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Carta aberta de Toni Reis ao Ratinho sobre Erika Hilton: da datilografia à inteligência artificial

  • Foto do escritor: Toni Reis
    Toni Reis
  • há 6 horas
  • 5 min de leitura


Caro Ratinho,


Você é hoje um grande formador de opinião para muitos setores da sociedade brasileira. Por isso resolvi lhe escrever esta carta aberta, com respeito, memória e também um pouco de humor — porque, afinal, o humor sempre foi uma das suas marcas.


Eu me lembro de você lá atrás, quando ainda era aprendiz do apresentador Alborghetti, aqui em Curitiba. Eu estive em alguns dos seus programas, lá pelos idos dos anos 1980 e início dos 1990. Naquele tempo você ainda não era famoso, não era milionário; fazia um programa regional. Mas uma coisa já era clara: você era bem-humorado, espontâneo e tinha uma conexão verdadeira com o povo.


Era outro mundo.

Não existia celular.

Não existia internet.

Não existia WhatsApp.

Não existia Instagram.

Não existia LGBTI+, éramos GLS, para alguns bichas e sapatões


A gente se encontrava no estúdio, conversava olho no olho e, no máximo, telefonava de um aparelho com fio.


Você sempre trouxe muito da sua origem, de Jandaia do Sul, do interior, da vida simples. E isso é bonito. Mas o mundo mudou.


Hoje temos internet, redes sociais, inteligência artificial. Nós LGBTI+ conquistamos muitos direitos.


Você tem um programa nacional e uma trajetória de sucesso.


A vida caminhou.

Eu também caminhei.


Hoje tenho 62 anos. Naquele tempo, pessoas como eu não podiam casar, não podiam adotar filhos, não podiam viver plenamente suas famílias. Hoje estou casado com meu marido inglês há 36 anos. Adotamos três filhos. Todos estão criados, estudando, trabalhando, construindo suas vidas.


A sociedade evoluiu.


E é justamente sobre evolução que eu queria conversar com você.


Ao longo dos meus estudos — fiz dois pós-doutorados, depois estudei História e agora estudo Filosofia — tenho pensado muito sobre a condição humana. Sobre eu, você e os outros oito bilhões de seres humanos na terra.


Nós somos seres complexos.

Somos biológicos, sim.

Mas também somos psicológicos.

Somos sociais.

E somos culturais.


Biologicamente, pertencemos à mesma espécie.

Psicologicamente, ninguém é igual a ninguém.

Socialmente, nos organizamos em comunidades.

Culturalmente, aprendemos formas diversas de viver e compreender o mundo.


É dentro dessa complexidade que existem as pessoas trans. Elas sempre existiram. Existiram na África antiga, no Egito, entre os povos sumérios. Na própria Bíblia aparecem figuras que hoje entenderíamos como pessoas de gênero diverso — na época chamadas de eunucos. Ou seja: não é algo novo.


O que é novo é o reconhecimento.


E aqui chegamos ao ponto que motivou esta carta.


Quando você fala sobre a deputada Erika Hilton, muitas vezes diz que “não tem nada contra”. Mas algumas falas acabam despertando algo complicado: uma sensação de desqualificação ou de não reconhecimento.


E veja: Erika Hilton é reconhecida socialmente como mulher.

Culturalmente vive como mulher.

Psicologicamente tem identidade de gênero feminina.

É assim que a sociedade a conhece.


Nesse ponto, lembro de dois filósofos da Grécia Antiga que tenho estudado. Os pre-socráticos, um deles é Heráclito, que dizia que tudo muda. Para ele, a vida é movimento. Nada permanece exatamente igual. Ele dizia algo muito bonito: quando atravessamos um rio, na próxima vez não seremos a mesma pessoa e o rio também já terá mudado.


O outro filósofo é Parmênides, que defendia quase o contrário: para ele, o ser é permanente, imutável, e a verdadeira realidade não muda.


Veja que curioso.


Às vezes, quando você fala dessas questões dizendo que tudo precisa permanecer como sempre foi, parece que você está um pouco mais próximo de Parmênides — como se nada pudesse mudar.


Mas o mundo não é só Parmênides. O mundo também é Heráclito.


Aliás, eu mesmo sou um pouco Parmênides em algumas coisas — como dizem meus amigos mais progressistas, que brincam comigo: “Toni Reis, você é meio heteronormativo”.


Talvez eles tenham um pouco de razão. Estou casado com o mesmo marido há 36 anos.

Uso aliança. Casei na igreja. Batizei meus filhos na Igreja Católica. Sou defensor intransigente de todas as famílias. Ou seja, em algumas coisas eu também gosto da permanência, da tradição e de certos valores.


Mas a vida também nos ensina que mudar faz parte.


Deixa eu lhe contar um pequeno episódio da minha própria vida, que inclusive você acompanhou em seu programa. Quando eu tinha 14 anos e contei para minha mãe que era gay, ela ficou desesperada. Éramos uma família do interior, cristã, simples e conservadora. Minha mãe, coitadinha, uma mulher de poucas letras, pensou que eu estivesse doente. Naquele momento eu mesmo me sentia assim, porque era isso que a sociedade ensinava. A primeira reação dela foi tentar me ajudar da única forma que sabia: “vamos levar você ao médico, vamos buscar um tratamento”. E nós fomos até Pato Branco para tentar me curar da homossexualidade.


Veja só como a vida é.


Naquele momento, minha mãe pensava daquela forma. Era o que ela conhecia, era o que ela havia aprendido.


Mas o tempo passou.


E aos 32 anos, quando eu voltei da Europa com meu companheiro Inglês David, foi essa mesma mãe que se dispôs a casar com ele no civil para que ele não fosse deportado. Foi graças a essa atitude de amor incondicional e as repercussões que teve que se abriu o caminho para ele conseguir o visto de residência permanente no Brasil, sem precisar se casar com a minha mãe.


Minha mãe mudou. Ela aprendeu. Ela cresceu junto comigo.


Por isso eu acredito profundamente na capacidade humana de transformação. E é por isso que eu também acredito que você pode mudar.


Então eu te faço uma pergunta bem simples, com uma pitada de humor:

Será que vamos voltar ao telefone de disco e abandonar o nosso iPhone 17?

Será que vamos voltar à máquina de datilografia?

Ou podemos seguir evoluindo — agora da datilografia para a inteligência artificial?



O caminho do diálogo.


Porque eu te conheço há muito tempo. Porque acredito que conversar é melhor e podemos nos entender. E porque o Brasil precisa mais de pontes do que de muros.


Então fica aqui o convite:

Vamos conversar.

Vamos tomar uma cachaça ou um vinho.

Vamos rir um pouco como nos velhos tempos.


A deputada Erika Hilton fará um grande trabalho na Comissão das Mulheres. E a democracia brasileira segue em frente.


No final das contas, somos todos brasileiros. Héteros, homossexuais, cisgêneros e transgêneros. Todos unidos pelo mesmo país, pela mesma esperança e pela mesma soberania. E como diz o nosso lema mais conhecido: somos brasileiros e não desistimos nunca.


Porque uma sociedade forte não é aquela em que ninguém muda — é aquela em que todos aprendem a evoluir sem perder o respeito.


Com respeito,


Toni Reis

Um aprendiz da vida


*Toni Reis é Doutor em Educação / Diretor-Presidente da Aliança Nacional LGBTI+ / Diretor-Presidente da Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas - Abrafh / Diretor Financeiro da Rede GayLatino / Diretor Executivo - Grupo Dignidade

 
 
 

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