Cansar também é político: burnout, neoliberalismo e a urgência do cuidado na comunidade LGBTQIAPN+
- Ronaldo Piber

- 31 de jul. de 2025
- 2 min de leitura

Ronaldo Piber*
Vivemos tempos acelerados. A produtividade virou mantra. A vida virou planilha. E no meio dessa corrida sem linha de chegada, a saúde mental grita — muitas vezes em silêncio. O burnout, oficialmente reconhecido pela OMS como um fenômeno ocupacional, tem deixado marcas profundas, especialmente entre pessoas LGBTQIAPN+. E não por acaso.
Na lógica neoliberal, somos levados a crer que o sucesso é resultado exclusivo do mérito individual. Que basta “correr atrás” e “não desistir nunca” para chegar lá. Essa mentalidade do faça mais, aguente mais, produza mais transformou o descanso em luxo e o sofrimento em fraqueza.
A chamada hustle culture — a cultura do corre — naturaliza jornadas exaustivas, valoriza a hiperdisponibilidade e glamouriza o cansaço. As redes sociais reforçam essa lógica, com posts motivacionais que nos empurram para o abismo da autoexploração. Dormir virou perda de tempo. Adoecer virou sinal de incompetência. E o cuidado, um ato subversivo.
Para a população LGBTQIAPN+, essa equação é ainda mais perversa. Não basta ser produtivo: é preciso provar o próprio valor em espaços onde a aceitação ainda é condicional. Muitos de nós somos pressionados a vestir a armadura do profissional impecável para sobreviver à LGBTfobia no ambiente de trabalho. O medo da demissão por ser quem se é, o esforço de “passar despercebido”, o peso do preconceito mascarado de piada — tudo isso cansa. E não é pouco.
Estudos mostram que pessoas LGBTQIAPN+ têm maior risco de desenvolver transtornos como ansiedade, depressão e burnout. Não porque são frágeis, mas porque enfrentam mais barreiras — sociais, institucionais e afetivas — que os demais. Vivem um duplo turno: o da sobrevivência e o da resistência.
Falar sobre burnout é, portanto, falar de estrutura. É reconhecer que a saúde mental não se esgota na esfera individual, mas está ligada às condições de trabalho, de moradia, de afeto e de pertencimento. E é, sobretudo, reconhecer que cuidar de si em um mundo que exige nossa constante performance é um ato político.
Precisamos de ambientes seguros, de políticas públicas de saúde mental que acolham a diversidade, e de uma nova ética coletiva que valorize o descanso, a escuta e o cuidado mútuo. Precisamos parar de romantizar o cansaço. Não somos máquinas — e, mesmo que fôssemos, até máquinas quebram.
Se você sente que está no limite, saiba: você não está sozinho. Pedir ajuda não é fraqueza — é coragem. E descansar não é desistir — é sobreviver. Numa sociedade que exige que a gente se cale, se esconda e se sobrecarregue, descansar é uma forma de dizer: “Eu existo. E meu bem-estar importa.”
*Ronaldo Piber é advogado e colunista do Pimenta Rosa




Comentários