ESTADOS desUNIDOS DA AMÉRICA
- Eduardo Papa*

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*Eduardo Papa
Os nomes dos diversos países do mundo geralmente dizem algo sobre a sua história, a origem de sua gente, ou alguma característica natural. A França é assim denominada devido a tribo dos Francos, que por lá fixou-se após a queda do Império Romano, da mesma forma o México herdou seu nome da principal civilização encontrada pelos colonizadores espanhóis, os mixtecas ou aztecas, nosso país herdou o nome de uma árvore, cuja extração foi a primeira atividade econômica aqui desenvolvida pelos colonizadores, Bangladesh é a terra do bang (o cânhamo, conhecido popularmente aqui como maconha), e por aí vai. É curioso que a maior potência mundial de nossos dias, simplesmente não tenha um nome próprio para chamar de seu, mas tão somente defina-se como uma união de estados federados localizados na América do Norte. O que foi conveniente para sustentar sua expansão territorial para o oeste, até o Oceano Pacífico, incorporando progressivamente na federação novos estados, conquistados aos povos originários, tomados pela guerra do México, ou comprados de potências coloniais européias em apuros financeiros.
Claro que essa realidade é historicamente determinada pela formação original do país, a junção de treze colônias fundadas por colonos vindos da Inglaterra, sem uma ligação muito estreita entre essas novas formações sociais. Essa diversidade era tão acentuada que em parte dos estados preponderava uma economia agrícola extensiva, tocada pelo trabalho escravo, enquanto em outros surgiu uma economia manufatureira, sustentada por uma agricultura de subsistência de pequenos lavradores. Uma dicotomia que conduziu o país a uma sangrenta guerra civil no séc. XIX, e gerou uma sociedade profundamente individualista e violenta. A cultura construída nessa expansão pela conquista armada das novas terras pelos colonos ingleses veio com a marca do racismo e da naturalização da violência contra os povos dominados, desde sempre tratados como inferiores pelos conquistadores. A imagem da sociedade estadunidense como um modelo de democracia, não resiste nem mesmo a uma visão superficial, a brutalidade com que perpetraram o genocídio dos povos originários, era comparável apenas a perversidade e hipocrisia dos bons cristãos escravocratas no trato com os africanos.
É um engano atribuir ao capitalismo neoliberal de nossos dias a perseguição aos pobres e o racismo estrutural, que caracterizam o país desde sua fundação. Podemos tomar o exemplo de Thomas Jefferson, um dos glorificados fundadores da nação, um latifundiário proprietário de um plantel de escravos, que pirou quando a revolução haitiana aboliu a escravidão. Desesperado com o poder do exemplo que vinha do caribe organizou o primeiro embargo comercial e bloqueio naval para sufocar o novo país (o que como vemos hoje é um instrumento recorrente da política externa dos EUA), e instou Napoleão a enviar um exército para sufocar a revolução, promovendo uma destruição de tal magnitude que o pequeno país jamais se recuperou. A democracia americana na verdade só teve uma oportunidade de prosperar, após 1865 no período conhecido como Reconstrução (após a Guerra Civil), quando os ex-escravos podiam votar e ser eleitos, regalia que acabou em 1877 com as leis de Jim Crow, que transformaram as eleições nos EUA na chicana que são até hoje, em que Trump pode pegar o telefone e pedir a um aliado que lhe “arranjasse” alguns milhares de votos durante a apuração do pleito. Um sistema fechado que garante que apenas dois partidos, com programas e propostas muito similares, tenham chances de governar.
A cultura dos EUA foi construída sobre o mito da excepcionalidade, no qual figuram como uma nação ímpar, superior aos demais povos do planeta, o que subliminarmente os garantiria a supremacia moral e o destino de dirigir a política no mundo. Essa concepção ganhou grande impulso nos anos de prosperidade do pós-guerra, quando a classe média branca dos EUA assume ares de paradigma a ser seguido pelo mundo, e os seus “valores”, são empurrados pela goela abaixo de toda a humanidade, com direito a tiro, porrada e bomba para quem não concordar, afinal junto com eles caminhavam os interesses econômicos de suas grandes empresas. O nosso século surgiu com a perspectiva de ser o século de ouro dos EUA, com a vitória na guerra fria e a dissolução da União Soviética, e com a China abandonando a Revolução Cultural e abrindo sua economia para as empresas multinacionais, a vitória do neoliberalismo parecia líquida e certa, e capaz de levar o “american way of life” para o mundo inteiro, só que não!
Os grandes capitalistas acharam uma boa idéia transferir suas plantas industriais para países em que a mão de obra era mais barata, como a China, a indonésia e outros, mantendo nos EUA apenas o controle das patentes e o desenvolvimento e inovação tecnológica. O efeito foi devastador para o mundo do trabalho nos EUA, o salário médio dos trabalhadores estadunidenses não cresce desde 1970, o que indica que todo o ganho de produtividade da economia no período foi embolsado pelos capitalistas. Milhões de trabalhadores perderam seus empregos, vendo as fábricas em que trabalhavam fechar, cidades industriais que eram a imagem da pujança econômica dos EUA como Detroit, entraram em decadência, e os outrora orgulhosos trabalhadores de macacão, os “blue collar”, foram lançados às ruas, muitos encontrando nas drogas o alívio para o desespero de verem suas vidas destruídas. Aquela classe média abastada, que morava em amplas casas nos subúrbios e andava de cadillac, faliu. Muitos tiveram seus empregos destruídos pela modernização tecnológica, e um grande número perdeu suas casas, quando tubarões do mercado imobiliário (como Trump) exploraram um mercado de hipotecas, estimulando bancos locais a fazerem negócios de pouca viabilidade e repassando os riscos para grandes instituições financeiras. Quando a bolha estourou a classe média pôde experimentar o sabor da democracia americana, dividindo espaço nas ruas em barracas e trailers com os operários, todos agora igualados na condição de sem teto.
Ao mesmo tempo em que se abria um fosso profundo na sociedade americana, entre um punhado de bilionários e uma imensa massa de miseráveis, cristalizou-se uma diferença cultural não menos importante. No ambiente cosmopolita das grandes cidades como Nova Iorque e São Francisco, desenvolveu-se um novo ambiente cultural, a que denominaram de woke, em que a diversidade étnica, de orientação sexual e religiosa é respeitada e valorizada. Enquanto isso, nas regiões rurais surge uma forte reação a essa tendência, com um grande número de pessoas identificando o empobrecimento e a perda de relevância internacional dos EUA, com o que enxergam como uma decadência gerada por essa mudança cultural. Aglutinando forças políticas ultrareacionárias como a Klu, Klux Klan, serviram de base para um movimento político populista de extrema direita, que acabou sendo cooptado pelo lobby sionista. O cenário atual é de uma crescente tensão política, cada vez mais difícil ser contida por meios institucionais, e o fantasma de uma guerra civil começa a sair da ficção para a realidade, devemos sempre lembrar que a falta de dinheiro é a única coisa que pode impedir um adulto de comprar uma arma nos EUA.
A radicalização política é um efeito inevitável do distanciamento crescente dos interesses, cada vez mais marcadamente antagônicos, das classes sociais. Contudo, a estrutura política estreitamente controlada pela classe dominante, a permite canalizar uma parte significativa da frustração e revolta dos excluídos para longe dela, muito embora seja evidente sua responsabilidade sobre tais mazelas. O modelo de democracia representativa apresentado pelos EUA como os píncaros da civilização humana é uma farsa, capaz de levar ao poder trogloditas boçais com Trump, Bolsonaro, Duterte, Milei, etc. Benjamim Disraelli, ministro da Rainha Vitória no auge do Império Britânico, cunhou a expressão o quarto poder para definir a imprensa. De fato, desde que a sociedade industrial exigiu a alfabetização dos trabalhadores e surgiram os jornais de grande circulação, a chamada opinião pública ganhou uma importância política crescente, e sua manipulação passou a ser um importante instrumento de poder. O rádio marcou a ascensão de Hitler e Mussolini. A televisão, com a Globo na liderança, garantiu a coesão social durante a ditadura militar no Brasil. Recentemente, as redes sociais, controladas pelos bilionários das grandes empresas de tecnologia, somadas ao poder e alcance da mídia corporativa, conseguiram tirar o Reino Unido da União Européia e influenciar decisivamente em várias eleições pelo mundo afora, inclusive aqui.
A mentalidade da sociedade de consumo, surgida no pós-guerra, foi transposta para a forma como as pessoas se informam e formam suas opiniões. O sistema criado pelo novo ambiente de comunicação digital, que se tornou dominante, inibe a reflexão e privilegia respostas rápidas e superficiais, para obter a aceitação e recompensa desejada. Um paraíso para a manipulação em massa, em especial de populações com escolaridade deficiente e baixo nível de compreensão sobre a política de sua sociedade, como é o caso da maioria do povo estadunidense. As eleições de lá acabaram se transformando em um grande show, em que o resultado é decidido pelo poder econômico, que sempre descobre meios de conquistar os corações e mentes do eleitorado e garantir que os vitoriosos sejam sempre da mesma estrutura carcomida e controlada por lobistas, dentre os quais os sionistas tem sido os mais bem sucedidos.
O ressentimento dos trabalhadores urbanos empurrados para a miséria, e a exclusão da maioria da população rural dos benefícios do progresso, ofereceu a base social perfeita para a disseminação das mais absurdas teorias da conspiração que, por mais que sejam aleatórias e desconexas, sempre terminam no apoio à extrema direita. Essa é a explicação para a eleição de Donald Trump. Um aventureiro oportunista afeto a golpes financeiros galgar o mais alto posto da república não é coisa pouca, significa que os candidatos não são mais escolhidos por seus projetos e propostas apresentadas ao escrutínio dos eleitores, mas vence quem fizer o show midiático mais convincente, e contar com o apoio financeiro mais sólido para dominar a comunicação de massa e o espaço cibernético. O que pavimentou o caminho para a ascensão do fascismo e o recrudescimento do militarismo expansionista.
A proposta do MAGA, de retomar os empregos perdidos pelos trabalhadores americanos para os chineses foi uma promessa importante para Trump vencer as eleições, que uma vez no poder, na impossibilidade de reverter a pujança econômica do rival asiático, volta suas baterias contra os imigrantes ilegais (em sua maioria latinos) e inicia sua caçada sistemática pelas ruas dos EUA, criando um clima de terror no país e desorganizando o mercado de trabalho. Sua política externa errática e orientada por um esforço midiático em demonstrar uma pujança que já não existe mais, conduziu a um retorno da política de intervenções na América Latina, que culminou na nebulosa captura de Maduro na Venezuela, e no cerco desumano e criminoso de Cuba. O maior problema foi que no auge de sua exibição de musculatura, Trump foi levado por Netanyahu a uma intervenção militar desastrosa no Irã, com severas consequências para a economia mundial e que pode ser a pá de cal em sua popularidade, que despencou vertiginosamente.
O fracasso acachapante das forças armadas dos EUA na guerra contra o Irã e a crise econômica que dela advirá, irão abalar profundamente o atual governo e quiçá a estabilidade política do Estado, abrindo fissuras em suas principais instituições. Os oito milhões de pessoas que protestaram contra a “monarquia”estadunidense, podem ser apenas a ponta do iceberg que aguarda o impacto do Titanic conduzido por nulidades como Marco Rúbio e Pete Hegseth, enquanto Trump rege a orquestra do navio em seus últimos acordes.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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