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O IMPÉRIO DO MAL CONTRA-ATACA

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • há 1 dia
  • 6 min de leitura
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*Eduardo Papa

 

Nós, brasileiros, crescemos admirando a cultura estadunidense. Não apenas nós, mas também nossos vizinhos latinos e gente do mundo inteiro, que acabou adormecendo entorpecida pelo sonho americano, após a segunda guerra mundial. Hollywood fez mais pela influência dos EUA no mundo que todas as canhoneiras, porta aviões e bombas nucleares de seu arsenal. Décadas de forte investimento em controle da mídia e da indústria cultural, acabaram fazendo com que muitos brasileiros aceitassem a carapuça do Zé Carioca, criada para nós por Walt Disney nos anos 40. Crescemos vendo os americanos como os mocinhos enfrentando os bandidos, do Capitão América ao Superman, fomos expostos de forma continuada a uma infinidade de personagens e enredos, que justificam a supremacia branca e a excepcionalidade estadunidense no mundo.

 

Nelson Rodrigues, em sua genial sacada de identificar o viralatismo como elemento constitutivo da sociedade brasileira, detectou no inconsciente coletivo dos brasileiros um sentimento de inferioridade em relação aos “irmãos do norte”. Essa gente brancarana (que em nosso caso, devido ao passado colonial, compreende também europeus, em especial os do norte) é idolatrada pelos nossos vira-latas: eles são o padrão de beleza; são mais inteligentes; mais trabalhadores; já ouvi até dizerem que são mais honestos que nós (imaginem só os maiores piratas da história da humanidade!). Com base em um bombardeio continuado de propaganda ideológica, acabou surgindo uma espécie de “fã clube” dos EUA em nossa terra. O tipo de gente que se enfia debaixo de um bandeirão dos EUA na Avenida Paulista, apoiando uma pressão de Trump contra o nosso país, alguns chegando a pedir abertamente a invasão ianque no Brasil.

 

Claro que são uma minoria (felizmente), mas não são tão poucos assim, e dentro da massa de idiotas que buscam a posição de capachos do Tio Sam por puro amor, há uma gente perigosa que age de caso pensado, Desde a sórdida campanha para depor Vargas, e depois Jango, que a CIA investe pesado no Brasil para a infiltração de agentes e a cooptação de “asserts” a seu serviço. O exemplo recente mais destacado foi Sérgio Moro e a turma da Lava jato, mas além da área jurídica, há uma enorme “rede de simpatia” aos EUA atuando nos meios de comunicação, entre os militares, no meio empresarial, e em inúmeros setores da sociedade brasileira. Essa rede é apoiada pelo poder econômico de empresas e investidores estadunidenses com sólidos interesses diretos em nosso país. Essa estrutura real, somada a influência exercida pelas empresas que controlam as redes sociais no país, é capaz de potencializar a ação dessa minoria de traidores da pátria brasileira em momentos cruciais, representando um risco real para a nossa soberania.

 

Voltarei a abordar o caso da Venezuela, quando as informações disponíveis permitirem análises mais conclusivas. Mas creio que estamos bem mais vulneráveis que nossos vizinhos caribenhos nessa ofensiva escalada pelo imperialismo americano no continente. Quando não por outro motivo, pelo fato de já estarem aguentando o tranco há bastante tempo, na República Bolivariana formou-se uma massa crítica que sustenta a contestação do poder e a negação da ideologia imposta pelo império, por isso mesmo a mão lá veio pesada. Enquanto aqui, a hegemonia de correntes reformistas, ou calcadas no identitarismo, dispersou o foco da esquerda e facilitou a infiltração de ideias e quadros cooptados pelo imperialismo, na modalidade que alguns denominam como globalismo.

 

No Brasil, os interesses econômicos do império estadunidense estão tão arraigados, que não há setor da nossa classe dominante que ouse desafiar a hegemonia do irmão do norte. A Faria Lima é a porta dos fundos de Wall Street, empurrando para seus clientes produtos indexados ao dólar negociados na bolsa de NY. A burguesia agrária, só agora, depois de apanhar muito, está entendendo que os EUA não são um comprador confiável, mas um concorrente predador e desleal. O que restou do capital industrial no Brasil não parece ter fôlego para mais nada, está vendo seu próprio mercado interno escorrer entre os dedos, e, sem projeto que possa ser atrelado ao desenvolvimento do país, parece condenado a viver mendigando isenções e subsídios, apenas para sobreviver.


O meio castrense é outro calcanhar de Aquiles, contar com a lealdade de nossos generais é uma temeridade, talvez seja o setor estatal mais cooptado pelo imperialismo, com uma vergonhosa tradição de golpes de estado orquestrados pela CIA. Hoje andam de vara curta, depois que finalmente alguns deles tiveram que pagar por seu aventureirismo e traição, mas são as mesmas pessoas. Eu não duvido nada que na hora H os clubes militares do Brasil ensaiem novamente a velha historinha de salvar o Brasil do comunismo, o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, etc.

 

Os meios de comunicação de massa e as redes sociais são terreno quase totalmente dominado pela CIA e os interesses diretos dos EUA, nem sequer disfarçam, são meros repetidores do discurso do império, e difusores dos conteúdos de suas agências de notícias e influenciadores simpáticos. Já vimos inúmeras vezes o poder desse segmento para desestabilizar politicamente o país e induzir nosso povo ao erro. E a batalha ideológica nesse setor ainda conta com um componente amplamente desfavorável ao Brasil, qual seja a presença importante de veículos dominados pelas igrejas neopentecostais, um capítulo a mais dentre as influências perniciosas que recebemos dos EUA.

 

Ao que tudo indica o plano do império para o Brasil passa pelas eleições desse ano. O jogo vai ser muito pesado, já vimos do que são capazes de fazer, e agora que definiram como prioridade apertar a dominação sobre a América Latina, vão vir sem remorsos. Da nossa parte sofremos com a tibieza das forças políticas de esquerda, no meu entender, demasiadamente confiantes no poder judiciário na defesa da lisura do jogo político, o que a história comprova que pode ser temerário. A parada que vamos enfrentar vai ser duríssima, mas eu penso que a real definição do nosso futuro próximo passa tanto pelas nossas eleições gerais de outubro, quanto pelas eleições parlamentares de meio de mandato nos EUA, em novembro. E eu acho que as nossas melhores chances não estão na nossa capacidade de defesa, mas nos problemas que Trump está criando para eles mesmos.

 

Quem observa a história da humanidade, sabe que a decadência de um império nunca é indolor, e geralmente vem acompanhada de espasmos violentos, mas a velocidade com que o processo está se dando nos EUA e a radicalidade das mudanças que se vislumbra no horizonte, é de tal magnitude, que não é absurdo prever mudanças drásticas e imprevisíveis no cenário político, tornando a possibilidade de uma ruptura institucional cada vez mais factível. O fascismo estadunidense, que voltou ao poder com Trump, parece enlouquecido, tanto é que há médicos questionando a sanidade do presidente. É bem verdade que não se pode descartar um quadro demencial de Trump, mas aquilo que parece desatino na verdade é fruto do desespero de uma oligarquia que está vendo o mundo ruir sob seus pés.

 

Os tempos em que parte da população americana desfrutava de uma porção da riqueza apropriada no mundo pelas empresas do país acabaram, aquela classe média que morava em belas casas nos subúrbios e andava de cadilac está falida e em extinção. O povo americano empobreceu de maneira exponencial, milhões de sem-teto são campo fértil para a epidemia de fentanil, que mata cem mil por ano de overdose. A capacidade de exportar seu déficit para outros países do mundo está com os dias contados, devido à falência da ordem econômica criada pelos próprios EUA, ao final da segunda guerra mundial, com a desdolarização demonstrando ser um processo irreversível. E o mais grave é que as perspectivas são de uma nova crise econômica, com potencial de gerar uma depressão profunda, devido a uma bolha que se forma com os investimentos bilionários em IA pelas empresas de tecnologia, que não parece serem possíveis de gerar lucros compensadores.

 

A resposta agônica do império está sendo violenta. A imposição de uma ofensiva econômica predatória e militarista, para extorquir as riquezas e dilapidar os recursos naturais de países do mundo inteiro, com ênfase especial na América latina. A ameaça de guerra para dobrar quem resistir é a aposta do fascismo nos EUA, consubstanciada internamente na repressão violenta a opositores e a perseguição implacável de imigrantes, escolhidos como bode expiatório para a falência da nação mais poderosa do mundo, que não está conseguindo lidar com o fato de não conseguir sustentar a sua hegemonia econômica mundial. Na falta de respostas para o dilema econômico em que se encontram, a saída parece ser a de sempre, apelar para a força bruta: abusar da violência contra seu povo, recrudescendo a repressão política, que nunca foi pequena na pretensa pátria da democracia; retomar a diplomacia da canhoneira dos tempos da Doutrina Monroe, ampliando a exploração das economias do sul global; partir para a espoliação dos países vassalos, como os europeus, Japão e Canadá; atacar com tudo quem não se submetem como o Irã, por exemplo.

 

Tempos sombrios parecem estar chegando e nuvens de guerra pairam sobre a humanidade, a minha esperança é que no plano da geopolítica mundial, a aliança euroasiática, liderada pela China e Rússia, possa oferecer um contrapeso para barrar a política das guerras eternas do império. Enquanto internamente, a despeito da fraqueza e tendência conciliatória de nossas forças de esquerda, confio plenamente na combinação da ganância desmedida com a incapacidade cognitiva dos fascistas tupiniquins, uma coleção de idiotas de mau caráter, capazes de construir sua própria derrota sem precisar de grande ajuda.  

 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 
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