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Lima Barreto: o progresso e as permanências do racismo no Brasil

Foto do escritor: Luiz Carlos Campos*
Luiz Carlos Campos*
há 4 horas
4 min de leitura


*Luiz Carlos de Sá Campos


A ficção, ao se entrelaçar com os modos de compreender e narrar o mundo, possibilita perceber dimensões da realidade que nem sempre se mostram de maneira evidente. Nesse sentido, aquilo que é imaginado ou inventado pela literatura não se opõe necessariamente à verdade, pois pode trazer à tona experiências, contradições e sentidos da condição humana que os registros históricos e as explicações científicas, por si sós, nem sempre conseguem alcançar.

 

No conto “Dentes negros e cabelos azuis”, de Lima Barreto, publicado em 1918, a reflexão sobre as contradições do projeto republicano brasileiro permite problematizar os sentidos atribuídos à ideia de progresso e os lugares destinados àqueles que, historicamente, foram colocados à margem da sociedade. A representação das periferias e dos corpos socialmente marginalizados evidencia as desigualdades que atravessavam o projeto de modernização do país durante a Primeira República. Sob a influência do pensamento positivista de Augusto Comte, o lema “Ordem e Progresso”, incorporado à bandeira nacional, expressava os ideais de uma elite que defendia determinada concepção de desenvolvimento, sem necessariamente romper com as desigualdades sociais e raciais herdadas do período escravocrata.

 

Nesse contexto, chama a atenção a ausência da palavra “Amor”, presente na formulação positivista mais ampla, que compreendia o amor à humanidade como princípio moral e a fraternidade universal como fundamento das relações sociais. No Brasil pós-abolição, pensar o amor como princípio organizador exigiria ir além de um valor abstrato. Seria necessário reconhecê-lo como prática política capaz de enfrentar as estruturas de exclusão e as permanências de uma ordem social marcada pela escravização e pela marginalização da população negra. O projeto republicano precisaria, portanto, rever essas heranças e questionar um modelo de progresso cujos benefícios não alcançavam todos os grupos sociais.

 

Ao transformar a realidade em alegoria, “Dentes negros e cabelos azuis” abre uma fissura no discurso civilizatório da modernidade. O conto evidencia as contradições de uma sociedade que, em nome do progresso, restringe a presença de determinados corpos no espaço urbano. Essa reflexão dialoga com processos de segregação socioespacial, marginalização e higienismo, que deslocam grupos vulnerabilizados para as periferias ou os submetem à criminalização nos centros das cidades.

 

Não se trata de procurar vilões ou mocinhos nas disputas políticas atuais, mas de compreender como a literatura de Lima Barreto, em diálogo com a história e com o presente, oferece indícios para pensar uma sociedade mais democrática. O conto também pode ser lido pela estrutura mise en abyme, ou narrativa em abismo: uma história aparece dentro de outra, criando um efeito de espelhamento. Esse recurso ajuda a problematizar as contradições da modernidade brasileira do início do século XX.

 

Esse projeto de sociedade era marcado por contradições e práticas autoritárias. A ideia de progresso não significou a superação das desigualdades sociais e raciais. Ao contrário, algumas formas de exclusão foram reorganizadas sob novas justificativas e permaneceram nas relações sociais e na ocupação dos espaços urbanos. A leitura de Lima Barreto permite refletir sobre a permanência e a atualização dessas práticas no Brasil contemporâneo.

 

Para aqueles que ainda não leram o conto, vale apresentar uma breve síntese. A narrativa se constrói pelo entrelaçamento de histórias: Gabriel apresenta um texto de sua autoria, cujo protagonista é um homem de aparência incomum, marcada pelos dentes negros e pelos cabelos azuis. Sua aparência fantasmagórica, quase demoníaca, provoca medo em um assaltante que o aborda durante a madrugada. Entretanto, ao ouvir sua confissão sincera de angústia e desespero, o gatuno é tomado pela piedade, devolve o dinheiro e vai embora, deixando o homem ainda mais consumido pela dor.

 

É justamente essa passagem que me leva a pensar em declarações da vida pública brasileira que expõem a desumanização de pessoas negras e a permanência de concepções racistas. Entre elas, estão as seguintes afirmações: “O indivíduo afrodescendente de menor peso naquele lugar pesava sete arrobas e sequer seriam vistos como aptos à reprodução” e “Tenho cinco filhos, sendo quatro meninos; no quinto nascimento dei uma fraquejada e veio uma mulher”. Imagine agora essa mulher se fosse preta.

 

Essas declarações permitem questionar os sentidos de humanidade atribuídos às pessoas negras e os preconceitos que atravessam as relações sociais. Quando pessoas negras são reduzidas a medidas de peso, associadas à reprodução ou utilizadas como referência depreciativa, não estamos diante de simples opiniões isoladas. São discursos que revelam como o racismo pode se manifestar na linguagem, nas relações de poder e na própria definição de quem merece respeito e reconhecimento social.

 

É nesse ponto que a literatura de Lima Barreto permanece atual. Ao construir uma personagem cuja aparência provoca medo e rejeição, o escritor nos convida a questionar os critérios pelos quais julgamos o outro. Também nos faz reconhecer as contradições de uma sociedade que proclama o progresso, mas não assegura a todos o mesmo direito à dignidade e ao pertencimento. Mais de um século depois da publicação do conto, a pergunta continua necessária: de que progresso estamos falando quando a cor da pele ainda é usada para humilhar, excluir e negar humanidade?

 

Uma sociedade verdadeiramente democrática não se constrói apenas com lemas, discursos de modernização ou promessas de desenvolvimento. Ela exige o enfrentamento das desigualdades, o reconhecimento da dignidade de todas as pessoas e o compromisso com práticas que rompam com as heranças do racismo. Talvez essa seja uma das contribuições mais importantes da literatura: fazer com que enxerguemos, nas contradições da ficção, os limites e as injustiças da realidade que construímos. Afinal, o progresso que não alcança a todos não supera a desigualdade: apenas a mantém sob novas formas.

 

* Luiz Carlos de Sá Campos - Colunista do Pimenta Rosa. Doutor em Educação e mestre em Teoria da Literatura Brasileira. Pesquisador da FAPERJ. Professor da rede pública estadual e da Universidade Estácio de Sá.

 

 
 
 

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