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O JULGAMENTO DA TRAIÇÃO

  • Foto do escritor: Eduardo Papa*
    Eduardo Papa*
  • 31 de ago. de 2025
  • 6 min de leitura

Ilustração de Felipe Mendes - @ocoletordehistorias


*Eduardo Papa


Finalmente! Depois de amanhã começa o julgamento da cúpula da organização criminosa que tentou um golpe militar no Brasil. Um momento histórico, os leitores dessa coluna talvez se lembrem de quando abordei a tradição golpista das forças armadas no Brasil, que tentaram assumir o poder manu militari, cerca de uma vez em cada nove anos em nossa jovem república. A grande novidade é que dessa vez estão sendo responsabilizados e serão julgados, algo inédito e de grande significado. A tradição brasileira sempre foi a de passar a mão na cabeça de golpistas quando eles fracassam, e fazer deles heróis, quando são bem-sucedidos. Tradição que faz parecer a tentativa de assalto ao poder um bom negócio. Vejamos o caso dos golpistas de 1955 e 1961, foram tentando e sendo anistiados até obter sucesso em 1964. O julgamento que o STF começa agora é um marco histórico de grande importância, pela primeira vez a sociedade brasileira vai barrar o golpismo e punir os aventureiros, oxalá esse processo, uma vez terminado, tenha o condão de desestimular novos candidatos a ditador em nosso país e contribuir para o fortalecimento de nossas instituições democráticas.

 

A certeza da condenação dos réus deve-se a robustez das provas apresentadas pela autoridade policial, serviço facilitado pela absoluta incompetência dos criminosos, que produziram provas de sua ação delituosa em profusão, deixando rastros claros, com evidências a serem colhidas a cada passo, documentando em minúcias a sua trama. Não foi só a famosa minuta do golpe, impressa no gabinete presidencial e guardada na casa do Ministro da Justiça; o sicário celerado, dublê de general, encarregado do assassinato de Lula, confessou o crime, ante o volume de provas apresentadas no inquérito. Recentemente, foi divulgada uma mensagem do celular apreendido de Bolsonaro, recebida de outro réu no processo, que se encontra preso e usou um celular de cartão para não ser rastreado. O genial estrategista de alta patente, que ao que parece usufrui de uma cadeia padrão clube militar (onde tem direito até a telefone), só foi identificado porque assinou a mensagem criptografada que mandou para seu comparsa – Braga Neto. Um verdadeiro idiota!

 

Felizmente, a direção errática os conduziu a um rotundo fracasso, e a indigência intelectual dos envolvidos propiciou o enredo de uma verdadeira ópera bufa. Uma rocambolesca trama que propiciou cenas de um ridículo nunca antes observado na história do Brasil, como o caso do Hélio Negão, fazendo greve de fome, com um esparadrapo na boca, em uma barraca de camping na frente do STF, bem fornida de sanduíches ocultos. Foi a senha para o início da pantomima dos deputados do esparadrapo, que retrataram o desespero dos golpistas, que enxergam bem perto a possibilidade de prisão. As micaretas da terceira idade promovidas pelos golpistas, ao passo que mínguam, oferecem um espetáculo cada vez mais cômico, reunindo uma fauna muito peculiar, unida pela profunda ignorância e a inabalável fé em seus líderes. Líderes que estão indo em fila para a cadeia, ao que parece agora até o líder religioso boca suja Malafaia será chamado a responder por seus atos. E todos, sem exceção, demonstrando uma pusilanimidade extrema, ao ponto de policiais suspeitarem de uma possível fuga do chefe da ORCRIM no porta malas de um automóvel.

 

O evidente primarismo dos criminosos não lhes diminui a culpa, apenas permitiu que suas nefandas intenções ficassem às claras, as investigações policiais apontam que provavelmente o golpe iria gerar um banho de sangue no Brasil, coisa que qualquer um podia constatar observando o ódio estampado na expressão das pessoas que defendiam AI-5, ditadura e tortura. E a continuada tentativa de diminuir a culpa dos chamados “bagrinhos” do 8 de janeiro, que setores da mídia e políticos reacionários vendem como “pacificação”, nada mais é que uma tentativa de naturalizar a violência e a bestialidade que propunham para o Brasil. Todos tem que pagar pelo que fizeram. A impunidade seria um estímulo para a continuidade do crime, o que como vimos nossa história comprova, mas dessa vez foram pegos com a boca na botija e vão pagar pelos seus atos.

 

Um fator complicador é a identificação de Trump com seu coleguinha golpista aqui do Brasil. Também candidato a ditador em seu país, ele enxerga na punição de Bolsonaro seu possível futuro, e partiu com tudo para a defesa do “Trump dos Trópicos”. Para nossa sorte, o norte-americano é tão tapado como seu congênere tupiniquim, impôs tarifas que acabaram com o cafezinho e o churrasco do seu povo, e entrou em uma espiral descendente antes mesmo do final do primeiro ano de sua gestão, com os ataques contra o nosso país surtindo um efeito oposto ao desejado. A quinta coluna aqui do Brasil anda envergonhada, aceitando a carapuça de traidores e entreguistas, uma pecha horrorosa para os que se diziam arautos do patriotismo, e são forçados a acompanhar a saga de Eduardo Bolsonaro, implorando diuturnamente para que o governo americano prejudique o nosso país, sem sequer ter a decência de renunciar ao mandato de deputado e deixar de ser pago pelo país a que trai miseravelmente.

 

O ataque despropositado de Trump contra o Brasil, claramente sem justificativas econômicas, tão somente para livrar seu parceiro brasileiro, colocou o mundo inteiro ao lado do Brasil, e portas se abrem para o nosso comércio em todos os continentes. O mundo inteiro estará com os olhos voltados para cá essa semana, e nós poderemos, orgulhosamente, demonstrar ao mundo o tamanho da derrota que impusemos ao fascismo. Certamente o julgamento terá a cobertura da mídia de todo planeta, a vergonha de Bolsonaro e seus comparsas, será traduzida em diversos idiomas e exposta mundialmente, das escaldantes areias do Saara até as estepes geladas da Sibéria, dos pubs londrinos aos cafés de Istambul, toda a humanidade vai testemunhar, e poderá acompanhar ao vivo a vitória da democracia no Brasil. A nossa vitória, de um povo sofrido, explorado e humilhado, mas que venceu essa, e vai comemorar, e como vai.

 

E a marca da traição é um estigma realmente poderoso. Bolsonaro poderia ser condenado por furto (de joias, no caso), por prevaricação (nas rachadinhas), por crimes ambientais (passando a boiada com o Salles), por genocídio (tanto na pandemia, quanto o dos yanomamis), por falsidade ideológica (na falsificação do atestado de vacina), isso que eu me lembre de momento, mas vai dançar pela traição à pátria, muito justo e apropriado, não? É para lavar a alma dos brasileiros. Não tem dinheiro que pague a satisfação de ver os gorilas brutamontes e candidatos a torturadores, essa gente violenta e ameaçadora, que no poder parecia carregar o rei na barriga, choramingando no banco dos réus, e delatando uns aos outros na esperança de reduzir suas penas, comprovando que a traição é a sua vocação mais profunda.

 

O perigo foi conjurado no momento, mas seria importante aproveitar a oportunidade para tentar sanear de vez nossas forças armadas, livrando nosso meio castrense dessa aparente vocação irresistível para o golpismo, da paixão desenfreada pelo poder, e da crença infundada de que são os salvadores da pátria. Se nada mudar, daqui a alguns anos voltam a tentar uma nova quartelada. É preciso ser radical, no sentido de ir até a raiz profunda do problema: de onde os milicos daqui tiram a ideia absurda de que tem o direito de tutelar a nação? Lecionei mais de quatro décadas para jovens do ensino médio, muitos deles candidatos ao ingresso na vida militar, cheguei a trabalhar por algum tempo em cursos preparatórios para as escolas militares. Ora, eram todos jovens iguais aos outros, que escolheram caminhos diferentes e buscaram sua formação em outras áreas. Como explicar que esses outros, com o tempo e ao avançar na formação de sua personalidade e caráter, dividam-se, quanto às ideias políticas, entre os diversos matizes ideológicos presentes na sociedade, enquanto os que ingressaram nas academias militares sejam, em sua quase totalidade, capturados pelo espectro da direita mais reacionária?

 

Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço! É como funciona a pedagogia nessas verdadeiras escolinhas de formação da juventude hitlerista, em que se transformaram nossas escolas militares. São disponíveis na internet, imagens de Jair Bolsonaro lançando sua candidatura à presidência em uma formatura de cadetes da AMAM (em flagrante crime eleitoral), então dirigida pelo golpista Villas Boas Corrêa. Acusam os professores do Brasil daquilo que eles próprios fazem continuadamente, é doutrinação ideológica na veia. Formam-se como adultos profundamente reacionários, e pior, com a pretensa ideia de que são responsáveis por tutelar a nação, e dizer em quem o povo pode ou não pode votar, ou o que governantes eleitos podem ou não podem fazer. Uma mentalidade profundamente arraigada em nossas forças armadas, que se não for extirpada é garantia da reprodução do golpismo militar no futuro.

 

Há muito que ser feito no plano político institucional, para disciplinar nossas forças militares e policiais, mas por ora vamos curtir o show dos magistrados crescendo para cima dos brucutus, além do personagem principal da trupe, diversos coadjuvantes de peso devem abrilhantar o espetáculo. Vamos ver o poço de arrogância que é o general Heleno, sentadinho no banco dos réus, ao lado dos coleguinhas, ouvindo sua sentença, que provavelmente o levará a passar o resto de seus dias atrás das grades. Poderemos conferir, ao vivo, a expressão na derrota daqueles que estariam a nos perseguir, caso sua intentona prosperasse. Eu já comprei minha pipoquinha, a cerveja e ajeitei a agenda de atividades para não perder nenhum momento importante. E no final, se mandarem os caras para a Papuda mesmo, aí a micareta é nossa.

 

 

*Eduardo Papa - Colunista, professor, jornalista e artista plástico (www.mosaicosdeeduardopapa.com)

 
 
 

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