FIFA 2026: A COPA DA VERGONHA
- Eduardo Papa*

- há 3 dias
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O que se passa na cabeça de quem veste a camisa da CBF, mas torce mesmo é para os EUA?

*Eduardo Papa
Eventos esportivos assumiram na sociedade moderna uma relevância cada vez maior, os jogos olímpicos e a copa do mundo de futebol galvanizam a atenção de milhões de pessoas e contam com uma cobertura midiática de alcance global. Por trás da bela ideia de competições esportivas para unir os povos, em eventos capazes de reunir todas as nações do planeta, estimulando a convivência pacífica, surgiu uma robusta e bilionária estrutura econômica, que envolve desde associações e clubes, até a indústria de materiais esportivos, segmentos especializados da imprensa, atraindo o patrocínio de grandes empresas, gerando um pujante ecossistema econômico voltado para explorar o amor dos fans pelos esportes. Para além do aspecto econômico, o aproveitamento político das competições esportivas acompanhou o crescimento da visibilidade dos grandes eventos. A FIFA tornou-se uma entidade poderosíssima e multimilionária, ditando as regras para o ordenamento do esporte mais popular do planeta e, assim como o Comitê Olímpico Internacional, procurou construir uma imagem de isenção política. Imagem que foi completamente destruída nesse mundial.
Para qualquer observador, com um mínimo de honestidade, ficou claro que a FIFA tem um tratamento desigual para com as federações nacionais participantes de sua estrutura, sua alegada profissão de fé contra a interferência da política no esporte é levada na ponta da faca em alguns casos, enquanto em outros, faz vista grossa. Por exemplo, nesse mundial proibiram ao estreante Haiti de fazer uma homenagem aos poloneses, estampando uma pequena bandeira polaca em sua camisa, uma referência aos soldados poloneses que Napoleão enviou ao país junto com seu exército para esmagar a revolução haitiana, e que recusaram-se a lutar em favor da escravidão, aderindo aos revolucionários. Porém, ao mesmo tempo em que baniram a Rússia do torneio, por causa da guerra com a Ucrânia, não causou qualquer constrangimento que um dos países sede do evento, poucos meses antes de seu início, fizesse um brutal bombardeio surpresa, iniciando uma guerra não declarada contra um dos participantes do certame. Ao contrário, criou um prêmio da entidade pela paz e ofereceu o mimo ao líder do país agressor.
A dobradinha Trump/Infantino proporcionou aos milhões de amantes do futebol do mundo inteiro a copa da exclusão, do racismo e da xenofobia, que mudará para sempre a imagem da entidade. Pois, o que fica de fato na memória das copas, não são as jogadas e os gols das partidas, ainda que esses sejam relembrados pelos mais aficionados, com o tempo vão dando lugar aos lances dos eventos mais recentes. O que fica gravado no imaginário coletivo é algo muito mais profundo, como a decepção de milhões de brasileiros com o “maracanazo” de 1950. São símbolos como a imagem do capitão Belini erguendo a taça Jules Rimet, em gesto imortalizado em uma estátua na entrada do Maracanã, redimindo o orgulho nacional. Essa copa será marcada pelo carimbo do regime protofascista de Donald Trump, a diferença de tratamento entre os participantes: enquanto as seleções européias tiravam fotos descendo dos aviões sendo recebidas com flores, os jogadores do Senegal eram perfilados na pista de pouso para rigorosa inspeção com detectores de metal, e o treinador do Uzbequistão passou por uma revista humilhante assim que pisou nos EUA. Casos escabrosos, como o do atacante iraquiano Aymen Hussein, que ao desembarcar foi detido pelo FBI e interrogado por sete horas sem a assistência consular ou de advogados, deixam claro que os EUA são um estado policial, em que as tais garantias democráticas, das quais falam da boca para fora, valem tanto para os pobres do mundo, quanto valiam para os negros que eram enforcados pela Klu Klux Klan impunemente há menos de um século.
A discriminação no tratamento, zelosamente ocultada pela mídia com maior interesse no patrocínio do evento, acaba sendo exposta em casos como da mãe do arqueiro Vozinha da seleção de Cabo Verde, sensação do torneio, que precisou contar com o patrocínio de um empresário chinês radicado no país, para pagar a caução de US$ 15.000, exigida para a concessão de visto para torcedores de determinados países (com a intenção de evitar que pobres utilizem a copa para imigrar ilegalmente para os EUA), o caso escancara que o esporte amado pelas pessoas mais simples do mundo foi capturado por interesses econômicos. O astronômico preço dos ingressos foi exposto para o mundo pela presidenta do México, na solenidade em que recebia o ingresso número um para o jogo inaugural no Estádio Azteca, Cláudia Sheinbaum doou seu ingresso a uma praticante do esporte de uma comunidade pobre, dizendo que ia assistir ao jogo pela TV, junto com a torcida mexicana, deixando o Infantino em uma tremenda saia justa. Aliás, o México é o destaque positivo desse mundial, tanto seu governo quanto o povo mexicano estão mostrando ao mundo um exemplo de hospitalidade e eficiência. Contrastando com a pálida participação do Canadá, tão xôxa quanto o show de abertura do torneio em sua sede, um espetáculo mambembe, em que nem o balão inflável com a réplica do torneio encheu.
O papel do México agigantou-se com o lamentável episódio de discriminação contra a delegação iraniana, que de tão violento coloca em cheque a lisura do evento, na medida em que as condições impostas pelo governo Trump para sua participação no torneio pulverizaram a isonomia esportiva. A equipe persa, que se classificou por seus méritos em campo, não teve seus vistos para entrar no país liberados até a última hora, e 17 integrantes de sua delegação foram impedidos de entrar no país. As autoridades de Washington proibiram a equipe de pernoitar nos EUA, e sua participação só foi possível porque o México lhes concedeu abrigo na cidade de Tijuana, obrigando os atletas a viagens de avião antes e imediatamente depois das partidas, enquanto seus adversários desfrutam das condições ideais para preparação e repouso. O mundo inteiro acompanhou essa mesquinhez estadunidense. Mais um ponto para o México, em especial para o povo de Tijuana, que acolheu o selecionado iraniano com música e carinho, enquanto a maior potência mundial os recebia com cães farejadores, revistas policiais, e até detenção de um atleta para interrogatório. Nem mesmo Hitler, nas olimpíadas de Berlim, em 1936, ousou impor restrições dessa natureza aos atletas e participantes do evento.
Dentro desse verdadeiro show de horrores, um grande acerto merece destaque: o aumento do número de participantes foi um verdadeiro gol de placa, permitindo que povos que jamais teriam a oportunidade de ver seus times jogando um campeonato mundial desfrutassem dessa alegria. A emoção das torcidas em Cabo Verde, no Congo e em outras nações, que dificilmente entrariam no seleto clube de participantes de copas, está contagiando o mundo inteiro, constituindo-se em um ponto positivo nessa copa marcada pela exclusão e discriminação. Outra novidade bastante positiva foi agregada ao evento por nós brasileiros, que, após décadas obrigados a acompanhar as campanhas de nossa seleção pela cobertura pasteurizada da TV Globo, inventamos a TV Cazé, que certamente no próximo mundial será copiada no mundo inteiro. Um exemplo de como a internet pode ser um elemento de inclusão e democratização da informação, apesar do controle nefasto das grandes empresas que controlam as redes sociais.
Falando da participação brasileira na copa, o destaque é a nossa torcida, que em matéria de criatividade e animação supera em muito o time que mandamos para lá. Tanto os brasileiros que vivem nos EUA o sonho (ou pesadelo) americano, como aqueles torcedores mais abonados que conseguiram arcar com os custos do passeio, estão dando o show que nosso time está devendo dentro do campo. Os brazucas promoveram uma verdadeira subversão da rígida ordem imposta pelos organizadores e as autoridades locais. No carnaval que fizeram no coração de Nova Iorque, até camelô vendendo cerveja apareceu no lugar em que consumir bebidas alcoólicas na rua é rigidamente proibido, e botaram os sisudos e rotundos policiais locais para dançar acompanhando a nossa batucada, que é destaque na cobertura de toda a imprensa do país, comprovando mais uma vez que nosso povo não precisa de diretores e cartolas para fazer a festa. Aliás, o presidente da CBF teve que fazer as malas e voltar para o Brasil, depois que a imprensa descobriu que ele levou na bagagem a esposa e uma de suas amantes para assistir a copa, com as despesas pagas pela entidade.
O futebol tem uma importância colossal para o nosso país, Pelé e Garrincha fizeram mais pela imagem do Brasil que qualquer diplomata ou governante. Hoje na Índia, no Paquistão e em Bangladesh, centenas de milhões de torcedores acompanham os jogos do Brasil com bandeiras e usando nossas cores. No Líbano e na Síria, países bombardeados por Israel, em dias de jogo do Brasil multidões tomam as ruas para torcer pela seleção canarinho. O Sul Global vibra com as nossas vitórias, porque quando seus povos ainda eram humilhados e diminuídos pelos colonizadores, homens com a pele escura como a deles, vindos de um país dos trópicos davam dribles desconcertantes e impunham derrotas acachapantes aos arrogantes europeus. Essa é a base de um poderoso elemento do soft Power brasileiro, apesar do “viralatismo” de nossa classe dominante, a cultura brasileira, com o futebol como locomotiva, confere ao nosso povo uma capacidade ímpar de estabelecer pontes com todas as sociedades do lado de baixo do equador.
O problema é que nem o nosso futebol escapou da sanha do neoliberalismo. Nossos principais jogadores atuam em clubes do exterior, como disse o tricampeão Gérson: “eles são brasileiros, mas não são do Brasil, se perdem vão para os países em que jogam”. Essa distância enfraquece o vínculo do povão com a amarelinha, o torcedor apaixonado que acompanha nossos campeonatos, não vê mais os jogadores do seu time atuando na seleção, mas sim os craques de times espanhóis, italianos, ingleses, etc. A gente ainda faz churrasco e acompanha os jogos em telões espalhados pelo país, mas aquela vibe de decorar as ruas está acabando, o maior frisson da meninada vem sendo canalizado para os álbuns de figurinhas, a cada copa mais caros.
O escrete nacional não ganha nada e não convence a torcida já há muito tempo, e o time desse ano, comandado pelo “mister” com o maior salário da copa, vai aos trancos e barrancos. Ao que parece o vestiário vive em um astral horroroso, com interesses de empresários e patrocinadores alimentando uma fogueira de vaidades, bem representada pela postura da “prima Donna” da companhia - o menino Neymar, que não entrega nada e ainda faz beicinho se não é escalado. Apesar de tudo a equipe vem crescendo de produção em campo, empurrada pela fanática torcida canarinho, e, considerando a conjuntura da relação entre os dois países, ganhar a copa nos EUA ia ser o máximo! Melhor que isso só se derrotar o time da casa na final, debaixo do nariz do Trump. Aí era o caso do Lula pegar a Janja e ir assistir a final, fazendo uma dancinha a cada gol da nossa seleção, tripudiando desses falsos patriotas que vestem a camisa da nossa seleção, mas no fundo torcem mesmo é pelo Tio Sam.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)





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