O CORNO
- Eduardo Papa*

- 3 de ago. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 16 de ago. de 2025

*Eduardo Papa
Começo de chofre fazendo uma pergunta ao leitor, especialmente para os que já não pagam mais a condução e vivem em ambientes minimamente civilizados, lembram sobre o que se fazia piada meio século atrás? Claro que ainda há quem faça até hoje graça com coisa de causar engulhos em alguns, para obter gostosas gargalhadas de outros. Milhões de seguidores do filósofo que fugiu da escola na quinta série, incorporaram um de seus pensamentos mais populares: a crítica ao politicamente correto, coisas conhecidas, por quem presta no mundo, como o que é correto mesmo. Felizmente, nosso país é um exemplo de avanço civilizacional no mundo. Estamos construindo, não sem duras penas, uma cultura e um arcabouço legal, que impõe o respeito entre as pessoas. Pode fazer piada racista no Brasil? Não! Pode fazer piada homofóbica, misógina ou sexista de qualquer natureza? Claro que não! Da mesma forma que anedotas de cunho xenófobo. São todas punidas pela lei, e são punições pesadas. Fazer graça explorando a gordofobia, pessoas especiais, idosas, enfim, o buylling em geral vem sendo combatido no país. Mas piada de corno pode, não é mesmo?
E não adianta reclamar, afinal, como todos sabem, para o corno todo castigo é pouco. Poucas coisas comprazem tanto um ser humano, quanto a humilhação de outro ser humano. Geralmente afirmar a superioridade sobre outrem é a forma mais fácil e prática de elevar a autoestima, e como os alvos tradicionais de discriminação vem conseguindo reverter sua posição na sociedade, toda chacota do mundo recai sobre os menos equipados para a defesa, entre os quais figuram as pessoas que sofreram com a infidelidade de parceiros. Talvez porque os cornos sejam uma classe muito desunida, enquanto outros segmentos se organizam para autodefesa, os cornos sofrem em silêncio. Não há uma Parada do Orgulho Corno, associações ou ONGs em sua defesa, o que é natural, pois o mesmo geralmente ignora sua condição, sendo sempre o último a saber. E, uma vez tomando conhecimento dos fatos, a maioria procura evitar muita publicidade sobre os mesmos.
A origem do nosso personagem remonta o final das sociedades tribais e o surgimento da sociedade patriarcal, na Era do Bronze. Quando a linhagem paterna foi instituída para garantir a acumulação de bens e poder pelos “pater famílias”. A partir de então, a fidelidade sexual das esposas passa a ser um elemento crucial na moral sexual e o adultério feminino severamente combatido, quem nunca ouviu falar dos infames cintos de castidade? Porém, como sabemos, nem mandamentos bíblicos prometendo castigos infernais, nem punições draconianas aos infratores, impediram a multiplicação dos cornos. Acompanhados dos bastardos, uma nova figura também surgida no processo, que tantas guerras e disputas protagonizaram ao longo de milênios da civilização patriarcal.
Mesmo nos tempos atuais, em que parte da humanidade conseguiu construir um sistema legal e uma engenharia social, que facilita a solução arbitrada da dissolução de laços matrimoniais, frequentemente esses são mantidos formalmente muito além da real existência do amor carnal. Esse momento nebuloso é propício ao surgimento do corno, a internet e as redes sociais deram um impulso formidável à tendência. Veja no Dia dos Namorados, juras de paixão eterna ao “morzinho” no Facebook e a traição correndo solta no zap (tudo da mesma empresa), com segundos de intervalo.
A “cornitude” é uma condição tão relevante que ganhou grande espaço na academia, e não apenas na área de psicologia. Até mesmo o próprio Karl Marx abordou o tema, quando em seu Manifesto do Partido Comunista, acusou os capitalistas de, além de contarem com a possibilidade de assediar as mulheres proletárias e disporem de um exército de profissionais do sexo, sentirem grande prazer em cornearem-se mutuamente (coisa que as colunas sociais hoje em dia parecem comprovar sobejamente). De fato, vamos combinar que esse negócio de monogamia, de família tradicional, é coisa de pobre. No andar de cima, garantidos os matrimônios que ensejam a agregação de fortunas, e firmados os devidos contratos para blindar as heranças, rola de tudo, bilionários passam longe dessas preocupações morais pequeno burguesas. Nem precisa ser um Elon Musk, que tem 14 filhos conhecidos, ou um Mick Jagger, que coleciona uma prole enorme nos cinco continentes. Até mesmo um velho babão como Bolsonaro, que vivia de rachadinhas e pequenas fraudes, pôde trocar de esposa tão logo pesou-lhe a galhada, apenas para começar a cultivar um novo adereço na fronte. O casamento que não acaba mesmo é o das pessoas simples, que remam junto com dificuldades para manter uma estrutura familiar, para os quais uma separação geralmente significa um sério revés econômico, quando não a ruína.
Na Idade Média, um homem podia passar a sua vida inteira sem ver uma mulher considerada bela dentro dos padrões de beleza de sua época, hoje vivemos em uma era de hiper estimulação sexual. Além da pornografia propriamente dita, facilmente acessível a todos, a propaganda usa e abusa do apelo sexual. Como a classe dominante estabelece os padrões de comportamento, que são transmitidos ao conjunto da sociedade, através da indústria cultural e da mídia, seu comportamento licencioso, observado pelo velho Marx, ainda no século XIX, passa a ser parâmetro para as classes populares. Uma mudança de comportamento colossal, observada em brevíssimo tempo, obrigou agências governamentais, ao compor os cadastros para os programas de apoio social, a considerar as mães como chefes de família. Nas comunidades mais pobres de nossas cidades, pai é sujeito oculto ou indeterminado.
Nem mesmo essa onda conservadora, que ressuscitou a bolorenta Tradição, Família e propriedade, conseguiu refrear o sassarico. Abundam nas redes sociais cenas constrangedoras de pastores em seus púlpitos cobrados por sua infidelidade, e o crescimento constante do registro de divórcios é conclusivo. O consumismo permeia as relações afetivas, homens são criados para serem predadores sexuais insaciáveis, o que leva a instabilidade e insegurança nas relações. Aquela amante guindada à condição de esposa sabe perfeitamente bem que seu antigo cargo está vago, e a fila pode andar a qualquer momento. Um número cada vez maior de pessoas acaba desenvolvendo uma expectativa de transitoriedade de tudo em suas vidas. E o bonde dos cornos cada vez aumenta mais.
A classe é numerosa e pode ser subdividida em diversas categorias: há o corno por interesse, que aceita a infidelidade em troca de benefícios econômicos ou sociais, é a esposa que faz vista grossa para as puladas do marido para manter uma situação confortável, é o subalterno que aceita a traição por uma promoção; há o corno que aprecia a sua condição e tem o prazer de compartilhar o leito conjugal; há o corno opressor, aquele que merece a sua sina como nenhum outro, por sua fúria e violência em defesa de supostas prerrogativas afetivas. Mas a maioria esmagadora dos cornos é inocente e de nada sabe. O que coloca uma pulga atrás da orelha de todos nós, pois, potencialmente, somos todos cornos, já fomos um dia, ou ainda seremos no futuro.
Felizmente, evoluímos muito e a civilização brasileira é exemplo para o mundo: atualizamos nossa legislação acabando com resquícios ancestrais da sociedade patriarcal, como a tal “legítima defesa da honra”; garantimos a proteção das crianças, e a tecnologia dos exames de DNA eliminou dúvidas excruciantes; pessoas de todas as orientações sexuais conquistaram espaço para definir as formas de família que mais lhes convém; a discriminação é punida por lei. Tenho muito orgulho do nosso Brasil, que apesar da classe dominante perversa e traidora, que nunca aceitou tratar o povo como igual, apesar das precariedades na formação educacional e da brutal desigualdade econômica, está indo para frente. Aos trancos e barrancos, nosso povo tem acumulado conquistas sociais e econômicas e vem construindo um Estado inclusivo. A minha utopia é a de que, assim como foi o surgimento da propriedade que gerou a sociedade patriarcal, a superação do fetiche da mercadoria seja o marco final da imposição de relações afetivas, quando o vocábulo corno será usado apenas para definir certa porção da anatomia de alguns animais.
*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)




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