LAVA JATO 2.0
- Eduardo Papa*

- há 23 horas
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*Eduardo Papa
Parece que foi ontem! Sob a batuta de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, uma súcia de traidores do Brasil, a serviço do governo dos EUA, urdiu no judiciário brasileiro o caso mais escancarado de lawfare da história contemporânea, estudado em academias de direito do mundo inteiro como exemplo de golpe político operado dentro do sistema jurídico de um país. A CIA conseguiu o que queria, derrubaram a Dilma e o petróleo do pré sal foi entregue as petroleiras estrangeiras. Como de hábito, tão logo conseguiram o que pretendiam, largaram seus asserts na pista. Moro e Dallagnol não lograram botar as mãos na parte dos bilhões da Petrobrás confiscados nos EUA a eles destinados (os dois administrariam uma fundação dedicada ao combate à corrupção. Que escárnio!), e os operadores de menor hierarquia no esquema estão enfrentando as consequências legais. Na lide política, Deltan não decolou e Moro, após ter sido humilhado por Bolsonaro, só tem conseguido expor sua mediocridade intelectual no Senado Federal.
No período Temer/ Bolsonaro, gangsteres da política como Eduardo Cunha e Arthur Lira tomaram conta do orçamento nacional e endossaram a privataria imoral, que propiciou casos escabrosos como o do almirante contrabandista de diamantes. Entretanto, quando descobriram que não existia artifício ou golpe capaz de reeleger um idiota perverso como Bolsonaro, abraçaram a ideia dos generais fascistas e apoiaram o golpe militar. Sim, o golpe de 8 de janeiro foi planejado, liderado e conduzido por militares da ativa das forças armadas do Brasil, como tantos outros o foram, mas esse foi investigado e tudo provado com evidências insofismáveis. Os golpistas de farda foram igualmente abandonados como os da toga, quando o Tio Sam desautorizou sua quartelada, e começaram a marchar direto para a cadeia.
Com os golpistas militares, ao menos temporariamente, contidos nos quartéis, era de se esperar o script habitual, o novo governo social democrata “engraxa” os políticos da direita e vida que segue, só que não! O judiciário contra ataca, Flávio Dino troca a toga pela capa dos vingadores e aponta baterias contra a turma que deitou e rolou na farra do orçamento secreto, a água começou a bater no pescoço de gente muito poderosa e foi declarada a guerra. Caciques experientes, com décadas de atuação na “bancada BBB” (do boi, da bala e da bíblia), passam a orientar a atuação de um grande número de deputados espalhafatosos e de baixíssimo nível, eleitos pela extrema direita através das redes sociais, em oposição furiosa, para paralisar o executivo e desestabilizar a banda do judiciário que não os favorece, vide o fetiche e o pavor que a careca do “Xandão” desperta nos arraiais da extrema direita.
Eclodiu o escândalo do Banco Master. A princípio com potencial de ser a pá de cal na campanha da direita brasileira. Tarcísio de Freitas, o candidato queridinho da Faria Lima, após privatizar a água de São Paulo, com aquela martelada escandalosa, pegou a grana toda e comprou títulos podres do Master, cujo primo do dono foi o maior doador de sua campanha, e da de Bolsonaro também. Cláudio Castro limpou o caixa do instituto de previdência dos funcionários do Rio e perdeu tudo no cassino do Master. Ibaneis Rocha nem se fala, botou tanto dinheiro de Brasília lá que no final queria comprar o passivo todo do banco para esconder o caso. A patranha toda ocorreu com a complacência conivente de Campos Neto, o indicado de Bolsonaro para o Banco Central. Nesse cenário, Papi Lula, com forte apoio nas camadas populares, bom desempenho na área econômica e uma atuação impecável na política externa nesse momento conturbado, parece nadar de braçada para reeleição em outubro.
A direita acuada nas cordas do ringue político tentou desesperadamente virar o jogo com uma nova tentativa de lawfare, uma versão 2.0 da Lava Jato. Como na Justiça Federal do Paraná, tudo começou com uma campanha difamatória procurando identificar os políticos dos partidos populares com a corrupção, tentando tirar a bomba do colo de seus aliados políticos e transferir para os desafetos. O modus operandi é simples: jornalistas de veículos da grande imprensa, sempre capitaneados pela Globo, começam a difundir fakenews, baseadas em supostas fontes, que nunca aparecem ou mostram indícios comprobatórios de suas informações, visando associar políticos progressistas à corrupção; as informações, com uma capa de credibilidade trazida pela mídia, são amplificadas de maneira estridente, pela extrema direita nas redes sociais, onde recebem o acréscimo de outras mentiras adicionais, ainda que depois desmentidas ainda vão continuar circulando; políticos de direita utilizam dessas fakenews para gerar fatos políticos reais, a abertura de uma CPMI, por exemplo; fatos concretos são encadeados com mentiras e inseridos em um enredo previamente montado para destruir as reputações de quem esteja no caminho.
O problema é que agora a armação do golpe não ficou restrita a uma vara de primeira instância no Paraná, ao encargo de um juiz medíocre como Sérgio Moro, mas tramita no STF, coisa de cachorro grande, mesmo assim o mecanismo foi acionado. Malú Gaspar, do time das “meninas do impitima”, liderou a campanha a partir da Globo, que encontrou uma repercussão imensa em toda a imprensa e nas redes sociais, para afastar o Ministro Toffoli do processo. Além de terem sucesso, contaram com o sorteio organizado por Fachin, que levou a relatoria do caso para o ministro terrivelmente evangélico de Bolsonaro. Mendonça assume o caso indica para tocar as investigações policiais federais de sua estrita confiança (sob a custódia dos quais suicidou-se sicário, pertinente alcunha do jagunço do banqueiro), e coloca a tática tradicional da Lava Jato em prática: manda prender Vorcaro em uma cela comum em presídio de segurança máxima e ordena pressão total, sem banho de sol, sem visitas, e leva o banqueiro ao desespero (ele chegou a se machucar em um acesso de fúria batendo nas paredes da cela), até o prisioneiro aceitar uma delação premiada para melhorar sua condição. Ao mesmo tempo a equipe policial providenciava vazamentos seletivos do material do celular de Vorcaro, com o intuito de dirigir as investigações para nomes da esquerda, desviando o foco dos governadores bolsonaristas e Campos Neto, o presidente do BC que autorizou a criação do Banco Master, que vicejou em sua gestão.
O esquema em andamento parecia um rolo compressor, depois de afastar Toffoli dirigiu as baterias contra Moraes (vazadores chegaram a apresentar mensagens de outra pessoa no celular do banqueiro como se fossem do ministro). Entretanto, a Procuradoria Geral entrou no circuito e mostrou que o inquérito estava sendo dirigido de forma parcial, com a exclusão de determinadas linhas de investigação, e com o Ministro André Mendonça usurpando funções precípuas da PGR, que assumiu as investigações. Gonet trocou os policiais (foi quando os vazamentos passaram a ser mais “democráticos”) e enviará o resultado das investigações para análise pelo plenário do STF. Os lavajatistas do momento tomaram um tranco, a delação do banqueiro será conduzida pela Procuradoria e não poderá ser dirigida para favorecer ou prejudicar ninguém, mas apenas para busca de esclarecimento real dos fatos (pelo menos é o que se espera). O Ministro André Mendonça ficou mal na foto, e a turma da “banda de música” na imprensa vai ter que aturar a fúria do Xandão pelas fakenews que vinham sendo produzidas contra ele. A ala política do conluio também acabou ficando acuada, com alguns parlamentares com sérias explicações a dar, a exemplo do deputado Nicolas Ferreira, amigão do Vorcaro, que fazia campanha para Bolsonaro nos jatinhos do banqueiro, sem falar do senador fotografado no surubão do Vorcaro de sunga com duas escandinavas no colo.
O golpismo perdeu mais essa (já está virando goleada), mas não podemos nem imaginar o que vem por aí na campanha desse ano, nesses tempos de IA. Subestimar a Globo é mortal, acompanhei de perto e sofri na carne o processo de destruição política de Brizola e do PDT trabalhista, levado a cabo em anos e anos de campanha sistemática e implacável, eivada de mentiras contra o velho caudilho e Darcy Ribeiro. Ainda mais agora que a propaganda golpista recebe o suporte das redes sociais dos bilionários estadunidenses. Porém, hoje existe uma rede de canais independentes que sustentam uma blogosfera onde podem circular desmentidos eficazes contra a avalanche de fakenews que vem por aí, e o brasileiro médio já está meio que vacinado contra esse mundo da enganação. Eu o que posso fazer é trazer para o leitor um ensinamento que recebi com a simplicidade genial do velho Brizola: “Está em dúvida quanto a uma posição a tomar? Veja qual é a da Globo e apóie o contrário”.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)



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