“Hétero Sigilo”: monólogo de Bernardo Dugin transforma violência LGBTQIAPN+ em denúncia sobre o peso do silêncio
- Pimenta Rosa
- há 15 horas
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Inspirada em ataque homofóbico sofrido pelo ator, peça estreia no Teatro Laura Alvim e expõe os mecanismos de apagamento e sobrevivência impostos pela heteronormatividade

A violência contra pessoas LGBTQIAPN+ nem sempre deixa marcas visíveis, muitas vezes, ela se instala no silêncio, na autocensura e na necessidade de disfarce. É esse território íntimo e político que o ator e dramaturgo Bernardo Dugin explora em “Hétero Sigilo”, monólogo que estreia no na próxima sexta-feira (06), no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro.
Com direção de João Fonseca e trilha original de Federico Puppi, o espetáculo nasce de uma experiência real de violência homofóbica vivida por Dugin e seu namorado, em 2023, durante uma missa de sétimo dia. O episódio teve repercussão nacional e resultou em processo judicial, no qual o padre responsável se tornou réu por racismo qualificado. Ministério Público do Rio de Janeiro também solicitou indenização por danos morais coletivos à população LGBTQIAPN+, reconhecendo o impacto simbólico da agressão.
Mais do que revisitar o trauma, o espetáculo propõe uma reflexão profunda sobre os mecanismos sociais que impõem o silêncio como forma de sobrevivência.
“O espetáculo não é sobre assumir uma orientação sexual. É sobre o que a gente precisa esconder para continuar existindo sem ser punido por isso. A violência não começa no soco; começa no silêncio que a sociedade nos obriga a manter”, afirma Dugin.
O peso de viver sob disfarce
Em cena, Dugin compartilha sua vivência de anos interpretando uma versão heterossexual de si mesmo para se proteger da violência e do julgamento. O relato revela o custo psicológico dessa performance constante, evidenciando como a heteronormatividade opera não apenas como norma social, mas como estrutura de controle.
“Hétero Sigilo” não se limita a uma narrativa individual. A peça ecoa experiências coletivas de pessoas LGBTQIAPN+ que, em diferentes contextos - familiar, religioso, profissional ou social -, aprendem a esconder partes de si para garantir segurança, aceitação ou simplesmente o direito de existir.
Sob a direção de João Fonseca, conhecido por sucessos como “Minha Mãe é uma Peça” e “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz”, o espetáculo ganha contornos que equilibram intimidade e denúncia.
“O que me interessa em ‘Hétero Sigilo’ é que ele não aponta o dedo, ele expõe um sistema. É uma peça íntima, mas profundamente política, porque fala do preço que se paga para caber numa norma que adoece”, revela o diretor.
A trilha original de Federico Puppi atua como uma camada emocional contínua, ampliando tensões, silêncios e estados psicológicos do personagem, transformando a música em elemento dramatúrgico essencial.
Do silêncio individual ao fenômeno coletivo
Antes de chegar aos palcos, “Hétero Sigilo” nasceu como um projeto transmídia que rapidamente se transformou em espaço de escuta e identificação coletiva. Durante a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ na Avenida Paulista, a instalação “Caixa do Sigilo” convidou pessoas a relatarem anonimamente experiências de invisibilidade, medo e autocensura.
Paralelamente, o perfil do projeto nas redes sociais satirizou situações vividas por pessoas que precisam manter suas identidades em segredo. O alcance foi imediato: quase 5 milhões de visualizações, evidenciando que o tema não é exceção, mas realidade cotidiana para milhares de brasileiros. Esse engajamento prévio revela a urgência do debate proposto pela obra.
Teatro como espaço de resistência e reconstrução
Ator com trajetória consolidada no teatro, cinema e televisão, Bernardo Dugin também é diretor do Grupo TACA, coletivo com cinco décadas de história em Nova Friburgo. Sua estreia como dramaturgo marca um novo capítulo em sua carreira, agora também como autor de sua própria narrativa.
“Hétero Sigilo” se insere em um contexto cultural e político em que corpos dissidentes seguem sendo alvo de violência física e simbólica. Ao transformar sua experiência em linguagem artística, Dugin não apenas ressignifica o trauma, mas amplia o espaço de representação e pertencimento.
“O espetáculo não é sobre assumir uma orientação sexual. É sobre o que a gente precisa esconder para continuar existindo sem ser punido por isso. A violência não começa no soco; começa no silêncio que a sociedade nos obriga a manter”, afirma Dugin.
Ficha técnica:
Dramaturgia e performance: Bernardo Dugin
Direção: João Fonseca
Assistente de direção: André Celant
Cenário e figurino: Nello Marrese
Trilha original e direção musical: Federico Puppi
Direção de movimento: Vanessa Garcia
Iluminação: Daniela Sanchez
Identidade visual: Loomi House
Assessoria de imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda
Fotografia: Nil Caniné
Produção: O Delirante Produções
Assistente de produção: Azul Scorzelli

SERVIÇO
Espetáculo: “Hétero Sigilo”
Temporada: 06 a 29 de março de 2026
Horários: Sextas e sábados às 20h | Domingos às 19h
Local: Teatro Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema (RJ)
Duração: 75 minutos | Classificação: 18 anos
Ingressos: R$ 60 (inteira) | R$ 30 (meia)
Vendas online: funarj.eleventickets.com
Instagram: @hetero.sigilo24 e @bernardodugin





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