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O DIA DA INFÂMIA

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura
Iemenitas realizaram uma mmarcha com um mihão de participantes na capital Sanaa para reiterar seu apoio ao Irãe ao Líbano. Fonte: @PressTV

*Eduardo Papa

 

Dia 27 de fevereiro, sexta-feira (dia de guarda para os muçulmanos), negociadores estadunidenses e iranianos se reuniram para discutir os termos de um acordo para baixar a tensão entre os dois países. Ao final do encontro os participantes deram declarações tranquilizadoras, repercutidas em toda a imprensa mundial, de que estavam avançando e tinham a perspectiva de bons resultados. Na manhã do dia seguinte, a vida começa normalmente no Irã, nos EUA e em Israel, as mães mandam as crianças para a escola, o Aiatolá Kamenei, um octogenário de saúde debilitada, toma café com a esposa, a filha, a neta e auxiliares, quando bombas caem sobre sua casa matando a todos. No mesmo ataque, em uma pequena cidade no litoral do Golfo Pérsico, 175 meninas de oito a doze anos foram despedaçadas por explosões, junto com os funcionários da escola em que estavam. Um ataque exatamente igual ao que o Império do Japão executou contra o porto de Pearl Harbor no Havaí, definido por Franklin Roosevelt como o dia da infâmia. As forças armadas dos EUA comprometeram seu nome nesse crime de guerra bárbaro, que matou essas meninas e ainda matará muitas crianças inocentes, e passam a figurar na mesma prateleira que as forças armadas de Israel, para a qual matar crianças indefesas faz parte do serviço diário.

 

A degradação moral imposta pelo sionismo ao exército dos EUA combina bem com o presidente pedófilo que o povo americano elegeu para comandá-lo, um homem sem qualquer escrúpulo, que não faz questão nenhuma de esconder que destruir nações e assassinar pessoas em massa é o seu método para enriquecer o seu país. Caíram as máscaras e o mundo inteiro pôde ver que o imperialismo americano é pura pirataria. Entretanto, a arrogância característica dos estadunidenses os impede de perceber a lambança que fizeram, pois os impede de olhar os outros povos compreendendo as suas especificidades e características próprias, historicamente determinadas, são pessoas ignorantes para os quais tudo é espelho, não conseguem olhar para os outros com suas diferenças, e costumam entender suas próprias regras e costumes como universais. Deu certo na Venezuela, por um punhado de dólares Maduro foi vendido, mas no Irã o buraco é mais embaixo.

 

Scott Ritter, um analista militar norte americano, com décadas de serviço no setor de inteligência da marinha, afirmou categoricamente, logo após o ataque, que os EUA perderam a guerra no primeiro tiro, quando assassinaram o Aiatolá e sua família. Muito diferente da maioria de seus compatriotas, ele conhece a mentalidade do povo iraniano, e assinalou que ao transformar o líder religioso em mártir uniram os persas e os xiitas do mundo inteiro em uma reação de revolta contra os assassinos. Enquanto a CIA e o Mossad esperavam que seus agentes conseguissem insuflar o povo contra o regime, o efeito foi inverso, milhões de iranianos saíram às ruas pranteando a morte do Imã e exigindo vingança contra os agressores. E a Guarda Revolucionária Islâmica atendeu com vontade.

 

A retaliação iraniana foi brutal, com uma chuva de mísseis e drones disparados para todo lado. As bases militares dos EUA na região foram seriamente atingidas e perderam a capacidade operacional; Israel está sofrendo um bombardeio implacável e suas condições de defesa estão se degradando rapidamente; as monarquias sunitas, que prestam vassalagem aos EUA, também foram atacadas com força e descobriram que a proteção com que contavam não existe; o comércio mundial de petróleo será afetado com consequências dramáticas para a economia mundial, na Europa em especial; o exército da Ucrânia vai ver importantes recursos cruciais que espera receber do ocidente desviados para Israel, especialmente a munição para defesa aérea; quase 70% dos americanos desaprovam a guerra, que sob a luz da legislação americana é ilegal, pois não foi votada no congresso. Embora a mídia sob a hegemonia ocidental insista em mostrar as vitórias dos mocinhos americanos e israelenses contra os malvados terroristas muçulmanos, quem tem um mínimo de acesso a uma informação um pouco mais qualificada, já sabe que deu ruim. E como é de conhecimento geral, nada há de tão ruim que não possa piorar ainda mais.

 

O mocinho chegou todo pimpão para o tiroteio no saloon, mas não tem bala na agulha e está tomando chumbo grosso dos índios. O cara pálida (cara laranja no caso) achou que era coisa para 3 ou 4 dias, com sorte acabaria antes da bolsa abrir em NY, mas a tribo estava municiada e começou uma trocação violenta, tiroteio no escuro que sobrou para todo lado, e o herói da película ficou sem munição para defender seus protegidos. Deixou a caravana no deserto tomando bala. E agora John Wayne? Como é que vai ser? Trump está batendo cabeça, não diz coisa com coisa, a princípio a operação era para durar 4 dias, depois passou a 4 semanas, já andou falando em ataques até outubro, aparece em público desnorteado e cabisbaixo, fazendo afirmações genéricas sobre uma pretensa destruição generalizada no Irã, sustentadas em vídeos de seu exército bombardeando caminhões velhos. O fato é que a guerra está custando 1 bilhão de dólares por dia e o Pentágono pediu uma suplementação de verba de 50 bilhões para continuar a brincadeira.

 

O Irã está unido e conta com o apoio da China e da Rússia, gente que fala pouco e chuta a canela com vontade quando acha que deve. O Irã não vai recuar e nem ceder. Os EUA tinham como objetivo a destruição da República Islâmica, e a implantação de um regime títere, liderado pelo herdeiro do antigo soberano do Irã. Fracassaram de maneira rotunda, e acho que ainda vão ver algumas dessas monarquias que eles criaram para operar sua dominação na região caírem de podre. O que está acontecendo em Dubai, por exemplo: a população flutuante de bilionários, corruptos, traficantes internacionais e mafiosos de vários segmentos e diversas partes do planeta que ocupava seus hotéis luxuosos, para lavar o dinheiro que roubam pelo mundo, vai embora e não vai voltar tão cedo; não está entrando um níquel sequer da exportação de petróleo, a única riqueza do país; a população local que vive dos subsídios estatais vindos do petróleo pode ficar desassistida; ali não se planta alface nem cria galinha, os estoques de alimento fresco em Dubai hoje duram pouco mais que uma semana, e só quem está acostumado a passar fome lá são os paquistaneses e indianos que trabalham em regime análogo a escravidão; o exército derrotado foi derrotado e está humilhado, amargando um forte ressentimento pelo abandono dos EUA, que na hora da precisão privilegiou a defesa de Israel. Eu acho que o trono desses reis, sheiks e emires vassalos de Washington vai balançar.

 

E lá em Israel? Essa noite o seu Davi, que vota no partido trabalhista, vai sair de casa com a família para se meter num buraco junto com uma multidão, e passar a noite dormindo no chão, rezando para seu belo apartamento não ser destruído. Imagina na hora em que ele chegar lá e encontrar o seu vizinho Isaac, membro do Likud, que apoia Netanyahu? Enquanto a população iraniana está unida na defesa de seu país, o povo de Israel está profundamente dividido, embora seja minoria, a parte da população israelense que não apóia o belicismo expansionista e genocida deve estar em desespero, muitos irão embora do país, muitos já foram. Que futuro tem aquilo ali? Trata-se de um país pequeno, desértico e pouco populoso, com uma elite dirigente (boa parte residente nos EUA) que acalenta um projeto de expansão territorial, pela conquista militar de vastas áreas circundantes. Uma loucura! Esse Netanyahu é candidato a ser o Nabucodonosor moderno, quer reinar sobre a Síria e o Iraque, porém está tendo que enfrentar os persas antes de conquistar a sua Babilônia.

 

O mundo inteiro vai sentir o impacto econômico da guerra, inclusive o Brasil. Não terá para nós o mesmo efeito da crise do petróleo dos anos 70, quando ainda não éramos produtores, mas não vamos passar imunes, vai aumentar o preço dos combustíveis e deve haver uma pressão inflacionária. Entretanto, se a banca nos EUA não quebrar de vez com a insanidade de seu governante, não vamos sofrer tanto quanto outros países mais pobres. Eu não consigo deixar de lembrar dos cubanos, reduzidos às trevas pelo bloqueio naval criminoso dos EUA. Também vai ter quem vai lucrar, Putin está rindo à toa, vai ganhar os tubos vendendo petróleo para a China, a Índia, Japão, Coréia do Sul, etc. Quem vai se lascar feio vai ser a Europa, o continente já vive uma crise energética profunda, desde quando se autoimpôs uma abstinência dos hidrocarbonetos baratos da Rússia, vai piorar muito. A União Européia também está rachada, nem todos concordam em pagar pela aventura militar na Ucrânia. A Hungria está mobilizando tropas para a fronteira ucraniana, exigindo que Zelenski suspenda o bloqueio dos oleodutos russos que abasteciam seu país. Enquanto a população de seus países amarga privações econômicas, governantes europeus aumentam gastos militares. França e Inglaterra se apresentaram para unir forças com a coligação dos EUA, em uma patética tentativa de reviver os tempos de glória colonial, que chega às fronteiras do ridículo com o Macron anunciando pomposamente que vai mandar seu porta aviões.

 

Já que começamos a falar em ridículo, onde andam aquelas multidões de idiotas que empunhavam a bandeira de Israel por aí? Onde estão os traidores do Brasil que carregaram o bandeirão dos EUA na Paulista? Bem que podiam ir para lá. A CIA está juntando mercenários no Iraque para atacar o Irã, o clima é melhor que o da Ucrânia, a fonte pagadora é mais sólida, não é para enfrentar o exército russo, mas uns esfarrapados de uma tal de Guarda Revolucionária Islâmica. Tinham que mandar uma excursão dos Legendários Top Curdistão para lá, aí sim, essa é para macho alfa de verdade. Malafaia e a turma da Igreja da Lagoinha podiam aproveitar e fazer uns batizados no Rio Jordão, ia ser um estouro!

 

Mas parando de fazer graça com coisa triste, temos que refletir mesmo sobre o nosso Brasil. No mundo coberto pela névoa da guerra de nossos dias estamos completamente indefesos! O Brasil é um craque na diplomacia, e tem que ser mesmo, pois é o que sobra para quem não tem poder militar. Nosso presidente tem sido brilhante na condução da política externa, mas tem hora que tem que botar as barbas de molho, porque não tem dentes para morder ninguém. No século passado as guerras mundiais foram travadas bem longe daqui, com dois oceanos de distância separando os teatros de operação do nosso continente, hoje não. O novo mundo tecnológico em que vivemos de fato criou uma aldeia global, e um país do tamanho do nosso não pode ficar indefinidamente costeando o alambrado e bancando o bom moço na turma do “deixa disso”. Nossos recursos serão cruciais para a nova economia que está se desenhando, para que seja o nosso povo a decidir sobre sua aplicação e usufruir de seus resultados, será necessário construir um poder militar de verdade. Precisamos de forças armadas poderosas e de cuja lealdade não paire qualquer sombra de dúvida. Por uma fina ironia, só quem pode hoje transformar o Brasil em uma Venezuela são os militares, se venderem nossa soberania por um punhado de dólares, como fizeram os generais venezuelanos.  

 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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