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IGNORÂNCIA

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • há 3 horas
  • 7 min de leitura

Quem não tem colírio usa óculos escuros... Quem não tem filé come pão e osso duro... Quem não tem visão bate a cara contra o muro”. Raul Seixas


Criado pelo ChatGPT
Criado pelo ChatGPT

 

*Eduardo Papa

  

Aproveitando o gancho de um dos meus grandes ídolos musicais, relembro de uma frase que ouvi diversas vezes do meu sábio avô João: “Pode plantar qualquer semente, mas a única coisa que brota no asfalto é trouxa”. Com efeito, o que me parece mais barato de ver por aí é trouxa correndo de peito aberto para dar de cara contra a parede. Como explicar essa doideira em que um punhado de bilionários detém a parte do leão da riqueza mundial e milhões de miseráveis, econômica ou intelectualmente falando, acharem que é assim mesmo que o mundo tem que ser?

 

Ora, a tendência a concentração do capital é uma lei econômica formulada por Karl Marx solidamente comprovada, os reis da mina e da fornalha do séc. XVIII e XIX eram muito mais numerosos que o diminuto círculo de plutocratas financistas de hoje em dia, que exercem um poder muito maior sobre a economia mundial do que seus antecessores. Mesmo depois de tudo o que vivemos no século passado, guerras mundiais e o colonialismo, a desigualdade econômica é cada vez maior (expurgando os dados da China, onde o êxito do programa de erradicação da pobreza prova que o mundo poderia ser diferente), e cresceu junto com a sofisticação dos meios de controle social. Um número cada vez menor de bilionários consegue manipular populações inteiras, e estão promovendo uma escalada neofascista ameaçadora em nível mundial. A pergunta que não quer calar é por que apesar das sociedades sujeitas ao neoliberalismo gerarem cada vez mais miséria e concentração de renda, um grande número de despossuídos sustenta politicamente as propostas e a hegemonia do grande capital?

 

Eu tenho muito dó de ver pessoas exploradas intensamente que defendem fervorosamente a estrutura que suga suas vidas, gotícula por gotícula, dia após dia. Estudos acadêmicos buscam lançar a luz sobre a questão, não posso deixar de citar nosso grande sociólogo Jessé de Souza, que em sua obra “O pobre de direita” aborda o assunto com um brilhantismo esclarecedor. Na verdade são múltiplos os instrumentos construídos para garantir a dominação da alta burguesia financeira sobre a grande maioria da população mundial. O avassalador poder dos meios de comunicação, potencializado pela disseminação do uso da internet; a influência crescente das denominações neopentecostais do cristianismo; a pura e simples brutalidade policial militar, que em muitos casos embota qualquer tipo de reação política; a ação política de um exército de propagandistas do capital recrutados entre as classes subalternas. Enfim, um vasto elenco de alternativas está disponível para a afirmação continuada do poder do capital nas sociedades impregnadas pelo neoliberalismo. Porém, todos esses instrumentos de manutenção do controle ideológico são apenas meios para alcançar o objetivo, a questão crucial é definir qual elemento essencial é explorado por todos esses caminhos para conseguir o entorpecimento das mentes, e a cooptação das pessoas para a defesa de políticas que resultam em sua própria ruína? É a ignorância.

 

Dês que Pandora abriu a caixa em que Epimeteu guardava os males da humanidade, que a ignorância assumiu um lugar de destaque nas tragédias da história de nossa espécie sobre a terra. Tudo em nossa vida tem finitude, além dela própria é claro, o conhecimento que podemos armazenar, o desempenho que nosso corpo pode alcançar. A exceção da esperança, cujo agente da destruição Epimeteu conseguiu manter aprisionado, tudo tem limite, a ignorância, entretanto, desafia esses limites. Como explicar que na era das viagens espaciais ainda existam pessoas para os quais o universo seja como foi descrito por Cláudio Ptolomeu há milhares de anos? Ou que milhões de pessoas com a vida precarizada pela implantação de políticas neoliberais, defendam de maneira renhida a política de estado mínimo e a restrição de políticas de apoio social?

 

Há uns dois anos atrás, eu estava remexendo as prateleiras da livraria Eldorado, quando me deparei com o livro do historiador britânico Peter Burke, Ignorância: uma história global. Percebi imediatamente o valor da obra e fui direto ao caixa, comecei a leitura ainda na condução indo para casa. Sob o prisma da análise histórica, o autor descreve a ignorância como algo muito além da privação do conhecimento das coisas, mas investiga suas origens diversas, identificando a existência de múltiplas formas de ignorância, da mesma forma que tratamos as inteligências (inteligência espacial, emocional, etc.). Burke esboça um glossário com vários tipos de ignorância, desde a ignorância genuína ou pura, devida a simples ausência do acesso ao conhecimento, até a ignorância ativa ou interessada, daquele que não quer saber, muito embora tenha acesso ao conhecimento.

 

Vejamos, por exemplo, como a escola pública no Brasil vem se tornando no lócus privilegiado de manutenção e disseminação da ignorância. Como apontou Darcy Ribeiro, as precariedades impostas ao sistema educacional brasileiro, não são resultado de uma crise em um sistema que busca a excelência, mas sim um projeto deliberado da classe dominante do país para manter pobre e deficiente a instrução das classes subalternas (um dos pilares básicos de sustentação política da ordem neoliberal, identificados por Noam Chomsky). A despeito de importantes investimentos no setor, da ampliação da cobertura da escolaridade, do aumento da permanência dos estudantes nas escolas, os índices de proficiência apurados pelas avaliações existentes continuam baixíssimos, entre os piores do mundo! Como transformaram nossas escolas em manufaturas da ignorância?

 

Em primeiro lugar, a falta de transparência e o controle direto da administração por agentes políticos locais, o que faz vicejar a ignorância organizacional, que barra o desenvolvimento de formas democráticas e participativas de gestão, abrindo as portas para a politicagem e a corrupção escancarada, como vimos no episódio do orçamento secreto, em que Arthur Lira mandou comprar kits de robótica para escolas em seu reduto eleitoral, que nem sequer tinham fornecimento regular de energia elétrica. Nossos pobres estudantes parecem condenados a concluírem sua escolaridade como analfabetos funcionais, sujeitos a currículos escolares feitos sob medida para o apagão no magistério que vive o país, com a multiplicação da exploração de saberes de duvidosa validade, como forma de melhor administrar a escassez de mão de obra qualificada. Os pais e a sociedade em geral, levam para dentro da escola sua ignorância interessada ou seletiva, com a qual mascaram as verdadeiras causas da ineficiência no aprendizado, apontando como causas algumas de suas  consequências, como uma possível desídia dos profissionais, ou o desinteresse dos jovens pelo estudo, evitando olhar para as reais causas da destruição da escola de seus filhos, o que poderia exigir uma incômoda reflexão sobre suas próprias escolhas políticas.

 

A confluência de ignorâncias variadas na educação brasileira transborda na abundante e variada ignorância cultivada em parte da população, que explodiu aos olhos de todos com o advento dos chamados patriotarios. Que nível de dissonância cognitiva pode levar uma pessoa a defender uma ditadura militar repressora para sua própria sociedade, afirmando lutar pela liberdade individual? O que pode parecer beirar às raias da demência é uma ignorância primária, a meta ignorância ou a ignorância de sua própria ignorância, que leva a perda da noção do ridículo e nos proporcionou cenas verdadeiramente dantescas, ilustrando até onde pode ir o poder da desinformação aplicada no controle político ideológico.

 

A ignorância profunda acometeu setores importantíssimos de nosso tecido social, desde os militares com uma ignorância resoluta em negar o conhecimento do sentido de sua própria existência e papel na sociedade, até a ignorância intencional da elite empresarial, que aposta contra o desenvolvimento do país para ganhar com juros elevados na ciranda financeira. A ignorância moral grassa entre o segmento religioso, com líderes difundindo preconceitos para esconder o que de fato é certo ou errado, enquanto representantes da área política praticam a ignorância estratégica, para manter seu eleitorado imerso na ignorância deliberada.

 

Ouso dizer que a ignorância para o capitalismo liberal não é apenas desejável ou tolerada, ela é essencial! A prova é que no país em que o neoliberalismo teve maior sucesso, os EUA, a população vive imersa em profunda ignorância, alimentada não apenas por uma indústria cultural que privilegia a mediocridade, mas também pelo sistema escolar que condena os pobres ao obscurantismo e os ricos ao racismo supremacista. O resultado é uma sociedade violenta e discricionária, que parece caminhar a passos largos para sua própria destruição, com o potencial de arrastar uma boa parte do mundo junto. E para nossa desgraça aqui no Pindorama não faltam adoradores do Tio Sam, agentes da importação de toda essa treva, que há quase um século impede o Brasil de se tornar uma nação forte e soberana, capaz de prover a abundância e liberdade para seu povo.

 

O subproduto mais perigoso do império da desinformação é o crescimento da extrema direita mundial. A escalada de ascensão do fascismo mundo afora depende da disseminação de preconceitos para questionar o pensamento crítico e a ciência. As grandes empresas de tecnologia, paradoxalmente, usam a ciência da computação mais avançada para garantir a bestialidade das massas, apresentando um vasto menu com opções de preconceitos para garantir a reprodução de tolos, o tipo de gente capaz de segurar o bandeirão dos EUA na Av. Paulista, por exemplo. A pobreza intelectual vem atingindo patamares de tal magnitude que estudar tornou-se um ato de resistência, por isso governadores de direita perseguem nossos professores, censurando a sua atuação e os mantendo em condição miserável.

 

Penso eu, que o confronto final da humanidade entre o bem e o mal, o Armagedon bíblico, será uma guerra entre o conhecimento científico e racional e o obscurantismo em suas diversas apresentações. Claro que ninguém pode garantir o resultado final, que pode não ser o mesmo em todas as partes do planeta, enquanto algumas sociedades asiáticas se encontram bem preparadas para a batalha, a velha Europa parece estar afundando agarrada aos EUA em um oceano de misticismo e preconceitos. Nessa luta entre a luz e as trevas eu sou otimista com relação ao nosso país pois, apesar das limitações que enfrentamos, aqui há diversidade e pluralidade. Conseguimos, aos trancos e barrancos, montar uma sociedade em que os diferentes são obrigados a aceitar uns aos outros, em que respeito e tolerância são lei e regra de convivência social.

 

Teremos é claro que lidar com essa maré reacionária mundial, aqui representada pelo bolsonarismo. Para lidar com essa tarefa espinhosa há dois caminhos, dependendo do tipo da ignorância a cada um acometida: aos incautos que apóiam sua própria desgraça por ignorância genuína, cabe oferecer o esclarecimento pelo debate público; já para as pessoas que praticam a ignorância ativa e sentem grande orgulho dela, rejeitando com insultos e ódio qualquer tipo de questionamento, não há salvação. Mas eu confio que a nossa rapaziada vai botar essa turba para correr, mais uns dois ou três carnavais, e vai cair a ficha do ridículo que passaram. Que vão lá lamber as botas do Tio Sam que tanto veneram, e se entender com o ICE. Também podem ir para Portugal, para serem maltratados nas ruas pelos salazaristas. Parece que muitos escolheram ir para o Paraguai, boa viagem! Só não dá para ir mais para a Argentina, pois lá estão comendo os burros.

 

   

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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