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O HOLOCASTO DE GAZA

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • 8 de jun. de 2025
  • 7 min de leitura

*Eduardo Papa


Ilustração de Felipe Mendes - @ocoletordehistorias
Ilustração de Felipe Mendes - @ocoletordehistorias

A cidade de Gaza é um dos assentamentos mais antigos do mundo, com registros arqueológicos de cinco mil anos. Pertenceu a vários impérios na antiguidade, aos egípcios, aos gregos de Alexandre o Grande, aos romanos, e no Império Bizantino viveu um período de esplendor como um importante porto comercial. Durante a expansão árabe do século V, foi a primeira cidade conquistada pelos muçulmanos na região e tornou-se um importante centro da fé islâmica. Também passou por tempos ruins, sua destruição, a que assistimos hoje pela TV, não é a primeira da história. Em 1099 foi arrasada pelos exércitos de cruzados cristãos e passou por um longo período de decadência, tendo sido mais tarde novamente destruída por exércitos mongóis. No século XVI, Gaza passou por um renascimento no Império Otomano, voltando a ser um porto comercial importante. Após a derrota dos Turcos na primeira guerra mundial, Gaza passa ao domínio do Império Britânico. No Turbulento período após a segunda guerra mundial, que marcou a retirada dos ingleses da região e a fundação de Israel, Gaza passou ao controle egípcio em 1948, como resultado da Guerra Árabe Israelense. Em 1967, a região da Faixa de Gaza, foi conquistada pelo exército de Israel, o que marcou o início de sua nova destruição.

 

Nem sempre Israel foi totalmente dominado pelo sionismo fascista como hoje. Na estruturação do estado israelense, muito embora nas cidades predominassem a Haganah, a Gang Stern e outros grupos de sionistas terroristas (decisivos para a expulsão da Inglaterra), nos kibutz, o povo vivia uma experiência socialista, e boa parte dos seus habitantes vinha da União Soviética. O partido trabalhista foi importante na estruturação do Estado de Israel, que surgiu com uma legislação social avançada, mas para os palestinos a política sempre foi de cerco e aniquilamento. Ainda que exista uma oposição importante contra o sionismo entre os judeus israelenses, o Likud e as forças de extrema direita acabaram predominando e, paulatinamente, transformaram a Faixa de Gaza em um enorme campo de concentração, com 2,5 milhões de prisioneiros sendo exterminados sistematicamente. Não fazem nem tanta questão de esconder o genocídio, planos para explorar gás nas águas territoriais e construir resorts de luxo nas praias da região, são públicos. Quem compra a ideia de que Israel é uma democracia, ignora o fato de que o país não tem uma constituição, que sua legislação admite o uso da tortura por suas forças de segurança, que encarcera crianças de sete anos de idade e promove um processo de limpeza étnica de enorme violência em seu país.

 

A resistência palestina na região é épica, quem não se recorda das imagens das intifadas, com crianças enfrentando blindados com paus e pedras? Verdadeiros davis enfrentando os modernos golias. Porém, o cerco vem se apertando ano a ano, e o extermínio só faz se agravar. A Fatah (braço político da OLP do lendário Yasser Arafat) acabou encaixotada dentro dos limites impostos por Israel e teve sua credibilidade desgastada por constantes denúncias de corrupção. Os reis, sheiks e emires dos países vizinhos não dão a mínima para a matança, muito embora a população de seus países apoie em massa a causa palestina (abaixo vídeo da torcida do Raja Casablanca impressionante). E o apoio de organismos internacionais não consegue atender as colossais necessidades da população sitiada. Nesse contexto de desespero do povo, surgiu um novo ator político que impôs mudanças cruciais no cenário – o Hammas.



Durante a primeira intifada, em 1987, surgiu o Hammas (sigla de Movimento de Resistência Islâmica), a partir da Irmandade Muçulmana do Egito, que atuava em Gaza desde 1945. Enquanto a Fatah é uma entidade laica, que funciona como um partido político de centro esquerda, o Hammas é uma entidade religiosa, que ganhou enorme prestígio assistindo a população carente de tudo, e começou a disputar as eleições a partir do ano 2000. Teve um crescimento exponencial e, em 2006, ganhou as eleições para a Autoridade Palestina (eleições consideradas limpas por observadores internacionais). Mahmou Abbas, líder da Fatah, não reconheceu o resultado das eleições e, com o apoio de Israel e dos EUA, tentou impedir a posse do Hammas pela força, após graves conflitos, Abbas manteve o poder na Cisjordânia e Gaza passou a ser governada pelo Hammas.

 

O Hammas é uma organização religiosa xiita, que conseguiu sobrepor-se em uma região de maioria sunita, um detalhe fundamental, pois seu braço militar conta com o apoio do clero xiita do Irã e construiu nos subterrâneos de Gaza uma estrutura bélica robusta, acionada no momento preciso. Ao tempo em que Israel intensificava o massacre em Gaza, articulou com o apoio dos EUA o Compromisso de Abraão, em que os Estados Árabes vizinhos reconheceriam o Estado de Israel, praticamente sepultando qualquer chance de liberdade e autonomia para os palestinos. Em 7 de outubro de 2023, as Brigadas de Al Qassam, em uma ação militar ousada e bem-sucedida, romperam o cerco do exército de Israel, entrando em profundidade em seu território, atingindo importantes alvos estratégicos e capturando prisioneiros israelenses. Uma derrota inesperada e monumental para o governo israelense, que mobilizou seu exército para invadir Gaza, com a promessa de esmagar o Hammas em uma ação rápida.

 

Deu ruim! Nos conflitos anteriores era sempre um passeio do exército de Israel, em uma semana tudo resolvido, com os exércitos inimigos derrotados e os países vencidos, aceitando os termos impostos para a paz. Vitórias que construíram o mito do fantástico poder do Estado de Israel que, como estamos vendo, não se justifica. O tido como impenetrável sistema de defesa aérea (Iron Dome) é uma peneira. O tanque Merkava, joia de US$ 3,8 milhões da indústria bélica israelense, mostrou-se presa fácil para combatentes com armas leves nas ruínas de Gaza. As tropas de Israel apanharam uma coça humilhante dos combatentes palestinos esfarrapados e tiveram que recuar. Acabou a moleza! Uma coisa era enfrentar os exércitos do Rei da Jordânia ou do ditador do Egito, cujos quadros de oficiais são muito semelhantes aos nossos aqui da América Latina, todos grandes admiradores dos EUA e nem um pouco afetos a esse negócio de guerra, sempre mais interessados em obter benesses de seus estados nacionais. Agora não, as forças que eles enfrentam são carne de pescoço, exércitos de insurgentes bem-preparados e armados, com forte motivação e grande apoio da população em que estão inseridos.

 

A invasão de Gaza caminha para seu segundo aniversário, o drama humano vivido pela população local é algo dantesco, não deve nada ao que os judeus sofreram no holocausto nazista. O desespero da liderança israelense é evidente: não conseguiu cumprir os objetivos estratégicos que ela própria estabeleceu de destruir o Hammas e libertar os reféns; viu o Compromisso de Abraão ir para o espaço, pois os países árabes recuaram da proposta; acumulam prejuízos econômicos colossais com o esforço de guerra; cerca de um milhão de cidadãos de sua pequena população foi embora do país; seu exército foi desmoralizado por não conseguir derrotar um inimigo muito mais fraco e transformou-se em uma máquina de extermínio, operada por sanguinários brutais. A imagem do país nunca foi tão ruim em todo o mundo, ainda que a mídia ocidental faça de tudo para esconder a realidade e justificar o massacre, imputando a um povo inteiro a acusação de terrorismo.

 

Aqui no Brasil, as notícias dos conflitos na região nunca chamaram muita atenção, por mais drásticas que fossem as consequências para nosso país (explosão dos preços do combustível, aumento da inflação, etc.), a repercussão do evento em si na nossa sociedade era mínima. A imprensa tratava como algo longínquo, que de modo algum poderia arranhar o caráter pacífico de nosso povo, era obrigatória a matéria com comerciantes árabes e judeus abraçados da Rua da Alfândega, atestando para o mundo a harmonia da nossa sociedade. Porém, a ascensão da nova direita radical trouxe o conflito do oriente médio para cá.

 

A mídia sempre foi favorável a Israel, que contava com o apoio do nosso grande irmão do norte e campeão do mundo livre, enquanto os árabes andavam de parceirada com a URSS. Agora não tem mais União Soviética, mas o apoio da imprensa é ainda mais uníssono e ruge furiosamente em favor da estrela de David. Coberturas absolutamente parciais, espalhando fake news sem desmentir e dando a voz, sem qualquer contraditório, a colunistas que babam de ódio aos palestinos. Surgiu ainda uma fiel torcida organizada para Israel entre os fiéis dessas Igrejas Levantadas, que curiosamente amam e defendem, com unhas e dentes, a mesma teocracia que crucificou o seu Messias. Por outro lado, segmentos de esquerda e mesmo de centro democrático, que sempre manifestaram apoio a causa palestina, passaram a assumir uma postura de engajamento mais efetivo, promovendo campanhas de solidariedade aos palestinos.

 

Como em toda guerra, a primeira vítima é a verdade, e as redes sociais são o terreno perfeito para a desinformação, uma vez que os algoritmos podem direcionar interlocutores para alguns conteúdos e esconder outros. Com todo mundo conversando dentro de suas bolhas, a reflexão é pequena e os maiores absurdos acabam sendo aceitos sem discussão. São pessoas de esquerda jurando que o Hammas é uma organização comunista. Não é, trata-se de um grupo religioso fundamentalista. São os direitistas bradando que o Hammas é uma organização terrorista. Não é, os atos de terrorismo cometidos em Israel, no 7 de outubro, foram perpetrados por outras organizações palestinas armadas (há várias em Gaza), que entraram em Israel após o Hammas romper o cerco fronteiriço. São pessoas afirmando que quem está contra Israel é antissemita, como se os palestinos também não fossem semitas, uma confusão que tanto pode ser maliciosa como fruto de ignorância mesmo. Enfim, como tudo hoje em dia, as pessoas falam sobre assuntos de que nada entendem com ar professoral, em grande parte das vezes, movidas por paixões que pouco ou nada tem a ver com o assunto que abordam. Eu não sou um especialista, mas estudei o bastante para  garantir que o que ocorre em Gaza é sim um genocídio, algo monstruoso que a cada criança palestina morta eleva a culpa, não só dos assassinos que operam a matança, mas daqueles que aplaudem sua macabra obra.


 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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