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Dubai: do pó veio e ao pó retornará

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

 

*Eduardo Papa

 

Os geógrafos criaram um termo para definir as áreas do globo inóspitas e de difícil ocupação pelos seres humanos – o anecúmeno. Dubai é um dos exemplos mais clássicos dessa configuração, praticamente desprovida de água doce, com um calor sufocante que passa fácil dos 50 graus, sujeita a tempestades de areia e onde a agricultura é praticamente impossível. Embora esteja ao lado do berço das primeiras civilizações, como a Pérsia, a Mesopotâmia e o Egito, sempre foi uma região praticamente despovoada. Até a década de 60 do século passado, Dubai era um pequeno porto que sobrevivia graças aos pescadores de pérolas, quando a riqueza do petróleo propiciou uma das mais icônicas transformações urbanas da história humana.

 

Após 1945, o Império Estadunidense adonou-se da área, escolheu algumas famílias de confiança e as entronizou como soberanas em países que criou. Reis, sheiks e emires, títeres das companhias petroleiras, tornaram-se riquíssimos com a parcela que recebiam para administrar seus países desérticos e pouco povoados. O clã de Al Nahyan, que foi aquinhoado com a região de Dubai, acumulou uma fortuna hoje estimada em cerca de 1,4 trilhão de dólares, o xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan, o fundador que governou o país por 30 anos e orientou a ação de seus sucessores, desenvolveu a estratégia de transformar seu país em uma espécie de parquinho para os bilionários do mundo. Aproveitou a localização chave entre três continentes e investiu pesadamente em companhias aéreas e infraestrutura aeroportuária, transformando o país na principal conexão entre oriente e o ocidente. O xeque não pretendia criar apenas uma estação de passagem, o projeto incluía criação de um paraíso fiscal de altíssimo luxo, oferecendo ao maravilhoso novo mundo neoliberal a sua Meca. Quem nunca ouviu alguém da nossa classe média, que mesmo vivendo no limiar da pobreza, dependendo do Estado para ter acesso à saúde, educação, aposentadorias, tecer loas ao maravilhoso lugar onde o Estado não cobra impostos? A fuleragem aqui é tão grande que lá em Santa Catareich criaram até uma Dubai brasileira – o famoso Balneário Camboriú.

 

Nas últimas décadas, um rio de dinheiro foi despejado no prosaico porto de pescadores de pérolas e o mundo viu surgir, no encontro das areias do deserto com o mar, a estonteante Dubai moderna, com seus arranha céus e hotéis de luxo, cuja vista aérea evoca um paraíso futurista. Porém, chegando um pouco mais perto a visão pode ser aterradora, décadas de construção em um ritmo frenético exigiram milhões de trabalhadores, que não estavam disponíveis no local, as monarquias sunitas desenvolveram então a chamada escravidão moderna. Trabalhadores recrutados nos países mais pobres da Ásia, que ao chegar tinham seus passaportes entregues a seus patrões e sujeitos a um regime de trabalho análogo a escravidão, empurrados para bairros periféricos miseráveis que não aparecem na foto. Em contraste com essa gente invisível, a cidade foi sendo ocupada por novos moradores de elevadíssimo poder aquisitivo vindos de toda parte do mundo, 85% de sua população é composta por estrangeiros, não existem mais de cem mil passaportes emitidos pelos EAU. Os técnicos, administradores, trabalhadores especializados de todos os setores são, em sua quase totalidade, estrangeiros, da mesma forma as tropas do exército são compostas por mercenários paquistaneses e indianos. O povo local ocupa-se das funções públicas ou é subsidiado pelo governo.

 

A construção em ritmo acelerado cobrou seu preço. O cartão postal da cidade, o aterro em forma de palmeira, que visto do céu impressiona, sugerindo uma conquista do homem sobre a natureza, cobra seu preço, milhões tem que ser gastos anualmente para conter a erosão marítima. Uma das vistas curiosas da cidade é a fila de caminhões que recolhem os dejetos humanos para levar para fora da cidade, uma vez que os arranha-céus não estão ligados a uma rede de esgotamento sanitário. Os prédios em sua maioria nem possuem uma numeração, pois na maioria das vezes eram construídos antes que suas ruas fossem concluídas, ou sequer tivessem nome. O que não tem muito problema, porque ninguém lá anda na rua, as vias são enormes, geralmente com 6 pistas de rolamento, mas quase não existem calçadas, os prédios são ligados por subterrâneos a shoppings e a toda parte. De dia não se anda na rua apenas de carro ou em locais refrigerados. Na pressa para a edificação da cidade, além de não construírem uma rede de esgoto, não criaram uma estrutura para o escoamento de águas pluviais, o que não seria um problema no deserto, mas a megalomania dos emires os levou a tentar transformar o deserto em bosque, investiram pesado em tecnologia para gerar chuva, e deu certo! Inauguraram a enchente no deserto.

 

Além dos problemas da construção, a engenharia social gerada é esquizóide. Pessoas de alto poder aquisitivo do mundo moderno cosmopolita, passam a viver sob um regime legal arcaico e extremamente rígido, onde comportamentos usuais e corriqueiros em quase todo o mundo podem levar a prisão. Nessa babel em que convivem russos, coreanos, ingleses e gente de toda parte, não há uma identidade cultural, na verdade a cultura existente resume-se a do consumo e ostentação (mais ou menos como a nossa Dubai, embalada pelo sertanejo universitário). O regime político é autocrático, como em todas as outras monarquias sunitas da Península Arábica, não existem eleições ou qualquer forma de participação da população na tomada de decisões, no máximo o soberano ouve a parentela mais próxima. Uma elite política que vive em um luxo pornográfico, torrando bilhões em carrões, iates, e jatinhos, criando leões e falcões como animais de estimação, e é odiada e temida pelo povo comum, que vê neles uma espécie de sucursal local do Sindicato Epstein (como sabemos o povo aumenta, mas não inventa).

 

Apesar de todo esse absurdo, a aparência é que tudo vinha dando certo, Dubai conquistou a fama de metrópole da prosperidade, que atrai a riqueza como um imã, virou sonho de consumo para os novos ricos do planeta, e destino certo para aventureiros, golpistas, mafiosos e corruptos do mundo inteiro, a exemplo de nossa classe dominante ordinária, que escolheu a cidade como destino de férias ostentação. Influenciadores digitais inundam as redes com vídeos de passeios das arábias, jogadores de futebol, pagodeiros, cantores sertanejos e mediocridades em geral estão sempre por lá. Não foi sem motivo que o governo Bolsonaro, um pária na diplomacia mundial, enviou nada menos que 160 missões oficiais para a região (3,3 por mês em média, mesmo considerando o período da pandemia), das quais resultaram negócios ruinosos para o Brasil, como a venda a rés barato das refinarias de petróleo da BA e RN para o grupo Mubadala dos Emirados Árabes, negócio fechado pelo Almirante de Esquadra que fazia o papel de contrabandista dos diamantes, com os quais a primeira dama era supostamente obsequiada pelos Sheiks.

 

Porém, no dia 28 de fevereiro, a casa caiu! Trump resolveu iniciar uma guerra de agressão contra o Irã, e arrastou para o conflito seus aliados locais. As bases militares estadunidenses foram atacadas pelos mísseis iranianos e as instalações militares dos EUA nos Emirados foram arrasadas, os soldados ianques fugiram para hotéis em Dubai, que passaram a ser atacados também, e a cidade mítica, criada para ser uma imagem do futuro, começou a se desmilinguir. O capitalismo é um sistema de violência em que a guerra é parte constitutiva, mas o capital é de uma covardia prodigiosa e tem horror ao risco, e a segurança que o mercado financeiro dos emirados oferecia aos investidores deixou de existir de uma hora para outra. Os estrangeiros começaram a fugir em debandada, primeiro foram os bilionários, capazes de alugar jatos por milhões, depois os trabalhadores especializados, os funcionários das lojas de luxo que estão fechando uma atrás da outra, e em breve todo mundo, até mesmo os trabalhadores braçais vão acabar indo embora. A vibrante metrópole futurista está ficando despovoada rapidamente e as perspectivas não são nada animadoras.

 

Ainda que a guerra acabe agora, o que não me parece provável, o estrago está feito e será muito improvável que a cidade volte aos dias de esplendor, a destruição da infraestrutura industrial e logística foi enorme e demandará anos e uma fortuna para ser reconstruída. No caso do pior cenário, a continuação da guerra será dramática para Dubai. Enquanto o Catar parece estar encontrando um caminho para dialogar com o Irã, e a monarquia saudita busca um jogo duplo, equilibrando-se entre a pressão dos EUA e as ameaças dos Aiatolás, assim como o Rei da Jordânia que se finge de morto. O Sheik do Bahrein saiu do país essa semana de maneira apressada, acossado por populares, seguindo o caminho do soberano do Kuwait, que meteu o pé logo após os primeiros ataques. Já os Emirados Árabes Unidos parecem ter comprado a briga dos EUA e de Israel, se dispondo a atacar o Irã, o que pode significar sua ruína. Caso Teerã resolva destruir o que ainda resta da infraestrutura econômica, especialmente as usinas de dessalinização da água do mar, seria o fim do país. E pelo visto não é uma tarefa que vá dar tanto trabalho assim a Guarda Revolucionária Islâmica,

 

Quem imaginaria esse cenário, os descendentes dos sheiks que andam de Rolls-Royces, podem ter que voltar a andar de camelo, como seus antepassados recentes. Enquanto a milenar Meca de Maomé continuará sendo o centro religioso do Islã pelos séculos vindouros, a Meca do capitalismo liberal pode não emplacar sequer mais alguns poucos anos, quiçá transformando em realidade o cenário de um filme distópico, que retrata uma cidade abandonada, com imensos prédios sendo engolidos pelas areias do deserto e pelas ondas do mar.  

 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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