Entre Irmãos: espetáculo expõe feridas da homofobia e aposta na transformação pelo afeto
- Pimenta Rosa
- há 36 minutos
- 2 min de leitura
Em cartaz no Teatro Viradalata, peça investiga conflitos familiares e questiona a masculinidade construída sob a lógica do preconceito
O espetáculo Entre Irmãos transforma o palco em um espaço de confronto íntimo, onde memórias, afetos e preconceitos disputam lugar dentro de uma mesma família. A montagem parte de uma realidade ainda presente na sociedade brasileira: a formação de homens sob uma cultura machista que naturaliza a homofobia como parte da construção da masculinidade.
Sem recorrer a excessos cênicos, a peça sustenta sua narrativa na força do texto e na intensidade das interpretações. O enredo acompanha o embate entre dois irmãos que, embora ligados por laços de sangue, parecem distantes por anos de silêncio, incompreensão e ressentimentos acumulados. É nesse terreno delicado que a dramaturgia constrói um diálogo direto com o público.
O ponto central da obra está no percurso de transformação de um dos personagens. Inicialmente marcado por certezas rígidas e discursos preconceituosos, ele passa a confrontar as próprias convicções ao perceber que muitas delas foram herdadas de um sistema que reprime afetos e perpetua intolerâncias. A mudança, no entanto, não ocorre de forma simples — e é justamente nessa tensão que a peça encontra sua potência dramática.
Mais do que retratar a história de dois irmãos, Entre Irmãos ecoa vivências de inúmeras famílias brasileiras, onde amor e intolerância coexistem de maneira dolorosa. Ao se reconhecer naquele conflito, o público é convidado a refletir sobre os preconceitos ainda presentes nas relações mais íntimas.
A montagem também se destaca pelo equilíbrio entre seus elementos artísticos. Em análise publicada em seu canal no YouTube, o crítico Jardel Teixeira destaca a sintonia entre texto, direção e atuação. Segundo ele, Fernando Pavão e Otávio Martins conduzem a narrativa com sensibilidade e precisão, sustentando uma atmosfera intensa do início ao fim. A direção de Marcos Damigo aposta na essência do teatro — o ator e a palavra — criando proximidade com a plateia e valorizando cada gesto e silêncio em cena.
A trilha sonora ao vivo, executada por Ricardo Severo no cello ao lado de Ana Eliza Colomar, amplia a carga emocional da montagem, enquanto a iluminação de Beto de Faria contribui para a construção dos diferentes climas da narrativa. A reação do público, marcada por silêncio atento e momentos de emoção, reforça a força do espetáculo.
Ao final, Entre Irmãos não oferece respostas fáceis. Em vez disso, reafirma o teatro como um espaço potente de reflexão, capaz de provocar empatia e abrir caminhos para mudanças possíveis — inclusive dentro das relações mais próximas.
Ficha técnico
Texto: Otávio Martins
Direção: Marcos Damigo
Elenco: Fernando Pavão e Otávio Martins
Trilha sonora: Ricardo Severo (cello) e Ana Eliza Colomar
Iluminação: Beto de Faria
Fotos: Heloísa Bortz
Design gráfico: Patrícia Scótolo
Produção: Patrícia Scótolo
Assistente de produção: Flavia Moreira
Realização: Engrenagem de Produção
Serviço
Local: Teatro Viradalata
Temporada: 15 de março a 26 de abril
Dias e horários: sábados, às 20h30; domingos, às 19h30





Comentários