DEU A LOUCA NO MUNDO
- Eduardo Papa*

- 17 de ago. de 2025
- 6 min de leitura
Eduardo Papa*

Depois que descobriram que a terra é plana, o mundo não dá mais volta, capota. E é cada tranco de cair o queixo de quem estuda história e acompanha a evolução política mundial das últimas décadas. Situações inimagináveis até pouco tempo, viram realidade e destroem as teorias de analistas em todos os rincões da terra, parece que o mundo virou de pernas para o ar, consensos que pareciam estáveis se desmancham no ar, movimentos geopolíticos bruscos reorientam a ação de importantes players, com decisões imprevistas e de consequências imprevisíveis. Ninguém sabe ao certo o que está acontecendo. Nessa semana, dois jornalistas relevantes na imprensa brasileira apresentaram análises diametralmente opostas sobre o mesmo assunto. Enquanto Jamil Chade apontava para a gravidade da escalada do ataque dos EUA ao Brasil, considerando o movimento como uma preocupante continuidade do golpe de
estado contra a democracia brasileira, Otávio Guedes dava o bolsonarismo como derrotado e isolado, com os “patriotários” condenados ao ridículo e à execração pelo povo brasileiro. E você leitor, qual o seu palpite? Muito difícil fazer afirmações peremptórias sobre quase tudo. Quem diria que os supostos patriotas extremados, que viviam abraçados à bandeira nacional e gritando slogans patrióticos, iriam estar nas ruas, com cartazes em inglês e bandeiras dos EUA, defendendo o ataque de Trump ao Brasil? Coisa de doido? Bem se entrar no meio da turma vai ver que coerência não é o forte dessa gente cheia de fé, afinal pagam pau para Israel (já vi até umas senhorinhas dizendo que Israel é um país cristão), justificando o genocídio dos palestinos, operado pela mesma teocracia que crucificou Jesus.
Já que falamos em teocracia no Oriente Médio, essa região foi o palco de uma das maiores surpresas que ocorreram recentemente. Desde o século VII, quando os muçulmanos persas se revoltaram contra a aristocracia árabe que dominava o Islã, e a sangrenta Revolução Abássida dividiu o mundo muçulmano em duas vertentes antagônicas, que pareciam irreconciliáveis – os sunitas e xiitas, essa rivalidade secular, amplamente utilizada pelo colonialismo europeu na submissão dos povos locais, aparentemente, está sendo rapidamente superada. Enquanto uma organização religiosa xiita (o Hammas) assume a liderança entre a população sunita da palestina, o Rei da Arábia Saudita (principal líder sunita) estabelece relações com o clero xiita de Teerã. A CIA criou o Talibã no Paquistão para fustigar a URSS, e o Talibã expulsou os EUA do Afeganistão em uma derrota humilhante. O Estado Islâmico era o maior inimigo dos EUA, com a fama de cortadores de cabeça, agora, continuam cortando cabeças, mas governam a Síria com o apoio de Israel, dos EUA e de todo o ocidente. Os Houtis, que há poucos anos pareciam estar destinados à extinção pela fome, botaram para correr uma esquadra dos EUA e arruinaram o comércio de Israel no Mar Vermelho. Israel tremeu nas bases ao descobrir o poder dos mísseis do Irã e não consegue mais sustentar seu exército em campanha na Faixa de Gaza.
E a tão bela e tão desenvolvida Europa? Meca de intelectuais em busca de liberdade e respeito aos direitos humanos, destino de milhões de trabalhadores do mundo inteiro em busca de oportunidades e proteção social. Tem cidades em que até turistas estão sendo escorraçados, trabalhadores imigrantes então, estão comendo o pão que o diabo amassou. Partidos de direita comandam a maioria dos países e o neonazismo surge com grande força no continente. A União Europeia se transformou em um barril de pólvora, com a violência social e racial eclodindo em vários pontos, e a resposta por toda parte é a repressão, o estado policial começa a ser a regra no civilizado velho continente, em que as tão propaladas liberdades agora são seletivas. Acha que não? Tire uma bandeira palestina da bolsa em qualquer capital europeia, talvez suas férias acabem mal. Mesmo os países nórdicos, com uma fama enorme de justos pacifistas, hoje são furiosos falcões, exigindo que a Ucrânia lute até o último homem em sua guerra perdida contra a Rússia. Rússia que experimentou outra guinada radical. Quem diria que a pátria do feminismo e da igualdade entre os sexos, a terra da União Soviética, que chegou a abolir oficialmente o casamento, seja hoje governada pelo maior “fiscal de cu” do planeta, que se apresenta ante suas tropas ostentando ícones religiosos da Igreja Ortodoxa, da
mesma forma que os antigos czares.
Na África, o regime comunista de Angola apanhou empréstimos com o FMI, como resultado submeteu-se a regras draconianas de privatizações e ajuste fiscal, aumentou o preço do diesel e uma revolta popular eclodiu, a repressão está sendo brutal e há dezenas de mortos. Um cenário igual ao que estamos acostumados a ver nas nossas repúblicas de bananeiras. Mas teve também viradas positivas, a Etiópia, por exemplo, alcançou uma taxa de crescimento das mais elevadas do mundo, entrou nos BRICS, e está ostentando uma prosperidade invejável para os padrões do continente. Outro “livramento” está ocorrendo no Sahel (região entre o deserto do Saara e a África Equatorial), onde, liderados pelo capitão Traoré, Niger, Chade Burkina Fasso estão se livrando do colonialismo francês, descortinando um caminho de esperança em uma das regiões mais pobres e exploradas do mundo. Enquanto, na África do Sul, rola uma rebelião de supremacistas brancos, exigindo de volta as terras perdidas na reforma agrária que sucedeu o fim do apartheid, indignados por perderem as terras que seus
pais e avós tomaram dos africanos a ferro e fogo.
Na Nuestra América também deu a doida. Nayib Bukele inovou em El Salvador, transformando seu país no primeiro do mundo a adotar o bitcoin como moeda oficial, e parece caminhar para criar o primeiro país presídio também. Na Venezuela, o inferno no imaginário dos patriotários, desde que os EUA voltaram a comprar petróleo com eles, que os supermercados tem de tudo para vender nas prateleiras, embora nem todos possam comprar tudo o que gostariam, como em toda parte né? Osso mesmo estão roendo nossos hermanos, a turma da motosserra acabou com a Argentina, churrasco lá agora é que só título na Libertadores da América, só restou a lembrança do cheirinho. Hoje, o melhor negócio para os frigoríficos argentinos é comprar carne no Brasil e revender para os EUA, burlando as tarifas de Trump. Aliás, o presidente cor de doritos é a cereja do bolo dessa enorme bagunça mundial.
O mundo inteiro foi obrigado, por décadas, a engolir o discurso de que os EUA era o paladino da liberdade e defensor da democracia. A balela de que a sociedade racista e retrógrada estadunidense é a guardiã e defensora do mundo livre, teve, e tem ainda, muito sucesso em todo o mundo, impulsionada por uma hegemonia midiática avassaladora. Tudo isso soa ridículo quando circulam imagens de trabalhadores honestos agarrados nas ruas, algemados e deportados, famílias separadas e vidas destruídas, uma maldade sem fim! A peculiar democracia dos EUA tem hoje 51 deputados do Texas sob ordem de prisão, foragidos em seu país, por recusarem-se a votar uma mudança nas regras eleitorais para favorecer o partido republicano ano que vem. A escalada fascista de Trump é uma realidade, as ruas de Washington e Los Angeles são patrulhadas por tanques e tropas militares. Trump tentou um golpe de estado quando perdeu as eleições e não foi punido, Pretende tentar outro, a bronca dele com o Xandão e o julgamento do Bolsonaro é o efeito orloff, do eu sou você amanhã. Está claro, e só não vê quem não quer, que esse negócio de EUA terra da democracia e do respeito aos direitos humanos é fakenews da grossa.
Caíram todas as máscaras! Assim como o mito da democracia, a farsa do liberalismo
econômico ruiu em uma canetada. Toda aquela conversinha de desregulamentação para
permitir a livre ação da mão do mercado, valia quando estavam por cima e não havia
concorrência, agora o jogo é outro, o negócio é fazer a grandeza da América e que se dane o resto do planeta. E quem ousar contestar que a moeda que eles imprimem, sem qualquer controle, seja a única através da qual os países possam transacionar, está sujeito a todo tipo de ameaça, inclusive militar. O sonho americano transformou-se no mais terrível pesadelo para seu próprio povo, a miséria bate à porta do país mais rico do mundo, e a plutocracia que se instalou em Wall Street, não parece inclinada a dividir coisa alguma, muito menos ainda em seu quintal.
A maior surpresa de todas é o papel crucial que o Brasil acabou ocupando em todas essas mudanças. Lula tem se saído muito bem, conseguindo a façanha de cacifar-se como uma importante liderança mundial, a despeito da quinta coluna poderosa que enfrenta internamente. Nós brasileiros que fiquemos espertos, porque aqui se dará a batalha decisiva para os caminhos da nova ordem mundial, se o Brasil botar o pé na porta e barrar esse ímpeto do império de reavivar os vínculos coloniais, a nova era multipolar há de prosperar mais rápido.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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