GREEN GO!
- Eduardo Papa*

- 20 de jul. de 2025
- 6 min de leitura
Eduardo Papa*

A linguística é um saber fascinante. Observar como comunidades humanas criam novos vocábulos, expressando, pelo dinamismo da fala, situações importantes em sua vida social, pode dizer muito sobre sua organização política e vida econômica. Em toda língua viva há vocábulos que entram em desuso e outros que surgem continuadamente. Especialmente dignos da lupa do pesquisador, são aqueles que transbordam as fronteiras do idioma originário e ganham dimensão, por vezes, quase universal.
A atual conjuntura política mundial, evoca-me a lembrança de uma palavra surgida no México do século dezoito, que foi incorporada ao vocabulário de todos os povos latino americanos e é conhecida em todo o mundo. Os mexicanos viram seu país invadido e saqueado; sua economia arruinada e subordinada aos ditames impostos pelo imperialismo ianque; sua fronteira virar terra sem lei, dominada por bandidos armados no exterior. O instinto de defesa do povo oprimido, discriminado (comparado a baratas – cucarachos), levou as pessoas comuns a identificarem o dinheiro do vencedor como instrumento de dominação. A referência às notas verdes (green) do dólar foram se fundindo com uma expressão que os invasores conheciam em sua língua como um “passa fora”(go).
Você pode utilizar a palavra gringo na Lapa, no Rio de Janeiro para falantes de português ou em Puerto Madero para falantes de castelhano. Em Santiago, La Paz, Brasília , Havana, nos próprios EUA, que todos irão entender a quem está se referindo. Vejam a relevância que tem o dólar para o Império Estadunidense, chegou a ser cunhado um adjetivo pejorativo a partir dele para designar o seu povo. Um adjetivo que acabou reforçado por atitudes racistas e preconceituosas de parte de seu povo, bem como a exploração econômica, escancaradamente exercida pelos EUA, naquele que consideram seu quintal.
A utilização do dólar como moeda para as trocas internacionais, foi imposta pela nova governança mundial surgida após a segunda guerra mundial, em que os EUA assumiram a hegemonia no mundo capitalista. Após o colapso da URSS e a ascensão do liberalismo no mundo, os EUA tornam-se hegemônicos, esmagando com invasões e embargos econômicos qualquer nação que viesse a contestar seu poder. Com uma força militar avassaladoramente superior ao do resto do mundo, a burguesia dos EUA passou a chantagear todo o planeta, obrigando todas as economias mundiais a sustentarem seu enorme déficit fiscal e orçamentário, pela simples emissão da moeda a que todos devem aceitar e usar obrigatoriamente.
Esse sistema começou a fazer água com a ascensão econômica da China e de outras economias, que passam a ganhar competitividade ante o mundo ocidental, encontrando nos BRICS uma ferramenta para questionar o parasitismo estadunidense na ordem econômica internacional baseada na supremacia do dólar. Na crise de 2008, a banca dos EUA sentiu a água bater na bunda e partiu pra a ofensiva. Foi invasão, revolução colorida e golpe de estado em todo o canto, e a política do velho “big stick” do início do séc. XX voltou com tudo. A intimidação econômica, que já era exercida pelo FMI e Banco Mundial, passa a ser reforçada por ameaça militar direta, em uma escalada de violência delirante que destruiu países inteiros, como o Iraque, a Síria, o Líbano, a Iugoslávia, a Líbia e derrubou governos nacionalistas por todo o sul global.
Em 2022, com a Guerra da Ucrânia, e agora com o ataque de Israel ao Irã, a situação ganha um novo componente. Putin pôs o pé na porta e barrou o avanço dos nazistas apoiados pela OTAN na Ucrânia. Xi Jinping está fornecendo o armamento e o apoio logístico capaz de fortalecer a defesa do Irã contra a agressão israelense. Derrotas acachapantes dos EUA, expressas nas exposições do farto material bélico da OTAN tomado pelo exército russo, enquanto destrói o exército ucraniano, e pelas imagens de Tel Aviv e outras cidades israelenses destruídas pelos mísseis iranianos, prova cabal de que o imperialismo é hoje um tigre de papel.
A maior prova do baque sofrido pelo imperialismo é o comportamento errático de Trump. A burguesia americana se estivesse coesa, lúcida e orientada, jamais permitiria que um idiota desqualificado como ele ocupasse a Casa Branca. O populismo vem com o desespero provocado pela falta de opções para reciclar um modelo econômico baseado na exploração de todo o mundo por um sistema que concentra a renda de maneira estrutural e acelerada. Vão chiar muito. Vão pressionar e chantagear de todas as formas. Vão financiar um exército de traidores para formar a “quinta coluna”, em todas as partes do mundo. Vão promover guerras, matar milhões e destruir países. Mas vão perder, e sabem disso.
É comum aos impérios decadentes tornarem-se cada vez mais opressores, com exigências crescentes aos povos sujeitos a sua vassalagem. É o que vemos agora com essa sanha tarifária de Trump e sua desesperada tentativa de desarticular os BRICS, que enxerga, com bastante razão, como a maior ameaça a supremacia dos EUA na economia mundial. A terceira guerra mundial já está sendo travada, e o império estadunidense está perdendo feio, sendo desmantelado economicamente, com um governo que se mostra incapaz de sequer compreender a complexidade que envolve sua derrocada. Por outro lado, os adversários mais poderosos (Rússia e China) parecem bem preparados e obedecem a um meticuloso planejamento para um enfrentamento já esperado.
O BRICS é a chave da vitória, e o nosso país é protagonista da mudança. Nós brasileiros podemos estar orgulhosos, pois nosso presidente é um líder mundial respeitado e reconhecido como um importante representante do sul global, elevando a posição do nosso país no cenário entre as nações. Apesar da virulenta reação da burguesia brasileira, do “entreguismo” nojento dos traidores que se autodenominam patriotas, estamos conseguindo derrotar o fascismo, conjurando o perigo de uma ditadura de direita e mantendo uma posição altiva de defesa da soberania nacional e da economia popular. A união faz a força! Mesmo um país que não dispõe de força militar como o nosso, e nem sequer pode contar plenamente com a lealdade de suas tropas, pode sentir-se protegido dentro de uma aliança com parceiros dessa envergadura.
A agressão de Trump uniu o Brasil, isolou e expôs o caráter antinacional das forças políticas envolvidas com a tentativa de golpe de estado do bolsonarismo. A cadela do fascismo, que rosnava ameaçadora, mostrando os dentes para a nação, tomou uma pedrada forte ao ver explicitados os seus reais propósitos e a natureza do seu “patriotismo”. O advento do Hugo Nem Se Importa produziu efeito quase imediato. A tramitação do projeto que reduz o IR para a classe média, com a compensação do aumento do tributo sobre as grandes fortunas, que estava solenemente engavetado, vai à votação em plenário com parecer favorável do relator, ninguém menos que Arthur Lira. Prova incontestável do efeito enorme da campanha contra o congressoinimigodopovo, que parece ser capaz de enquadrar nossos parlamentares, ou pelo menos conter um pouco seus apetites.
Uma nova ordem econômica mundial pode representar nossa libertação do jugo do sistema financeiro. O banco dos BRICS, presidido pela nossa Dilma Roussef, pode muito bem comprar a dívida brasileira e refinanciá-la em condições mais favoráveis do que os leoninos juros de 15% que pagamos hoje. A construção de parcerias internacionais, que não sejam parasitárias como as impostas pelo imperialismo, podem nos permitir retomar capacidades econômicas perdidas no setor industrial. Um universo de oportunidades pode descortinar-se para o Brasil no novo mundo multipolar. O mundo tem muito a aprender conosco, ou pelo menos com parte de nós, em termos de solidariedade humana, respeito ao meio ambiente, combate ao racismo a homofobia, xenofobia e aos preconceitos em geral. Nós que temos a população mais miscigenada da terra, um cadinho de todas as gentes da terra, podemos ter um papel importante em um mundo novo realmente admirável. Um mundo em que a cooperação substitua a exploração nas relações econômicas; em que a convivência pacífica entre iguais permita a troca das riquezas culturais de todos os povos, em um ambiente de liberdade e respeito mútuo; em que a natureza seja preservada, e a abundância para todos seja ecologicamente sustentável. Um mundo em que o ambiente virtual seja sadio, norteado por paradigmas que não estimulem a violência, não sirvam a propósitos comerciais subliminares; em que o princípio sagrado da liberdade não seja conspurcado por propósitos sórdidos.
Enfim, há um mundo novo sendo construído e nós podemos influenciar em sua construção. Ou não! Existe também a terrível possibilidade de passar pela grande mudança que se avizinha de forma passiva, sem projeto de desenvolvimento próprio. A opção é nossa, cabe a nós decidir o nosso futuro, em uma bifurcação no caminho que está logo à frente, com as mesmas opções identificadas por Rosa Luxemburgo há mais de um século, é o socialismo ou a barbárie.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico




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