VIDA DE GADO
- Eduardo Papa*

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“...um indivíduo em uma massa...experimenta uma modificação muitas vezes profunda de sua atividade psíquica...o pânico surge pelo aumento do perigo que atinge a todos ou pelo cessar das ligações emocionais que mantêm a massa coesa”.
Sigmund Freud: Psicologia das massas e a análise do eu.

*Eduardo Papa
As inocentes vaquinhas, os simpáticos bezerrinhos, o imponente touro, placidamente pastando na campina verdejante é uma das imagens mais tranquilizadoras imagináveis. Na verdade, nós humanos, inflados de soberba, não damos o devido valor a observar e aprender com o comportamento de outros seres com que dividimos o planeta, e, muitas das vezes, cultivamos idéias errôneas sobre os outros animais. Tomemos como exemplo o jumento, tido como um animal tolo, enquanto o belo e imponente cavalo traz uma aura de grandeza, para muitos um fetiche. Porém, em 1415, cinco mil cavaleiros franceses conduziram seus cavalos para a morte em um lamaçal sem nenhuma dificuldade, na batalha de Azincourt, enquanto todo homem do campo sabe que seu burrico não entra em atoleiro de jeito nenhum.
O gado vacum é muito importante para nós, desde os primórdios da civilização nos serve de alimento e força motriz para o trabalho. Para ilustrar a riqueza e complexidade das relações que suas populações são capazes de desenvolver, trago para o leitor uma fábula que me foi contada por um velho xamã de uma tribo andina, passada de geração para geração desde os tempos em que os bovinos ainda viviam livres pelos campos, e que a civilização humana ainda engatinhava. A saga de um numeroso rebanho que vagava pelo coração da América do Sul.
A colossal manada era liderada por um velho touro que se destacava por seus chifres enormes, verdadeiramente descomunais. Os proeminentes cornos sobressaíam quando o velho touro dava verdadeiros espetáculos para afirmar sua virilidade e potência, embevecendo o rebanho. Apegado de forma doentia a sua posição, criou uma engenhosa maneira de iludir a todos para preservar sua ribalta, aproveitando-se do conhecido horror dos bovinos a cor vermelha, disseminou a existência de uma matilha de lobos vermelhos ameaçadora, que somente com seus métodos e sob seu comando poderiam ser derrotados. O gado amedrontado aceitou cegamente seu comando para conjurar o perigo vermelho, centenas de milhares de reses acorriam frenéticas a concentrações para demonstrar apoio a sua cruzada ungida por Deus.
Na verdade, o cornudo não tinha de fato o valor e a bravura que procurava transparecer, logrou chegar ao apogeu apenas quando seu adversário mais forte foi ferido por caçadores vindos do norte. Desprovido de interesse genuíno na prosperidade da manada, criou em seu entorno um círculo de apaniguados que se fartavam em pastagens verdejantes, enquanto outros viviam de raízes em áreas desérticas. No centro desse círculo de privilegiados havia um núcleo familiar, composto por quatro bois, que pela total falta de identidade própria eram classificados por ordem numérica. Pela dona Vacona e uma filha, a única do cornão concebida por ela, mas que como bezerrinha não gozava do mesmo prestígio que os novilhos.
Para esconder a sinecura de sua corte e manter o gado apoiando seu poder, o líder abusava do espetáculo e fazia de tudo para manter o rebanho na obscuridade, perseguia implacavelmente qualquer rês que ousasse apresentar algum sinal de racionalidade, contra as quais açulava seus mais fiéis e truculentos seguidores. Promovia aglomerações reunindo centenas de milhares de animais, que eram levados ao delírio e êxtase quando emulados ao ódio pelo cornão, para os quais virou uma espécie de semideus como os heróis gregos - um mito. Embriagado pelo sucesso começa a exigir total subserviência, e impõe a seus fiéis seguidores uma verdadeira via crucis de peregrinações e acampamentos, onde sujeitos a todo o tipo de incômodos e humilhações, defendiam que a vontade de seu líder deveria ser aceita por todos, ainda que pela violência se necessário. No clímax de sua exaltação promoveram um ruidoso e violento estouro da boiada, provocando grandes prejuízos no Planalto Central.
Tudo parecia correr como o previsto, mas do meio da manada emerge um touro desafiador, bufando pelas ventas e rosnando, se propondo a barrar a escalada do cornudo. Seus mais exaltados seguidores, farejando o cheiro de sangue, contavam como certa a vitória esmagadora de seu líder. Mais que isso exigiam um massacre, afinal o contendor não possuía um chavelho que se comparasse com o dele, na verdade não havia sequer um fio de cabelo em sua cabeça. Iniciou-se a dança do combate entre os touros, o rebanho enlouquecido acompanhando com entusiasmo, explodia em aplausos efusivos por qualquer movimento de seu mito na arena, entretanto, no momento decisivo, quando frente a frente com o desafiante, ele medrou. Afinou, demonstrando uma surpreendente pusilanimidade, e foi acuado pelo touro careca na beira do barranco.
O gado não abandonou seu líder, chiaram e choraram por um longo tempo, fizeram de tudo para apoiá-lo, mas com o tempo o entusiasmo arrefeceu. O desespero bateu forte nos membros da corte, os animais mais cevados do rebanho entraram em polvorosa, ameaçados de perder a chave do portão da capineira. Para reagrupar sua turma de vanguarda e tentar reanimar o gado, enquanto o velho cornudo continuava acuado, somente com a liderança de um substituto oriundo de seu círculo familiar. Como por princípio não aceitariam a preponderância de uma fêmea e o rebento macho mais novo, além de não reunir condições mínimas de compreensão sobre o mundo e zero talento para qualquer coisa, ainda era discriminado pelo pai. Cabe ao núcleo duro da estrutura familiar, composto pelos três machos mais velhos, gerados pela mesma matriz, assumir a tarefa de organizar e dirigir o gado para retornar aos dias de esplendor.
O primeiro a agir foi o 03, que partiu em uma jornada para as terras do norte para obter a aliança do Imperador dos búfalos da pradaria para a sua causa. O gado tomou ar, voltaram a se aglomerar em ruidosas manadas, ostentando um gigantesco pavilhão do Império do Norte. Entretanto, essa peregrinação não obteve a graça desejada, o 03 esfolou o focinho, rachou os cascos, mas não conseguiu forçar a porteira do curral branco na América do Norte. Fracassou rotundamente na missão e ainda saiu chamuscado, correndo o risco de ter o mesmo destino do pai. Como o 02 sofre do mal da vaca louca, sem conseguir unir lé com cré, sobrou para o mais velho.
O 01 até que começou bem, reuniu o fiel rebanho e começou uma caminhada para recobrar a posição perdida pelo pai. Entretanto as pedras no íngreme caminho eram difíceis de superar, pois seu rabo estava fortemente amarrado a uma montanha de ouro nas margens do Rio Tietê, da qual, tendo herdado a cobiça do pai, não conseguiu se desatar, e fracassou na missão choramingando. No fim da história o gado se acalmou e com o tempo foi se esquecendo do seu mito, alguns ainda ficaram remoendo pelos cantos, aguardando o surgimento de um novo “messias”. Mas, com a volta do velho boi barbudo para a liderança, tudo voltou ao normal, e a boiada novamente espalhou-se pelos campos, pastando em harmonia e tranquilidade.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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