Entre Vó Yara e Carolina Maria de Jesus, Cyda Moreno dá corpo à memória e à resistência da mulher negra
- Pimenta Rosa
- há 16 minutos
- 5 min de leitura
Atriz fala sobre ancestralidade, militância, arte e o impacto simbólico de levar Carolina da cena teatral à Marquês de Sapucaí no Carnaval 2026

Da televisão ao teatro, e agora ao maior palco popular do país, Cyda Moreno construiu uma trajetória marcada pela representação de mulheres negras que atravessam o tempo como símbolos de força, sobrevivência e dignidade. Entre a popular Vó Yara, personagem que conquistou o público na TV, e Carolina Maria de Jesus, escritora fundamental da literatura brasileira do século XX, a atriz costura arte, memória e militância em interpretações que dialogam diretamente com a realidade social do país.
Depois de viver Carolina no teatro por seis anos, Cyda leva a autora de Quarto de Despejo para a Marquês de Sapucaí, como destaque da Unidos da Tijuca no Carnaval 2026, em um enredo que homenageia não apenas a escritora, mas centenas de outras mulheres negras que ainda enfrentam a fome, o racismo estrutural e a exclusão. Nesta entrevista, a atriz reflete sobre ancestralidade, lugar de fala, o poder político do desfile e como essas personagens moldaram sua visão de Brasil e seu compromisso de fazer da arte um instrumento de transformação social.
Íntegra da entrevista segue abaixo:
Entre a popular “Vó Yara”, da televisão, e a histórica Carolina Maria de Jesus, do teatro e agora do carnaval, o que essas duas mulheres negras têm em comum na sua trajetória artística e pessoal?
Em comum, as duas trazem a herança de nossas ancestrais pretas, a garra pela vida , a disposição pelo trabalho, a fé e a luta pela sobrevivência. Claro que dadas as devidas proporções, Carolina viveu num tempo em que as oportunidades e o analfabetismo entre o povo preto, era descomunal, e muito mais excludente que hoje. Já Vó Yara vive num contexto contemporâneo e, embora ainda não pertencente às classes privilegiadas, ela pode desfrutar de um espaço no asfalto para criar suas netas com dignidade, salário de aposentada e sem experenciar a miséria e a fome. Para minha trajetória, ambas trouxeram um impacto determinante em minha trajetória, fortalecendo a minha militância sobre as complexidades que enfrentamos como mulheres negras. Me ensinaram a nunca desistir, a acreditar nos meus sonhos, saber que posso ir além e que, por maiores que sejam os obstáculos e desafios nesta sociedade ainda racista e excludente, "a felicidade sempre encontra o seu caminho ".
Você já viveu Carolina Maria de Jesus no teatro por seis anos e agora a interpreta na Marquês de Sapucaí. O que muda — artística e simbolicamente — ao levar essa personagem para o maior palco popular do país?
Artisticamente, é a possibilidade de estar mostrando minha interpretação de Carolina para o maior palco a céu aberto do mundo, pra todos os cantos do Brasil onde a obra de Carolina ainda não chegou, fazendo parte de uma grande ópera, cujo texto se dá através da música e da expressão corporal. É uma performance que vai exigir muita emoção, fôlego e preparação física, para atravessar a avenida e contagiar as pessoas. Simbolicamente, estarei levando o exemplo e a mensagem de superação de Carolina para a própria Tijuca, e as milhares de mulheres negras dos Boreis do Brasil que ainda lutam pra matar a fome dos seus filhos, por direitos da mulher e por dignidade
O enredo da Unidos da Tijuca exalta Carolina e, ao mesmo tempo, centenas de outras mulheres negras que enfrentam a fome e a exclusão. Como você percebe a força política e social desse desfile no Brasil de hoje?
É um desfile que promete balançar e conclamar mulheres negras que ainda enfrentam adversidades, a se espelharem no exemplo de Carolina Maria de Jesus e também, mudarem a sua história. Num tempo em que os negros, principalmente as mulheres, não tinham lugar de fala, Carolina fez da sua obra manifesto social e político quando expos as mazelas das favelas, Quartos de despejo da sociedade. O poder político de sua obra diante do mundo foi tão grande, que a favela do Caninde foi derrubada. Hoje as mulheres negras tem lugar de fala, estão se aquilombando para saírem dos " Quartos de despejo ", dos escombros. Daí a força social e política deste desfile. Despertar e abrir em todas as mulheres negras e pobres deste país, a sua própria chave para fazer a revolução e interferir na ordem social e política da sociedade.
“Quarto de Despejo” segue atual ao denunciar a miséria e o racismo estrutural. Como esse contato prolongado com a obra de Carolina impactou sua visão de país e o seu compromisso como artista?
Eu mergulhei na obra de Carolina por muitos anos, 6 exatamente. Muito estudo, leitura. Antes de receber o convite para interpretá-la eu não tinha lido nem um dos seus livros, apesar de já saber quem era. Depois do espetáculo esboçado, eu sempre descobria mais um texto que deveria ser acrescentado. Conhecer e vivenciar Carolina foi determinante em minha continuidade como atriz e me abriu um olhar mais apurado sobre a vida nas favelas, a labuta de quem carrega o estigma de ser favelado, e o que é passar fome. É impactante estar defronte de uma mulher que, em meio a tantas adversidades, conseguiu ser uma artista e poeta tão múltipla. Que nunca sucumbiu. Este fato talvez seja um dos que mais me provoca a não desistir jamais. Seguir em frente acreditando no meu sonho e fortalecendo a certeza de que tudo é possível. Ela tem sido o meu maior exemplo. Tenho muita devoção e gratidão a ela. Quando penso em reclamar, lembro de como ela enfrentou cotidianamente a fome, criou seus filhos, deixou uma obra riquíssima pra humanidade e venceu. A obra de Carolina descortina e humaniza o nosso olhar sobre a favela, e o descaso da sociedade e o racismo estrutural no Brasil.
Depois de um grande sucesso na televisão e de uma longa trajetória no teatro, o que representa para você desfilar na Sapucaí como destaque, unindo arte, memória e representatividade negra no Carnaval 2026?
Já venho há alguns anos interpretando mulheres ancestrais de representatividade e força para o povo negro. Em 2018, Carolina Maria de Jesus. Em 2020, Luiza Mahin, em 2023 Nina Simone e em 2025 Vó Yara. Mulheres que reúnem em si toda a força a ancestral, que lutam, rompem barreiras, cuidam dos seus com amor, afeto, enfrentaram o racismo e são cheias de sabedoria. Me sinto privilegiada e ao mesmo tempo, uma missão e comprometimento em fazer da minha arte um instrumento de representatividade para os meus. Através do meu trabalho tenho levado muita emoção e impulsionamento a inúmeras mulheres negras, que me assistem no teatro ou na TV. A Vó Yara que teve um maior alcance por se tratar de TV, foi imensamente acolhida por mulheres 50 +. A cena em que ela desfila de maio mostrando as pernas e assumindo seu corpo, foi icônica e levou empoderamento e autoestima a muitas mulheres. Sei que estou cumprindo bem este papel, e meu trabalho através destas mulheres, tem contagiado e inspirado muitas das nossas a restabelecer a sua força, seu potencial, sua beleza e assim, mudarem a sua história, como tão bem fez Carolina Maria de Jesus.





Comentários