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Hipocrisia? Só se for a do discurso moral seletivo

  • Foto do escritor: Ronaldo Piber
    Ronaldo Piber
  • 26 de jun. de 2025
  • 2 min de leitura

Por Ronaldo Piber*

Foto Internet
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Li com inquietação o artigo de Mariliz Pereira Jorge publicado na Folha de São Paulo, intitulado “Marcha e Parada se encontram na hipocrisia”. A autora tenta colocar em pé de igualdade moral e política dois eventos profundamente distintos: a Marcha para Jesus e a Parada do Orgulho LGBTQIA+. Como advogado e defensor dos direitos humanos — e, sobretudo, como alguém que vive na pele o que é ser LGBTQIAPN+ no Brasil — não posso deixar passar a crítica travestida de imparcialidade.


Mariliz desqualifica a Parada do Orgulho como palco de “dissonância cognitiva e oportunismo” e ironiza as denúncias feitas contra regimes opressores. Sim, havia cartazes contra o Irã. E sim, havia críticas a países onde homossexuais são mortos pelo Estado. E o que há de incoerente nisso? Denunciar a homofobia onde ela ocorre, inclusive fora do Brasil, é um ato de solidariedade internacional — e não um sinal de confusão política.


O trecho em que a autora afirma que a redesignação de gênero virou “política de Estado” como alternativa à execução é particularmente cruel. Ele ignora o sofrimento real de pessoas trans e reduz sua identidade a uma manobra estatal. Isso não é jornalismo crítico — é desumanização mascarada de provocação.


Quando se acusa a Parada de apoiar “teocracias” e se pergunta “que tipo de sociedade será construída em Gaza?”, a pergunta é válida, sim — mas precisa ser feita com honestidade e cuidado. Muitos dos que se solidarizam com o povo palestino o fazem contra violações de direitos humanos, e não a favor de regimes autoritários. Essa diferença importa. Misturar tudo no mesmo caldeirão serve apenas para reforçar estigmas e silenciar causas legítimas.


Enquanto isso, a direita elogiada por Mariliz “não decepciona” — ela aplaude Israel, criminaliza o aborto, combate a maconha medicinal, e sonha com o retrocesso de direitos civis conquistados a duras penas por LGBTQIAPN+, mulheres e pessoas negras. Que parte disso nos representa?


A Parada não é perfeita — nenhuma manifestação popular é. Mas ela é, antes de tudo, um grito coletivo por dignidade. Reduzi-la a “curtidas” e “hashtags” é desprezar a dor que ela carrega e a luta que ela celebra.


Mariliz fecha sua coluna dizendo que “coerência virou um estorvo moral que não rende curtida nem palanque”. Pois digo: coerência, hoje, é reconhecer que há lados. E nosso lado é o da liberdade de existir sem pedir desculpas. A Parada do Orgulho não é hipocrisia — é resistência.


*Ronaldo Piber é advogado e colunista do Pimenta Rosa


 
 
 

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