de ordenamento urbano.


Ribeiro identifica nos anos 1980 um marco importante: o período da redemocratização, quando os blocos de rua passam a ser valorizados de forma mais consistente pelo poder público e pela imprensa. A ideia de liberdade — de entrar, sair, participar sem vínculos prévios — ganha centralidade e redefine a percepção sobre essas manifestações. Ainda assim, a tensão entre criminalização e exaltação permanece, refletindo uma história mais ampla de perseguição ao carnaval desde o período do entrudo.


No livro, o autor também provoca debates contemporâneos, como a chamada “retomada do carnaval de rua”, os megablocos, a privatização do espaço público e o ordenamento da festa. Para ele, categorias como “megabloco” não são consensuais. O que define esse tipo de bloco não é necessariamente o formato artístico, mas a escala, a quantidade de foliões e a estrutura exigida do poder público. Nesse sentido, tanto um desfile com artistas populares quanto o tradicional Cordão da Bola Preta podem ser considerados megablocos.


Ao discutir perdas e reinvenções, Ribeiro evita nostalgias fáceis. Para ele, os blocos existem enquanto fizerem sentido para as pessoas. Não têm obrigação de durar nem de repetir fórmulas. “Quando a gente acha que entendeu o que é um bloco, ele já mudou”, sugere o autor, sintetizando a essência de uma manifestação que se reinventa em movimento:


“Os blocos vão se ressignificar. Isso não quer dizer que o modelo anterior não continue. A gente tem os blocos da retomada até os dias de hoje Alguns estão encerrando, mas outros continuam. É isso, o bloco não tem obrigação de continuar a existir. Ele só existe porque as pessoas estão interessadas nele. Enquanto tiver gente interessada, enquanto aquilo fizer sentido, ele vai continuar existindo”.


Serviço




Os Blocos do Carnaval Carioca, de Tiago Ribeiro, tem preço de capa de R$ 69,90 e pode ser adquirido de três formas: pelo site da Editora Multifoco (@edmultifoco), pela Amazon @amazonbrasil) ou diretamente com o autor, por meio de seu perfil no Instagram (@tiago.ri).

.


 
 
 

Comentários


White on Transparent.png

Inscreva-se no site para receber as notícias tão logo sejam publicadas e enviar sugestões de pauta

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube

Obrigado por inscrever-se!

@2022 By Jornal Pimenta Rosa

bottom of page